As tardes da tia Júlia

O título é apenas um pretexto para vos dizer que vou em negócios a Angola em Fevereiro. Mas tive que ir a um hospital levar umas “picas” e, enquanto esperava, fui vendo a TVI, mesmo que não quizesse não havia mais nada para fazer e, além disso, quem é que aguenta os gritos estridentes da Júlia?

A Júlia arranja sempre uns ” indigentes mentais” que vão para ali contar histórias de fazer chorar a calçada, ter os seus quinze minutos de fama. Mas eu tenho pena das pessoas, a maioria são umas pobres, vão para ali fazer o programa a quem ganha muito com isso, sem perceber que estão a ser usadas.

Mas tambem aparecem umas “tias” a contar umas histórias de grandes amores e desamores, hoje era uma ao telefone a contar que tinha morrido com uma grande paixão, por amor, dizia ela, enquanto a estridente Júlia enchia o ambiente com os seus risos e ditos sem nexo, entre o gozo e o divertido.

Fui chamado para a “pica” contra a “amarela” o que me deixou da mesma cor , amarelo “Pombalino”, que é uma cor que faz rir muito as senhoras enfermeiras, enquanto me mandam tirar a camisa para me darem uma injeção no braço, ainda hei-de perceber como é que o meu braço chega à barriga e aos “rinholes”…

Bem, enquanto esperava pelo certificado que atesta que estou protegido da “amarela”, comecei a pensar como é que um gajo se protege de uma televisão que usa as pessoas e as põe a fazer de imbecil. Uma forma é ir para Angola, outra ir para o ” campo com lobos” sem luz e outra é desligar o televisor, que é o que eu faço. Mas isso não faz desaparecer a verdadeira questão que é haver quem se utilize da “candura” de outros e outras.

Em programas televisivos norte-americanos já vi bem pior, com os dólares a acenar, jovens e gente adulta a fazer declarações sobre a sua vida privada que me deixa estarrecido!

Por acaso eu aprendi depressa, quando cheguei ao local da reportagem é que descobri que tinha o bairro todo contra mim, eu era o gajo que atirava com o fumo da chaminé do hospital para cima da roupa a secar às janelas e nas varandas e, segundo a “tia” de serviço, bastava haver boa vontade da minha parte.

Enfim, fiz figura de besta e imbecil tudo no mesmo programa!

PS: podem começar a fazer sugestões sobre “souvenires” a trazer de Angola. Nada de diamantes nem petróleo e muito menos uma jibóia juvenil…

A arte de vivermos a vida dos outros como se fosse a nossa

Eu sou da opinião de que as figuras públicas têm que ter comportamentos ligeiramente diferentes das pessoas ditas normais. Especialmente se estas figuras públicas fazem parte do cenário político de um determinado país, ou seja, pessoas que possuam algum tipo de responsabilidade para com o bem-estar da população. E o comportamento de que falo está relacionado com questões de integridade e honestidade, e outros valores do género. Estes valores têm obrigatoriamente que estar presentes na vida profissional desta gente, por uma questão de ética e moral.

A vida privada já é diferente. Exemplo: eu posso criticar a postura do Cristiano Ronaldo dentro do campo. Posso criticar-lhe a falta de humildade, e falta de outras qualidades que ele, como futebolista e como ídolo de muitos, devia ter. Nunca me passaria pela cabeça criticá-lo pela vida pessoal que tem. A vida privada de cada um é isso mesmo: privada.

O caso do Tiger Woods, um homem com uma carreira fantástica, que ganhou imensos torneios e prémios e que de todas as maneiras honrou o seu país, é representativo de tudo o que está errado com a sociedade americana. Do escrutínio terrível por que passam aquelas pessoas. E agora, foi forçado a desistir da carreira que tinha por causa de um escândalo que nem sequer tem nada a ver com o desporto que pratica.

Se Tiger Woods consumisse drogas, ou se fosse acusado de dopping ai sim, tinha obrigação de se desculpar e de se retirar. Mas por amor de Deus, alguém me explica como é que possível que um desportista excelente seja obrigado a abandonar a sua carreira por ter tido relações extra-conjugais? Mas o que é as pessoas têm a ver com isto?

Esta mania, porque eu não consigo dar-lhe outro nome, de nos metermos na vida dos outros atinge, actualmente, proporções inacreditáveis. E infelizmente, é um fenómeno que se está a espalhar. Será que não há ninguém que se aperceba que isto é sintoma de uma sociedade muito doente?