Ainda há gente de bem

É. Ainda há gente de bem.

Fui recentemente a Portugal. Costumava ser a minha mãe a vir cá, mas começa a ficar demasiado frágil para tais caminhadas. E assim, meti-me eu ao caminho. Sozinha, com as minhas rodinhas por companhia. Estive por aí umas semanas, vi algumas coisas, ouvi umas quantas mais, gostei de muito pouco do que vi e ouvi, e voltei a vir-me embora.

Por causa das minhas rodinhas, regra geral preciso de assistência especial, sobretudo se calho de viajar só e durante um ‘período mau’. Aterramos, e vem-me ao encontro um jovem. Silvério de seu nome. O processo de assistência especial é complexo e demorado, e acabamos em conversada para ocupar o tempo. Contou-me das misérias que se vão fazendo, os cambalachos, as negociatas de bastidores. Como esse velho jogo de termina contrato agora e volta a contratar daqui a três meses pelo mesmo salário ou mesmo um salário inferior se continua a jogar. Contou-me muita coisa. Foi o meu bem-vinda a Portugal, ouvir com os meus ouvidos o que vinha a ler por esta e outras casas.

Foi o mesmo no regresso. Avança para mim em passadas largas e um sorriso de orelha a orelha. –“Olá”, diz-me, “está com tão bom aspecto! Portugal fez-lhe bem.” Eu rio-me. Portugal faz-me sempre metade bem. O pior é a outra metade.

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O PSD está melhor, mas o país está pior

“Sabes Pai, o Miguel fez anos hoje. O bolo dele era fixe. Mas ele estava triste”, diz o miúdo no banco de trás.

Ocupado por outras conversas mais telefónicas, questiono:

– “Porquê? Ele não é do BENFICA?”

– “Não é isso. Ele até chegou a chorar depois do almoço. O pai dele foi para outro país trabalhar e foi embora mesmo hoje. Nem sequer ficou para os anos dele. Ele está muito triste. Eu também chorei porque não queria perder o meu pai.”

Sem palavras, só pedi a Deus que me colocasse à frente do carro o Luís Montenegro e até podia ser na passadeira…

Tempos

“Equipa britânica calcula que restem no máximo 3,25 mil milhões de anos de condições habitáveis na Terra, e no pior dos cenários, que podem agravar-se com alterações climáticas, só 1,75 mil milhões de anos.”

A degradação das condições de habitabilidade em Portugal é muito mais galopante, pois em muito menos tempo até o Governo começou a aconselhar os jovens a emigrar porque aqui não havia condições para viverem.
Por via das dúvidas, vou estar atento aos preços dos terrenos em Marte…

Ir para fora cá dentro

ImageOs sucessivos líderes políticos criaram um sistema que resolveu, durante décadas, todos os nossos problemas. Mas quem nos deu tudo secou tudo à nossa volta

O António trabalha na suíça numa pastelaria. O patrão diz que é o melhor empregado que já teve, e diz mais: Os portugueses são os melhores trabalhadores que há lá na terra dos cantões. António já fazia o mesmo na padaria Miranda em Freixo de Espada à Cinta, mas nota uma diferença fundamental – Aqui tenho mesmo que trabalhar, não conheço ninguém. Estou entregue a mim próprio.
O Rui trabalhava em Coimbra na construção civil mas regressou a Toronto no Canadá. Foi a família que o devolveu a Portugal num turbilhão de emoções feitas de barrigas de freira, crédito bancário e pasteis de Tentúgal. Quando a crise entrou foi-se outra vez embora. Ninguém lhe pagava. Os anos que viveu na Lusa Atenas foram feitos alegria, projetos sem orçamento, sol e praia, trabalhos a mais, simpatia e incompetência.

O problema de Portugal não é uma questão económica. É um questão de atitude. Qualquer trabalhador português emigrado é um Cristiano Ronaldo da vida. Pasteleiros na Suíça! Golo. Trolhas no Canadá! Vai buscar! Futebolistas em toda a parte? É sempre a aviar. Mas cá dentro, como sempre fizeram tudo por nós, ficámos uns calaceiros incorrigíveis. Só funcionamos bem quando estamos órfãos. [Read more…]

Emigrar, pois claro

Desde o início que este Governo afirmou que, entre outras coisas, queria reduzir a despesa pública, aumentar as exportações, melhorar a balança de pagamentos e diminuir o desemprego. Sendo assim, a melhor maneira de fazer tudo de uma assentada é promover a emigração.

Com gente a emigrar, temos menos povo a encher hospitais, a pedir subsídios ou a fazer despesa ao Estado. Poupa-se no Serviço Nacional de Saúde, poupa-se na Segurança Social, etc. É só poupar.

Depois, exporta-se aquilo que cada vez há mais: desempregados. Ao exportar, não só diminuímos o desemprego, como ainda se melhora a balança de pagamentos quer pelas próprias exportações quer pela remessa de poupanças dos emigrantes para Portugal. Até mesmo porque fica sempre cá alguém da família. Sim, porque há sempre gente teimosa.

Até se deveria reformular o lema da diáspora, para “Emigrar é preciso. Viver não é preciso”. Os tempos mudam, e os lemas também deviam mudar.

Pela primeira vez há uma verdadeira política de emigração. Aliás, política de incentivo à emigração. E numa altura em que tanta gente fala que há falta de estímulo e de incentivos.Com a emigração não faltam novos horizontes. São horizontes a perder de vista. Não falta mundo.

Antigamente, nos tempos idos de Salazar, que era muito bom gestor e sabia fazer contas, e de Caetano, que até gostava de conversar com as famílias portuguesas, nem um nem outro deu palavras de incentivo a emigrar. As pessoas tinham de ir por iniciativa própria, sem uma palavra de estímulo, nem nada. Ao menos, agora, há um Governo solidário. E as pessoas ainda reclamam. Com franqueza!

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