Partiu pela curva da estrada

Ao Emanuel

“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
O sr. Marques abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente. Há dois dias que não conseguia fazê-lo.
A doença progrediu muito depressa. Quando chegou ao Hospital de S. João, há cerca de um mês, já estava condenado. Do pâncreas, o bicho fora para o fígado e pulmões e, agora no fim, para todo o lado.
A equipa médica informou a família há uma semana de que não havia nada a fazer. Puseram-no então na unidade de Cuidados Paliativos – as condições de que usufruiu nos últimos dias deixam-nos orgulhosos do nosso SNS.
Ontem à tarde, chamaram a família. Chegara o momento das despedidas. Os que mais o amavam estiveram presentes.
“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
Foi a última coisa que ouviu. Abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente.
Como uma cotovia, começou a respirar cada vez mais baixinho até deixar de se ouvir. Partiu, “pela curva da estrada”, pouco depois das 18 horas.

«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vai sem se sentir.
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!
(…)
E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio” (Antonio Nobre)

Eutanásia: é urgente combater a manipulação emocional dos instintos mais básicos e irracionais do ser humano

Fotografia: Nuno Botelho@Expresso

Um dos argumentos mais falaciosos daqueles que se opõem à legalização/despenalização da Eutanásia, é aquele que reza que a alternativa a “matar os velhinhos” está na expansão da rede de cuidados paliativos. E não é preciso ser-se um grande académico ou um profissional de saúde para perceber que este não é argumento sério.

Por muita importância e valor que possamos atribuir aos cuidados paliativos, e eles têm, na minha opinião, um enorme valor, a verdade é que, quem procura a eutanásia como solução, não quer cuidados paliativos, até porque, muito provavelmente, já fez esse caminho. Quem procura a eutanásia, com todas as salvaguardas que os ultramontanos afirmam não existir, quer, efectivamente, deixar de viver. É uma solução drástica, uma solução que choca e divide, mas não é, de forma alguma, a mesma coisa que procurar terapêuticas que minimizem o sofrimento e contribuam para proporcionar o máximo de qualidade de vida para um doente terminal. É outra coisa diferente. [Read more…]