Eutanásia: é urgente combater a manipulação emocional dos instintos mais básicos e irracionais do ser humano

Fotografia: Nuno Botelho@Expresso

Um dos argumentos mais falaciosos daqueles que se opõem à legalização/despenalização da Eutanásia, é aquele que reza que a alternativa a “matar os velhinhos” está na expansão da rede de cuidados paliativos. E não é preciso ser-se um grande académico ou um profissional de saúde para perceber que este não é argumento sério.

Por muita importância e valor que possamos atribuir aos cuidados paliativos, e eles têm, na minha opinião, um enorme valor, a verdade é que, quem procura a eutanásia como solução, não quer cuidados paliativos, até porque, muito provavelmente, já fez esse caminho. Quem procura a eutanásia, com todas as salvaguardas que os ultramontanos afirmam não existir, quer, efectivamente, deixar de viver. É uma solução drástica, uma solução que choca e divide, mas não é, de forma alguma, a mesma coisa que procurar terapêuticas que minimizem o sofrimento e contribuam para proporcionar o máximo de qualidade de vida para um doente terminal. É outra coisa diferente.

Usar o tema do reforço e melhoria dos cuidados paliativos, como a difusão dos vários embustes que vimos nos cartazes das manifestações contra a eutanásia, as comparações absurdas e alarmistas de membros do clero ou os exercícios obscenos de manipulação emocional, levados a cabo em várias colunas de opinião, servem apenas para lançar a confusão e o medo, apelando aos instintos mais básicos e irracionais do ser humano. Como aconteceu com o texto de Laurinda Alves, no Observador:

Se ela morresse não maçava mais ninguém. Não ocupava uma cama no Serviço Nacional de Saúde, não punha os nervos dos enfermeiros e assistentes operacionais em franja, não exigia uma atenção suplementar dos médicos, não gastava recursos, não pesava no Orçamento de Estado e não fazia falta porque já é velha, está muito doente e só causa problemas. Se fosse eutanasiada, as outras pacientes poderiam não ver grandes melhoras na sua saúde, mas poderiam finalmente dormir em paz.

Aliás, pensando bem, a senhora do fundo do quarto, que está sempre caladinha a observar, e raramente diz uma palavra, também já não está ali a fazer nada. Não tem visitas porque o marido ainda é mais velhinho do que ela e está muito doente. Ele liga-lhe todos os dias, é certo, e quase sempre acaba a chorar ao telefone com saudades dela, mas não a pode visitar e aparentemente não existe mais família. Se calhar esta senhora e o marido também podiam ser aconselhados a pedirem a eutanásia. Porque não? Sofrem os dois, cada um em seu lado, sentem o peso da solidão e a impotência para alterarem a sua realidade, já pouco ou nada contribuem para a sociedade, ela ainda por cima também ocupa uma cama, toma remédios, faz análises e usa meios de diagnóstico que têm custos elevados. Parecem-me presas fáceis para os militantes da eutanásia lhes virem contar ao ouvido histórias com fim ‘feliz’ de pessoas que decidem partir ‘em paz’ e ‘com dignidade’.

Encaro a vitória do “não” com alguma naturalidade, até porque este debate, desde a sua origem, nunca foi um debate igual, equilibrado. E a discussão voltará ao Parlamento, já na próxima legislatura, o que permitirá alargar o debate, esclarecer mais pessoas e garantir mais tempo para desmontar os mitos e embustes que orbitam em torno desta questão. Para que, quando for tempo de decidir sobre ela, estejamos todos melhor preparados, para rebater os sofismas daqueles que nos querem convencer que a eutanásia é um esquema subversivo para matar velhinhos, ou que padece de qualquer semelhança com o Holocausto. Para rebater a desonestidade, a mentira e a manipulação emocional dos instintos mais primitivos do ser humano. Para rebater a falta de vergonha na cara e discutir, de forma séria, um tema importante demais para ser deixado, de ânimo leve, nas mãos de fanáticos sem escrúpulos.

Comments

  1. Jose Faustino says:

    O mais grave da questão é que não se trata de estupidez.
    Antes fosse.


  2. …”presas fáceis para os militantes da eutanásia lhes virem contar ao ouvido histórias com fim ‘feliz’ de pessoas que decidem partir ‘em paz’ e ‘com dignidade’.”

    …estas e outras insinuações insidiosas, perversas e arrepiantes são ainda mais perigosas que qualquer possível deslize da despenalização da eutanásia tão apregoado igualmente por essa gente e outra que até de tema tão delicado e complexo se serviram no Parlamento para jogo sujo de política partidária !

    Preocupante tudo isto, muito, de verdade !


  3. Claro que as pessoas não querem que matem os velhinhos. Pois se matarem os velhinhos acabam-se reformas, complementos solidários de reforma, rendimentos mínimos, reformas para pagar lares de terceira idade, etc etc. Só mesmo por isso é que ninguém quer que matem os velhinhos. Porque depois a realidade é que os velhos são cada vez mais agredidos pelos filhos, e abandonados à sua sorte nos hospitais, em que muitas vezes os médicos nem sequer lhes dão alta porque eles não têm para onde ir.

    Mas a questão não é sobre o que cada um de nós pensa sobre os velhinhos. A questão é sobre o que cada velhinho quer fazer da sua vida. Nada mais. E ninguém tem direito a mandar na morte dos outros. É tão simplesmente isto.

    • Bento Caeiro says:

      “E ninguém tem direito a mandar na morte dos outros. É tão simplesmente isto.”

      O problema é que não é tão simplesmente isto.
      Já o disse, por diversas vezes: não me interessa o que cada um faz conscientemente com a sua vida – apesar de saber que muitos deram fim à sua, não por não gostarem de viver, mas por não suportarem o tipo de vida para onde foram empurrados. Existem pessoas a mais e não me tira o sono mais uma ou menos uma vida. A questão que aqui se põe tem a ver com aqueles que, por razões específicas – heranças, riquezas, também os tais velhinhos -, serão, não o desejando, encaminhados para este destino. Como vê – contrariamente ao que diz – serão mesmo os outros a mandar na sua morte.
      Também não me venham com a fábula dos controlos, autorizações, supervisões, fiscalizações, inerentes aos procedimentos – todos nós sabemos como tudo isto é contornável e as pessoas, por natureza, não são boas.
      Veja-se, para já e para dar uma idéia da coisa, o que já se está a passar com as “barrigas de aluguer” que, ainda não aprovadas – pretensamente gratuitas e com muitos controlos e restrições -, já existem processos a correr no Ministério Público. Motivo? O surgimento de várias empresas a oferecer os seus serviços, pelas módicas quantias de entre 40 e 90 mil euros.


      • Sobre a questão da manipulação, curiosamente há gente a morrer nos hospitais por crenças fanáticas, muitas vezes por fortes manipulações como é o caso das Testemunhas de Jeová (basta ler vários relatos de médicos que por aí andam na net) e no entanto não anda para aí gente com cartazes a insurgir-se contra isso. Diz-se que é a opção deles. Mas no caso da eutanásia já não é opção. Ora foda-se então mais a coerência.

        E se bem ouvi os projetos-lei (que eram todos semelhantes) era preciso cumprir vários pressupostos – como por exemplo ter uma doença incurável – para ser candidato à eutanásia. Não era só por “estar a estorvar” que se poderia empandeirar um velho assim do pé para a mão.

        E volto a acrescentar, ninguém no seu juízo perfeito quer a morte de um velho quando dele obtém reformas e subsídios todos os meses.

        • Bento Caeiro says:

          “E volto a acrescentar, ninguém no seu juízo perfeito quer a morte de um velho quando dele obtém reformas e subsídios todos os meses.”

          Com as seguintes ressalvas: quando as reformas e os subsídios já não dão para as despesas e quando o valor das heranças é muito atractivo e o raio do velho ou da velha não morre.

          Quanto aos pressupostos, esqueça.
          Também não era pressuposto sermos roubados pelos bancos e banqueiros e, no entanto, somos.
          Igualmente, seria pressuposto que os magistrados aplicassem as leis e, no entanto, estes primeiro alteram-nas com as suas interpretações, jurisprudências e, finalmente, com as suas divinas convicções – por vezes tão afastadas dos factos e das leis, como o Real do Fantástico -, lá vão tomando as suas decisões.

  4. whaleproject says:

    façam-me um favorzinho senhoress defensores de que nos dêm uma injecção como aos cães quando estivermos muito doentes. De acusar os que não querem tal coisa de conservadores, desumanos, fanáticos religiosos, inimigos da liberdade, quererem mandar na morte dos outros e outros de que já nem me lembro.
    Sosseguem a passarinha. Para o ano a coisa volta ao Parlamento e passa. Já terão o direito a morrer ao som de Beethoven, Heavy Metal, o que quiserem.
    E em pardieiros como são muitos dos nossos hospitais alguém ouvirá. “Já não aguenta mais quimioterapia, os cuidados paliativos disponíveis não são adequados ao seu caso, vai sofrer muito para morrer. Mas tem uma alternativa, pedir a eutanásia”. É isso que vai suceder, ninguém tenha dúvidas. A eutanásia a substitur qualquer cuidado paliativo. Num país em que já falta tudo nos hospitais públicos é isso mesmo que vai acontecer. Isto não é “medo irracional”, é a realidade de um país em que já vi de tudo em matéria de falta de meio e também de irresponsabilidade e desumanidade de clínicos. Essa desumanidade já me custou gente, que morreu demasiado depressa, sem ser preciso eutanásia nenhuma.
    Querem mesmo juntar a eutanásia a este ramalhete todo? Esperem. Daqui a um ano já a têm. Entretanto falem de outras coisas. De futebol, falem mal de Cuba e da Venezuela, ou dos Estadios Unidos, conforme a cor política. E deixem de nos chamar nomes. Deixem de chamar nomes a quem não quer morrer com a dignidade dos cães abatidos pelo vfeterinário por ter sido “empurrado” para tal opção.

    • Paulo Marques says:

      Ninguém vos quer tirar a dignidade de berrar de dôr durante horas a pedir mesericórdia à entidade divina a que o seu cérebro atribui o acaso.

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