Ainda há gente de bem

É. Ainda há gente de bem.

Fui recentemente a Portugal. Costumava ser a minha mãe a vir cá, mas começa a ficar demasiado frágil para tais caminhadas. E assim, meti-me eu ao caminho. Sozinha, com as minhas rodinhas por companhia. Estive por aí umas semanas, vi algumas coisas, ouvi umas quantas mais, gostei de muito pouco do que vi e ouvi, e voltei a vir-me embora.

Por causa das minhas rodinhas, regra geral preciso de assistência especial, sobretudo se calho de viajar só e durante um ‘período mau’. Aterramos, e vem-me ao encontro um jovem. Silvério de seu nome. O processo de assistência especial é complexo e demorado, e acabamos em conversada para ocupar o tempo. Contou-me das misérias que se vão fazendo, os cambalachos, as negociatas de bastidores. Como esse velho jogo de termina contrato agora e volta a contratar daqui a três meses pelo mesmo salário ou mesmo um salário inferior se continua a jogar. Contou-me muita coisa. Foi o meu bem-vinda a Portugal, ouvir com os meus ouvidos o que vinha a ler por esta e outras casas.

Foi o mesmo no regresso. Avança para mim em passadas largas e um sorriso de orelha a orelha. –“Olá”, diz-me, “está com tão bom aspecto! Portugal fez-lhe bem.” Eu rio-me. Portugal faz-me sempre metade bem. O pior é a outra metade.

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