Ainda há gente de bem

É. Ainda há gente de bem.

Fui recentemente a Portugal. Costumava ser a minha mãe a vir cá, mas começa a ficar demasiado frágil para tais caminhadas. E assim, meti-me eu ao caminho. Sozinha, com as minhas rodinhas por companhia. Estive por aí umas semanas, vi algumas coisas, ouvi umas quantas mais, gostei de muito pouco do que vi e ouvi, e voltei a vir-me embora.

Por causa das minhas rodinhas, regra geral preciso de assistência especial, sobretudo se calho de viajar só e durante um ‘período mau’. Aterramos, e vem-me ao encontro um jovem. Silvério de seu nome. O processo de assistência especial é complexo e demorado, e acabamos em conversada para ocupar o tempo. Contou-me das misérias que se vão fazendo, os cambalachos, as negociatas de bastidores. Como esse velho jogo de termina contrato agora e volta a contratar daqui a três meses pelo mesmo salário ou mesmo um salário inferior se continua a jogar. Contou-me muita coisa. Foi o meu bem-vinda a Portugal, ouvir com os meus ouvidos o que vinha a ler por esta e outras casas.

Foi o mesmo no regresso. Avança para mim em passadas largas e um sorriso de orelha a orelha. –“Olá”, diz-me, “está com tão bom aspecto! Portugal fez-lhe bem.” Eu rio-me. Portugal faz-me sempre metade bem. O pior é a outra metade.

Seis semanas em Portugal tinham-me feito, desta vez, uma montanha de bem no que diz respeito à saúde, e eu até estava bem melhor. Disse-lhe. “Posso talvez caminhar devagarinho, mas não posso levar as minhas rodinhas, nem o saco de emergências”. Regulamentos, diz-me. Tem que me dar assistência mesmo assim. “E o caminho ainda é mais longo do que à chegada, pelo que se ia cansar de certeza. É melhor assim, vai ver.

E lá vamos, e continuamos a conversada. E o percurso é efectivamente longo, mais longo do que à chegada, e tipo corrida de estafetas, com escadas para cima, escadas para baixo, elevadores, corredores e mais corredores e meia volta e mais do mesmo. Juraria que teríamos dado a volta a todo o aeroporto, para chegar onde quem chega, pelos seus próprios pés, descendo umas simples escadas e caminhando uns cem metros.

Nessas seis semanas o Silvério tinha tomado ‘a decisão’. O seu próprio contrato de trabalho expirava daí a duas e não ia ser renovado. Já tinha voo marcado para os States, e já tinha emprego. Já tinha também o coração nas mãos e em farrapos, e ainda faltava um pouco mais de um mês para partir. Ia deixar para trás os pais velhotes, e as três sobrinhitas que adorava. Mais um, disse de mim para mim. Senti os olhos aquecerem-se-me, e o bichinho habitual a remexer-me o peito. Não era suposto ser assim. Não era suposto ser para isto.

Chegámos ao destino. O Silvério pediu-me desculpa de ter de me deixar entregue aos meus botões naquela área de espera, mas só me podia levar para a área de embarque 40 minutos antes da partida, e para além disso essa era uma noite de muito movimento, e já só restavam metade dos assistentes. Nessas seis semanas, mais tinham visto os seus contratos terminados e não renovados. Nessa noite o serviço tinha um número invulgar de assistências especiais marcadas, e só dois deles ao serviço. Tinha mesmo mesmo de ir, disse-me, mas voltaria daí a uma hora para ver se eu precisava de alguma coisa.

Nos bancos ao lado das minhas rodinhas está um homem jovem. Talvez dos seus 25 anos. Está a ler um livro que eu tentei sem sucesso encontrar. Eu pego no meu, e daí a nada estamos a conversar, ele sobre o meu livro (que ele ainda não leu) e eu sobre o dele (que já li mas de que quero ter cópia minha). Calha que estamos ali para o mesmo avião. Ele em trânsito, eu para a minha destinação final. Fazemos companhia um ao outro. A conversa é um rio. O Silvério passa volta meia volta e sorri. “Oh, ainda bem que arranjou companhia!” Traz-me uma garrafinha de água, porque pensou que eu tivesse sede ou precisasse de tomar qualquer medicamento. As assistências especiais vão-se empilhando junto à porta. O Thomas e eu continuamos na nossa conversada, e nem damos nem pelo tempo passar, nem pela multidão que entretanto se empilhou naquela área de espera.

O embarque é turbulento. Despeço-me do Silvério, desejo-lhe tudo do melhor para a América. Que, ao contrário do que ele diz, muito mais do que um só sonho na vida dele se torne realidade. Ele só quer ter uma vida digna. Trabalhar, para não ter de depender do estado nem de ninguém, ter uma casinha modesta em vez de um quarto alugado, um mínimo de conforto. Pouca coisa. De repente, eu quero mais para ele, por ele.

Despeço-me do Thomas. Ele sorri e diz-me “Vemo-nos do lado de lá!“. E quando chego à recolha de bagagens, lá está ele. Acompanha-me também, ajuda-me com a minha mochila. Do lado de cá, o ‘special assistant’ é um homem abrutalhado que gosta de encostar a enorme barriga – e não só – às minhas costas e cabeça. O Thomas interpela-o por isso, e de cada vez que ele empurra a cadeira de rodas de encontro às colunas, às paredes, no elevador exíguo. É óbvio que o ‘special assistant’ está a fazer de propósito, por ter sido chamado à atenção. O Thomas exige ir comigo, diz ao homem que está comigo e que não me vai deixar só.

Chegados cá fora, o ‘special assistant’ despeja-me sem cerimónias da cadeira de rodas e deixa-me entregue ao Thomas. “Não é suposto fazerem isto, sabe? A Nina devia reclamar“. Mas eu estou cansada. São já sete horas a viajar, é demais para mim. Sentamo-nos a tomar um café enquanto o meu marido não aparece para me apanhar. E foi a última vez que vi a minha mochila cor de laranja, e o livro do Harris, e mais um do Sousa Tavares que me deram de presente enquanto estive em Portugal. E o meu laptop, e o meu filofax, e outras coisas assim insignificantes, como por exemplo todas as minhas senhas de todas as minhas contas online, e o meu molho de chaves, e as chaves do carro e o meu telefone e…

Anteontem de manhã recebi um telefonema estranho.

Hello? Is this Mrs. Light?”

“Speaking.”

“Mrs. Light, eu sou a Sheryl, da Biblioteca Central de XYZ. Desculpe estar a incomodá-la, mas temos aqui uma coisa que lhe pertence. É uma pequena mochila cor de laranja que nos foi entregue aqui na biblioteca pelo Sr. Thomas H., por causa de um livro nosso do Robert Harris que a senhora lá trazia… É uma história verdadeiramente incrível. Quando é que pode vir buscá-la?”

E eu fui. Buscar a minha mochila laranja, com a minha tralha preciosa dentro. Ingrata que sou, lá fui a resmoer entre dentes que o diabo da mochila podia muito bem ter-se resolvido a aparecer antes de eu ter tido de mudar todas as palavras senhas, e sobretudo antes dos dois meses passados em guerra aberta com a Yahoo. Ou o tal do Thomas H., seja ele quem for. Com a minha mochila, claro. O Thomas…? Ah! Será o do voo de regresso…?

Chego a casa, abro a mochila e inspecciono. Está tudo lá. Tudinho (menos o Harris, que devolvi à Biblioteca, e eles, que acharam a história tão extraordinária e inacreditável, devolveram-me o dinheiro da multa). Quer dizer. Está lá tudo, intocado, e mais qualquer coisa…

“Hi Nina!

Que trabalho que foi encontrá-la! Só dei pela sua mochila aos meus pés depois de se ter ido embora. Ainda corri, mas já não a encontrei. E que burro eu fui! Lembrava-me de me ter dito o seu nome e o nome do seu blog, e tentei encontrá-lo, mas não tive qualquer sucesso. Também não achei um endereço no seu filofax (desculpe por ter olhado). E depois um dia, por qualquer motivo, lembrei-me que o livro do Harris que estava a ler no aeroporto tinha uma referência de catalogação na lombada, e lembrei-me que é claro que a biblioteca tinha de saber quem era e onde morava… Desculpe estes meses, mas como lhe disse eu estava em trânsito e só agora regressei a Inglaterra. Não quis enviar por encomenda ou courier, porque o laptop podia danificar-se. Espero que esteja bem. Quando vier a Liverpool, diga-me alguma coisa. O meu telefone é […] Best regards, Thomas.”

Já lhe telefonei. Fartámo-nos de rir. E depois confessou-me que tinha ficado tão indignado com a atitude to ‘special assstant’, que tinha apresentado queixa por mim. Agradeci-lhe, claro. Quando for à linda Liverpool, vamos tomar uma cerveja, e falar mais, muito.

Só que eu agora, cada vez que passo por aquele canto ao fundo das escadas, só olho para a mochila, ali tão inocente, finalmente regressada ao escaninho na parede, e começo a insultá-la baixinho entre dentes: “Desavergonhada, marmanjona, oportunista, safada, traidora, corrupta, desonesta, aparece-te uma coisa bonita e lá vais tu, e andas-me a dar a volta ao mundo, sua folgada, e os outros, eu, que me amanhe… Prepara-te, menina, que vais já já já parar à eBay, acabou-se-te a reinação…”

Acho que vamos demorar imenso tempo a fazer as pazes, esta mochila e eu. Ainda há homens de bem – esta mochila é que me deixa muito a desejar. Só pode ser mesmo por causa do diacho da cor.

Comments


  1. Stranger than fiction. Mas sobretudo muito bem contado.

  2. José Peralta says:

    Sim, ainda há gente de Bem, como o Thomas ou o(s) Silvério(s) de coração partido, por esta gentalha o(s) “despejar” para o Estrangeiro.

    Agora, fico à espera “dos do costume”, a pôrem em dúvida a veracidade do depoimento de Nina Luz.

    “Os do costume” que dizem, como o inenarrável mamarracho montenegro, que o País “está melhor” (!!!!!) e que, “gente de bem”, são os pulhas que nos (des)governam…


    • José, obrigada, também fico à espera. Pensei nisso, ao contar esta história, até porque segui a outra. Só mudei o nome do rapaz, e omiti os aeroportos de partida e destino para que ele não possa ser identificado, e apenas porque lhe não pedi permissão para escrever sobre ele. Até porque tal nem sequer me passou pela cabeça na altura. São tantas, tantas as histórias deste género, que se as fosse contar todas precisaria de um livro inteiro.

      De facto, esta história só surgiu porque a companhia aérea declinou responsabilidade pela minha mochila porque a) não estava etiquetada, b) não tinha qualquer documento identificativo da minha pessoa dentro dela, embora o Thomas lhes tivesse dado até o número do meu assento no avião, e c) eu aparentemente tinha-a confiado ao Thomas, pelo que tinha deixado de ser ‘lost and found’ e da responsabilidade deles ou do aeroporto. Em vez de a abandonar para ser incinerada nessa noite, como muitos teriam feito, o Thomas teve o cuidado de a levar consigo, e de a entregar na biblioteca quando por cá passou. O Thomas deu autorização para o nomear, como a Sheryl deu, mas pediu para não identificar a biblioteca pois não tinha responsabilidade para dar tal autorização.

      E o ‘Silvério’, que se não chama Silvério, existe, tem 24 anos é alto e magro como um caule de milho painço, olhos marotos, pele trigueira e sorriso de orelha a orelha – e está neste momento na costa leste dos USA. Até sei a cidade onde está, quem o patrocinou para o ‘cartão verde’, e o emprego para que foi, e o que sonha ser profissionalmente. Foi de coração partido, como vivem de coração partido o casal que viajou ao meu lado num dos meus voos recentes, e que vinha visitar o filho, professor do secundário numa cidade das East Midlands – e ao qual não viam (ou a netinha) fazia dois anos. “Só pelo Skype, mas não é a mesma coisa, pois não? A senhora decerto que sabe…” A “senhora” até sabe. E sabe que ao contrário do que ‘os do costume’ parecem pensar, vir para o estrangeiro não é, para a grande maioria, uma fábrica de fazer ouro instantâneo.

      Portanto, José, ficamos os dois à espera, juntos. 🙂

      • José Peralta says:

        Nina Luz

        Eu é que lhe agradeço !

        Nos últimos dois anos, 200.000 Portugueses foram obrigados a emigrar, por esse degenerado coelho, mentiroso demencial, que lhes disse com insuportável descaramento, que o desemprego, “não é uma desgraça, um anátema”, e…até pode ser “uma oportunidade” !

        Anseio pela hora em que possamos dar-lhe, e aos cúmplices de que se rodeia, tão feliz “oportunidade”, que no caso dele será numa das empresas do padrinho, e no dos “outros”, no Goldman Sachs, e outros “patrões” do género…

        Donde, mais uma vez se prova que o crime compensa…

        E a prová-lo, temos recentes exemplos de como a “Justiça” é tão célere (refiro-me, é claro, ao sem abrigo que rouba um iogurte, ou à pobre e idosa senhora que “toma posse ilegal” de um creme de beleza, em qualquer super-mercado !)

        A respectiva ministra, disse logo no início do mandato, que “com ela a corrupção tinha acabado”…

        E não é que “acabou mesmo” ?


        • A mim o que me ofende mais é que este governo ‘democrata’ tenha conseguido competir com o regime de Salazar, no que diz respeito à imigração. Considero o direito ao trabalho um direito humano, e que sair do seu país para trabalhar ou viver deveria ser uma questão de escolha, e não uma necessidade premente de sobrevivência. E ofende-me que o governo português debite as palavras da chanceler alemã sobre a necessidade de mobilidade total da forca laboral do séc 21, tipo “é pegar ou largar e ide com dono”.

          Corrupção? Faz duas semanas ou coisa foi a tribunal algures aqui em Inglaterra um desempregado ‘sem abrigo’ e com o subsídio ‘sancionado’, por ter roubado duas maçãs numa loja. Levou 3 meses ‘dentro’, para aprender. Uma secretária de estado (Maria Miller) defraudou o estado em £90,000 esterlinas, lucrou £1,2 milhões com a negociata, e levou uma palmadinha na mão. Acho que lhe andam por aí a chamar ‘democracia’.


          • Desculpe lá Nina, mas é uma injustiça comparar este Governo com o do Salazar, no que toca à emigração. Basta ver que no tempo do Salazar eles não deixavam ninguém emigrar, enquanto que com este Governo, eles não deixam ninguém cá ficar! 😉

          • José Peralta says:

            Nina Luz

            Completamente de acordo !

            Por cá, como certamente não ignora, os grandes crimes económicos, fugas ao fisco de banqueiros e burlas de gente com muiiiiiito dinheiro, “costumam” prescrever ! (Vá lá saber-se porquê !!!!!)

            Ou “desactivam-se” pulseiras electrónicas e prisões domiciliárias !
            Ou “perdoam-se” multas de UM MILHÃO DE EUROS”…

            Talvez seja este, quem sabe, o “conceito” que esta escumalha de pulhíticos, tem dos “direitos humanos” !!!!!

            Por cá, o roubo de duas maçãs, ou qualquer crime “gravíssimo” como esse, também é julgado, com condenação do “perigoso meliante”, ao pagamento de 300 euros, ou prisão caso não os pague !

            Mas o que me admira é que, como conta, o mesmo se passe na “velha Albion” , dita “o berço da Democracia” !


  3. Caro eph: Tem imensa razão! Como é que só liguei a estatísticas e me fui esquecer desse pormenor…?!?! Dantes era ‘a salto’, agora é a pontapé – não tem comparação possível! Só quero ver é no que vai dar, se realmente as pensões forem indexadas ao crescimento demográfico e económico… Ninguém tem dinheiro para ter bébés, o Pedrocas manda toda a gente trabalhar para ‘a estranja’… Vai ser lindo. Esperemos-lhe pela volta. 😉

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