Dividir para reinar

Maria do Carmo Vieira

Revejo ainda com nitidez, passados que são alguns anos, o rodopio de colegas, correndo atabalhoadamente, com um papel na mão, na direcção do Conselho Executivo, a fim de esclarecer uma série de dúvidas sobre os itens de uma suposta avaliação que privilegiava quase exclusivamente cargos, esquecendo a primordial função de um professor (ensinar), na esperança de aceder ao almejado lugar de «professor titular». Durante dias sucessivos, somaram-se pontuações, tentando-se, por vezes, ansiosamente, descobrir na Secretaria qualquer função que tivesse sido desempenhada e que correspondesse aos pontos necessários para atingir a pontuação mínima exigida.

Neste triste e estafado jogo de «dividir para reinar», aproveitando frustrações e ambições, entreteve o Ministério da Educação muitos professores, quais mercenários que orgulhosamente passaram a avaliar os colegas sem acessibilidade ao referido título ou que se recusaram a obtê-lo, tendo havido quem, em artigos de jornal, por exemplo, assinasse orgulhosamente: « x, professor titular». Triste imagem a de uma classe que teima em deixar-se dividir e que desperdiça também, vimo-lo, a força que alcança quando unida.

Agora, o Ministério da Educação, em tempo de crise austera, tenta idêntica estratégia, procurando de novo aliciar muitos professores do quadro «para mais este projecto», não só através de uma proposta de trabalho mal pago, mas também pela adulação no uso de uma linguagem que hipocritamente os apresenta  como «garante do rigor e da fiabilidade da classificação das provas, ao longo dos últimos anos». Neste caso, a prova é a de «avaliação de conhecimentos e capacidades, específica para a docência», mas que se destina exclusivamente aos professores contratados. Estes ainda terão de pagar 20 euros pelo acto da sua inscrição para um exame, que nunca solicitaram, quantia que será escandalosamente usada para pagar aos colegas que, sob a designação rasteira de «classificadores», corrigirão a referida prova. Três  euros é quanto o Ministério oferece aos professores pelo trabalho de classificação de «um item de resposta extensa», que deverá ter «entre 250 e 350 palavras», sendo cerca de 100 o número total de provas por classificador.

Se os Professores pensarem na sua função primordial, que é a de ensinar – verbo que etimologicamente significa «marcar», marcar benéfica e saudavelmente os alunos – responderão com o silêncio ao convite formulado pelo Ministério. Dessa forma respeitarão igualmente os nossos colegas contratados, muitos dos quais em situação de desemprego.

Maria do Carmo Vieira

Lisboa, 17 de Novembro de 2013

Comments


  1. Reblogueó esto en fermin mittilo.


  2. memória curta ahn ….mim num revê mim relembra muita cousa

    1992 e as alterações subsequentes
    1983 e a introdução em massa das novas tecnologgias da rank xerox pra substituir a velhinha gelatinex….
    a passagem dos tipos das comissões de instalação aos conselhos directivos
    e depois dos directivos aos executivos
    e agora directores e qualquer dia volta-se aos reithores

    a escola e o seu ensino infelizmente salvo casos raros a maioria dos quais no público como em…..prémio microsoft
    preencher __________________

    a escola repito escrevendo-o con ti nua a mesma

    tá é mai velha e enrugada

    passou de sócrates a só c’ratos ou só que ratos

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