Acordo Ortográfico: o verbo obrigado a imitar uma preposição

A imagem é do Jornal de Notícias, um dos muitos jornais que acreditam ter adoptado o acordo ortográfico, optando, ainda assim, por acentuar graficamente a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “parar”.

No meio das muitas facultatividades delirantes (porque, em ortografia, o aumento de facultatividades é delirante), o chamado acordo ortográfico, aqui, é muito claro: “(…)deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição” (Base IX, art. 9º).

Segundo o AO90, a primeira afirmação – “Salvio para a história” – está impecável. Se for verbo, a frase ganha uma força poética; se for preposição, Salvio vai em direcção a um lugar em que merece estar.

No caso de Felipe, segundo o AO90, há um erro, o que se pode relativizar se pensarmos que o AO90 é um erro.

Há uns anos, Rui Tavares defendia o AO90 e o direito a escrever “pára”, defendendo, portanto, que a ortografia não tem importância nenhuma, juntando-se a intelectuais da dimensão de Santana Lopes e de Maria João Marques. Quando se fizer a história da ortografia em Portugal, o JN ficará do lado errado.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O AO90 foi cozinhado numa Bimby. Pode ser servido à vontade do freguês.

  2. Nina Santos says:

    Ele saciou a sede no bar da sede do clube
    Eu molho pão no molho do bife.
    Ela sabe de cor a cor de todos os tecidos.
    Eu pelo as batatas e tu responsabilizas-te pelo jantar.

    Se sou a favor, ou não, do NAO? Não é importante.
    Apenas acho um disparate recorrer ao “para” ( verbo e preposição), havendo tantos outros exemplos de palavras homógrafas sem acento gráfico resultantes do Acordo Ortográfico de 1945.
    Acho que é um exercício de alguma ignorância insistir nessa treta do “para” como exemplo.

    • António Fernando Nabais says:

      Pois, é o argumento “Este erro já foi cometido e, por isso, não podemos falar dele agora.”
      Uma coisa é resolver – ou não – os problenas resultantes da existência de palavras homógrafas em consequência da reforma de 1945; outra coisa é criticar o que piorou em resultado do AO90. A supressão do acento gráfico em “pára” é um disparate e é sentido como tal mesmo por quem defende o AO90.
      Já agora, “cor” com O aberto, só mesmo na expressão “saber de cor”, o que quer dizer que é um exemplo muito fraquinho.


      • ” Uma coisa é resolver – ou não – os problenas resultantes da existência de palavras homógrafas em consequência da reforma de 1945; outra coisa é criticar o que piorou em resultado do AO90 ”

        !!! estamos nessa e noutras, António F. Nabais, e não desistiremos.

        Bem haja pela sua perseverança !

      • Amadeu Mata says:

        Diz que a supressão do acento gráfico em “pára” é um disparate e é sentido como tal mesmo por quem defende o AO90.
        Não só com esta palavra pára que passou a para, mas também outras como móveis a moveis ; úteis a uteis, fácil a facil ; etc . Onde está a unificação?


    • Nina Santos, em todos os exemplos que deu, só alguém muito estúpido não consegue distinguir os significados das palavras homógrafas.
      Agora faça este exercício muito ignorante:
      Nada para os professores! Para a marcha.
      O que pretendo dizer com isto?

      • ZE LOPES says:

        Quer dizer que é uma reacionária do caraças! Viva a luta dos professores!

        • ZE LOPES says:

          Ou talvez não! Se levar um molho de eucalitos para avivar o molho do bife, onde devem molhar os pões! Ou pãos? Não sei, dependerá, segundo dizem, das ocasiães!


  3. O “molho”, a “sede”, o “pelo”, são, de facto, homografias já existentes e ninguém as questiona. Mas o facto de já existirem algumas não deve ser pretexto para se aumentar o número de casos, como defendo o AO90.

  4. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Uma coisa é já termos palavras homógrafas ou homónimas, outra coisa é vê-las multiplicadas exponencialmente sem qualquer necessidade.

    Mas há coisas muitos piores no AO, isso concordo. Ainda ontem li, na FOX, a palavra “apocalítico” numa legenda. Fui verificar ao dicionário Priberam, porque estava convencido que se tratava de mais um erro, dos muitos que tenho visto na legendagem dos canais FOX, AXN e TV Cine e Séries.

    Para meu espanto é mais uma das palavras que admite dupla grafia segundo o AO – apocalíptico e apocalítico. A dupla grafia é mais uma das “originalidades” do AO, e penso tratar-se de algo único em qualquer língua.

    Mas quem raio é que diz “apocalítico”? E como se vai explicar a alguém que a raiz da palavra “apocalítico” é apocalipse?

    No afã de omitirem consoantes, cometeram-se autênticas barbaridades, como a acima exposta. Simplifica isto alguma coisa? Não me parece.

    • António Fernando Nabais says:

      O AO90 é apocalíptico. Ou apocalítico: https://aventar.eu/2017/01/28/ortografia-apocalipse-agora/

      • Rui Duarte says:

        E eucalipto não pode ser eucalito? A raiz grega é a mesma…

        • ZE LOPES says:

          Ó Sr. Duarte, está confundido! O eucalipto não tem raiz grega! Aquilo veio da Oceania! Só se os antepassados dos nossos tivessem sido arrancados na Grécia! É possível, os gregos andavam sempre com árvores debaixo do braço, era um passatempo nacional. Ainda hoje é.

        • Carlos Almeida says:

          Se forem permitidas e divulgadas as vulgares corruptelas das palavras pelo seu uso em pessoas sem escolaridade nas zonas rurais, teríamos então de facto um verdadeiro “granel”.
          Mas essas alterações locais não passam disso mesmo.
          Por exemplo há zonas do Alentejo em que já ouvi rurais chamar “calitros” aos eucaliptos assim como em Lamego no Alto Douro, algumas pessoas do campo dizem “provisar” em vez de pulverizar. A tendência para simplificar a oralidade das palavras levar-nos-ia a um caos, se não existissem regras. Mas quando inventam regras absurdas como no caso do AO90, aí é mesmo a confusão total.
          .
          Acabo com o que coloco nas assinaturas do meus emails:

          “Quando escrevo, os meus emails são redigidos em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo novo Acordo Ortográfico”

  5. Elvimonte says:

    As línguas evoluem por via erudita e por via popular. À evolução por via popular preside a lei do menor esforço. Que interessam a etimologia e os étimos, quando duas consoantes consecutivas dão muito trabalho a pronunciar? As palavras “adivogado”, “onipresente” e “onipotente”, a primeira do brasileiro popular e as restantes do brasileiro (já?) erudito, caiem nesta categoria.

    Mas não se pense que a lei do menor esforço não assume um carácter mais universal. Em finais do século XVIII e início do seguinte, já todas as Reais Academias por essa Europa fora tinham elaborado os primeiros dicionários, que viriam a fixar as respectivas línguas. Todas? Todas excepto a Real Academia Portuguesa, que nunca passou do “A” (não me esqueci das invasões francesas e da ida da corte para o Brasil). Sem a língua fixada, entrou-se numa deriva que permitiu ao português ser a língua europeia com mais reformas nos últimos 200 anos. E, regra geral, todas deram primazia à lei do menor esforço, em detrimento de regras fundamentadas e da clareza.

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