Eu, tu e o Tejo

Eu,Tu e o Tejo

O PSD está melhor, mas o país está pior

“Sabes Pai, o Miguel fez anos hoje. O bolo dele era fixe. Mas ele estava triste”, diz o miúdo no banco de trás.

Ocupado por outras conversas mais telefónicas, questiono:

– “Porquê? Ele não é do BENFICA?”

– “Não é isso. Ele até chegou a chorar depois do almoço. O pai dele foi para outro país trabalhar e foi embora mesmo hoje. Nem sequer ficou para os anos dele. Ele está muito triste. Eu também chorei porque não queria perder o meu pai.”

Sem palavras, só pedi a Deus que me colocasse à frente do carro o Luís Montenegro e até podia ser na passadeira…

Os meus respeitos, senhor Pacheco

 

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“Passos Coelho tinha dito que anunciava as medidas para a reforma do Estado durante o mês de Fevereiro. Acaba amanhã.

Está a pensar na manifestação de 2 de Março, com medo de anunciar medidas antes dela.
E por isso quando dizem que as manifestações não contam para nada, é mentira. Contam e este é um exemplo.”

(Pacheco Pereira, na noite passada, na TVI24)

 

Tu és melhor do que tu

Faz-me o favor…

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny, in “O Virgem Negra”

Antologia da sacanice económica

A economia tem duas maneiras de ser albardada: com pessoas ou com números. É a diferença entre a esquerda e a direita. A direita quando discute economia fala assim:

as empresas (…) sabem tomar as suas decisões sem recorrer a António Borges ou aos que o aplaudiram. De facto, tem sido comum nas empresas privadas nestes últimos anos a contenção salarial, quando não mesmo o congelamento dos salários nominais (o que implica a descida dos salários reais) ou a diminuição de prémios de produtividade e outras regalias. (…) [Read more…]

O Guerra

Tinha o Zé oito anos, quando na escola em que estudava chegou um colega que se chamava Guerra, que era bem mais crescido de corpo do que qualquer um dos demais colegas. Mas por razões que a ignorância de então jamais apurou, era um miúdo mentalmente frágil, atrofiado pelo medo, inseguro e submisso.

Naquelas idades as crianças revelam uma particular maldade. Razão pela qual o Guerra logo se transformou no “bombo da festa” da rapaziada da turma.

Todos mandavam nele. Todos lhe batiam. Todos. Incluindo o Zé, que arrastado por aquela corrente de maldade e crueza, sentia gáudio em exibir autoridade e domínio sobre aquele gigante submisso.

Um dia, o Guerra encontrou o Zé sozinho no recreio e pediu-lhe um lápis porque lhe haviam roubado o dele. Abordou-o medrosamente e disse-lhe:

– “Emprestas-me um lápis? Mas não me batas!…

O Zé ficou a olhar para aquele gigante de contradições. Tinha o nome Guerra, era mais crescido do que ele e pedia-lhe que não lhe batesse. Naquele momento as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Como sempre acontece, quando relembra esta história.

Lágrimas de arrependimento, de remorsos por todo o mal que sofreu aquele frágil gigante e em que ele foi cúmplice. Quando lhe deu o lápis sentiu que esse seu acto tinha sido o único gesto humano que tivera para com ele, ao fim de meses de escola.

O Guerra afastou-se numa humildade servil que o expunha a toda a violência. E o Zé não foi capaz de o acompanhar de regresso à sala de aulas onde o Guerra se refugiava durante os intervalos, pois sentiu que preferia estar sozinho do que acompanhado por uma ameaça.

Naquele dia sentiu-se o pior e o mais cobarde de todos os miúdos. Ganhou consciência de todo o mal que lhe havia feito, da crueldade de que era capaz. Naquele dia o Guerra atormentou-o por todos os males que lhe havia feito.

No dia seguinte, o Zé estava decidido a falar com ele, a pedir-lhe desculpa, muito embora o castigo estivesse sempre dentro de si.

Tarde demais: os pais do Guerra mudaram-no da escola para uma outra onde teria melhor acompanhamento. Ninguém na turma percebeu ao certo o que era isso. Dizia-se que tinha ido para uma escola de malucos. Mas o Zé sabia que malucos eram todos os que violentaram a sua inocência e a sua fragilidade.

Nunca mais o Zé viu o Guerra ou dele teve notícias. O rosto do Guerra, as suas expressões, ainda hoje as revê com a mesma nitidez da dos tempos de escola. Não sabe se superou as suas fragilidades, se fez amigos ou se continua um gigante submisso. Sabe que consciente ou inconscientemente o seu rosto se espelha na sua memória sempre que vê uma qualquer humilhação ou injustiça. O Guerra é para o Zé a definição de humilhação e de injustiça. E uma razão para desejar um mundo mais humano.

Um mundo que o Guerra não teve.

Os números da vida

O processo de envelhecimento, contínuo, inexorável, acompanha-nos a partir do fim do crescimento. Não damos logo por ele pois, durante um bom tempo, encaramo-lo como amadurecimento, onde vamos arquivando aquilo a que chamamos de “marcas do tempo”.

Pela frieza dos números da lapidar estatística, ultrapassei metade da minha esperança de vida. Já gastei metade do tempo que, previsivelmente, irei viver. E a verdade é que não dei por isso. Sem embargo das muitas coisas que vivi, e já foram algumas, não sabe a metade. Longe disso. [Read more…]

As tardes da tia Júlia

O título é apenas um pretexto para vos dizer que vou em negócios a Angola em Fevereiro. Mas tive que ir a um hospital levar umas “picas” e, enquanto esperava, fui vendo a TVI, mesmo que não quizesse não havia mais nada para fazer e, além disso, quem é que aguenta os gritos estridentes da Júlia?

A Júlia arranja sempre uns ” indigentes mentais” que vão para ali contar histórias de fazer chorar a calçada, ter os seus quinze minutos de fama. Mas eu tenho pena das pessoas, a maioria são umas pobres, vão para ali fazer o programa a quem ganha muito com isso, sem perceber que estão a ser usadas.

Mas tambem aparecem umas “tias” a contar umas histórias de grandes amores e desamores, hoje era uma ao telefone a contar que tinha morrido com uma grande paixão, por amor, dizia ela, enquanto a estridente Júlia enchia o ambiente com os seus risos e ditos sem nexo, entre o gozo e o divertido.

Fui chamado para a “pica” contra a “amarela” o que me deixou da mesma cor , amarelo “Pombalino”, que é uma cor que faz rir muito as senhoras enfermeiras, enquanto me mandam tirar a camisa para me darem uma injeção no braço, ainda hei-de perceber como é que o meu braço chega à barriga e aos “rinholes”…

Bem, enquanto esperava pelo certificado que atesta que estou protegido da “amarela”, comecei a pensar como é que um gajo se protege de uma televisão que usa as pessoas e as põe a fazer de imbecil. Uma forma é ir para Angola, outra ir para o ” campo com lobos” sem luz e outra é desligar o televisor, que é o que eu faço. Mas isso não faz desaparecer a verdadeira questão que é haver quem se utilize da “candura” de outros e outras.

Em programas televisivos norte-americanos já vi bem pior, com os dólares a acenar, jovens e gente adulta a fazer declarações sobre a sua vida privada que me deixa estarrecido!

Por acaso eu aprendi depressa, quando cheguei ao local da reportagem é que descobri que tinha o bairro todo contra mim, eu era o gajo que atirava com o fumo da chaminé do hospital para cima da roupa a secar às janelas e nas varandas e, segundo a “tia” de serviço, bastava haver boa vontade da minha parte.

Enfim, fiz figura de besta e imbecil tudo no mesmo programa!

PS: podem começar a fazer sugestões sobre “souvenires” a trazer de Angola. Nada de diamantes nem petróleo e muito menos uma jibóia juvenil…

Tu lá, tu cá

Hoje temos de aturar o tratamento na segunda pessoa do singular. Principalmente de de prestadores de serviços: “manda mensagens”, “navega à borla”, ” adere”, etc.

A sociedade de consumo parece estar só virada para “os jovens”, e, pelos vistos, acha bem tratar tudo da mesma forma.

É moderno (agora diz-se “radical”). É a lógica do “tu lá, tu cá”, a querer passar a mensagem de proximidade, para depois, na prática, quando temos algum problema para resolver, lá vem a distância, e o custo.

Exemplo desta falsa mensagem de proximidade que depois desemboca em distância, é a prática comum do método dos centros telefónicos de atendimento (agora diz-se “call center”), do atendimento à distância, em que um cliente para resolver um problema qualquer – a Internet não funciona, o telefone não tem linha, o sinal de televisão por cabo pifou, etc -, tem de pagar para ser ouvido.

Os números grátis são muito bons para promover produtos, ou dar informações genéricas. Já para se resolver uma falha de serviço que é da responsabilidade do respectivo prestador, tem de se ligar para uma “linha de atendimento” a pagar, um 808 ou 707 qualquer coisa. Sim, paga-se para se reclamar, paga-se para se exigir que alguém faça aquilo que é devido, ou seja que cumpra com a sua parte do contrato.

É tudo “tu lá, tu cá”, é tudo muito amigo, muito próximo. Até haver problemas.