O problema está mesmo no objectivo

Uma anedota velhinha conta o episódio de um médico estabelecido na vida que resolve tirar umas merecidas férias, deixando o consultório a cargo do seu filho, recém-licenciado em medicina. “Então, como correram as coisas?”, perguntou-lhe o velho médico no seu regresso. “Muito bem papá, até curei um doente.” O embevecido pai quis saber mais e o filho continuou. “Lembra-se do Sr. Itelvino que vinha cá há anos fazer curativo por causa da crosta na perna? Pois bem, arranquei-a, desinfectei e já não precisa de cá voltar mais.” Lívido, o pai exclama “Ai, que me levaste o melhor cliente!”

Vem isto a propósito do Facebook.

Agora, a empresa [Facebook] quer encontrar novas formas de ajudar as pessoas a encontrarem notícias que lhes interessem, assegurando que vêm de fontes seguras. [Slashdot]

A propagação de notícias falsas é um problema, sem dúvida. Mas apresentar conteúdos orientados para o perfil de cada leitor também. É o embrutecimento das pessoas, fechá-las para outras ideias, dar-lhes apenas um dos lados da argumentação.

O Facebook, e demais plataformas, tais como o wannabe português Nónio, faz este fornecimento de artigos à medida com o objectivo de aumentar o tempo de permanência na seu produto, tendo dessa forma mais oportunidades de apresentar anúncios. Tal como na televisão – e sabemos onde nos conduziram as guerras das audiências.

A raiz do problema é o próprio modelo de negócio deste tipo de empresas. Há quem se surpreenda com o crescimento do populismo. E no entanto, aí o temos continuamente alimentado pelo mural murado, essa visão construída à medida de cada consumidor de publicidade, perdão, de cada leitor.

Em grande medida, as notícias falsas, com a sua estratégia de levar o utilizador a nelas clicar, são também a expressão desta forma de negócio, pelo que o Facebook não vai resolver o problema. Vai aplicar uma mezinha e continuar a viver do furúnculo que o enriquece, tal como na anedota.