O inigmático Correio da Manhã

A Correio da Manha TV é tão singular, que, pelos vistos, tem o seu próprio acordo ortográfico. Isso e um gosto sádico-sensacionalista por recuperar temas como o da menina raptada no século passado.

A vírgula que valeu 10 milhões de dólares

É um episódio envolvendo bens alimentares e política e não estamos a falar do queijo limiano.

O caso dos condutores de camiões de leite do estado norte-americano Maine que ganharam, graças a uma vírgula, um recurso contra o seu empregador, aqueceu os corações dos entusiastas da pontuação, escreve Mary Norris na The New Yorker.

Nada, mas nada – profanidade, pronomes transgénero, abuso de apóstrofes –  excita mais a paixão dos “geeks” da gramática do que a vírgula de Oxford.

Rita Carreira publicou um exemplo vívido sobre este elemento estilístico da Oxford University Press.

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E se os linguistas dão o alarme? Dêem ouvidos

deemNo Público de hoje, Rui Tavares, de modo muito avisado, chama a atenção para a importância de, no mínimo e com espírito crítico, darmos ouvidos aos historiadores, tendo em conta as perigosas semelhanças entre alguns acontecimentos da actualidade e outros que, no passado, vieram a dar origem a ditaduras ou a confrontos bélicos. O título do texto é “E se os historiadores dão o alarme? Dêem ouvidos”.

Esta tendência para não ouvir precisamente os especialistas é geral. Nos mundos profissionais em que me movo, é, até, grave. Na Educação, por exemplo, as opiniões dos professores são frequentemente desvalorizadas, com a desculpa de que são parte interessada e, portanto, desinteressante, deixando o espaço público inundado por especialistas de gabinete que tudo sabem (ou julgam saber) sobre o que deve ser uma aula ou uma escola.

Acontece que Rui Tavares é um defensor do chamado acordo ortográfico (AO90), tendo-se já pronunciado sobre o assunto com a frontalidade e o voluntarismo que o caracterizam, o que o leva, em relativa coerência, a declarar que adopta o AO90 nas suas crónicas, num jornal que continua a resistir ao uso desse instrumento, numa sã convivência de diferentes visões sobre a ortografia. [Read more…]

Ortografia dentro das expectativas

expepectativHá tempos, descobri a mesma palavra escrita de duas maneiras diferentes no mesmo texto, cumprindo as instruções do AO90 e à vontade do freguês. Hoje, ao ler uma entrevista nessa instituição que é A Bola, acontece o mesmo à mesma palavra, com a vantagem de acontecer em poucas linhas. Acresce o facto de que essa mesma palavra, à luz do critério que norteia o AO90 e desnorteia a ortografia, deveria ter uma única grafia, como já tive oportunidade de notar. [Read more…]

Desconexão ortográfica

conectividadeUma pessoa não pode e não quer estar sempre a pensar em ortografia, mas, muitas vezes, a realidade obriga-nos a pensar nela, não porque ela (a ortografia) esteja presente, mas apenas porque temos saudades dela, por não existir.

Numa passagem pela página da Worten, descubro que um aparelho em que poderei estar interessado tem conectividade e, como se isso não bastasse, ainda tem *conetividade. Olhai, que este é o tempo da multiplicação das duplas grafias, esse milagre proporcionado pelos apóstolos da religião do chamado acordo ortográfico! Assim como Jesus transformou a água em vinho, do mesmo modo os falsos profetas transformaram uma ortografia consistente em carrascão. [Read more…]

Vê lá no que te metes, ó Academia!

Fernando Venâncio*

15181454_1110833538965737_7678927185731268401_nA Academia das Ciências de Lisboa (ACL) quer dar um arranjo no «Acordo Ortográfico de 1990». A ideia data, pelo menos, dum artigo que Ana Salgado publicou na Revista LER, há-de haver uns cinco anos. Apreciei, na altura, o destemor de alguém que trabalhava, note-se, na acordadíssima Porto Editora.

Hoje, Ana Salgado dá a cara pela ACL e, com o explícito apoio do presidente da douta instituição, Artur Anselmo, prepara-se para oficializar o aludido arranjo.

«Quanto às consoantes que não se pronunciam a ACL vai defender que elas só caiam nos casos em que há uma grafia única em Portugal e no Brasil (como na palavra ‘ação’). No entanto, em casos como a palavra ‘recepção’ “a nossa leitura” (da ACL) é que a escrita com o ‘p’ é “legítima no espaço lusófono”. Na palavra ‘óptica’, a ACL defende também o uso do ‘p’». [Read more…]

Contacto ou contato?

Carla Moreira*

No início do ano lectivo, propus às minhas alunas de Latim a elaboração de pequenos vídeos sobre dúvidas linguísticas, ao jeito da rubrica da RTP ‘Em bom português’, de que certamente todos estão lembrados. Elas são apenas três, mas são bastante dinâmicas e alinharam. Os vídeos são gravados com telemóvel, numa sala de aula com poucas condições acústicas, as alunas têm 16 anos de idade e alguns problemas ao nível da dicção. A qualidade dos vídeos, sobretudo ao nível do som, é, portanto, muito amadora, mas o objectivo era apenas partilhá-los na página de Facebook da escola. Nunca pensámos que saltassem do mural da escola para outros murais. Mas foi exactamente isso que aconteceu com o vídeo ‘Contacto’, graças à divulgação feita pela professora Maria do Carmo Vieira. [Read more…]

“Contate hoje mesmo!”

contateOntem, numa hora, para mim, matinal, saí de casa, a fim de tomar o primeiro café do dia. A minha única preocupação era saber que teria de disputar o jornal “da casa” com os quatro ou cinco reformados que passam por cada página com uma calma enervante, incluindo a necrologia e os anúncios das meninas que prometem dar vida a mortos. Ao passar pela caixa de correio, verifiquei que já lá estava o habitual prospecto de uma imobiliária. Na frente e no verso, podia ler-se “Contate [sic] hoje mesmo!”, como poderão confirmar na imagem que simpaticamente compartilho. A urgência do primeiro café tornou-se ainda mais urgente. É nestes momentos que admiro a fleuma do Francisco Miguel Valada, que consegue manter a elegância mesmo quando recolhe amostras de fatos e de contatos.

Como é que o verbo contatar  e o nome contato entraram pelos prospectos do nosso país? Façamos, à imitação de outros muito mais sabedores, um resumo da história do chamado acordo ortográfico (AO90). O AO90 foi criado porque, na opinião (ou nas declarações) dos seus autores, era preciso, necessário, fundamental, imprescindível criar uma ortografia única no universo dos países lusófonos. Resultado: muitos desses países ainda não adoptaram o AO90 e entre os países que o adoptaram continua a não haver uma ortografia única ou deixou mesmo de haver ortografia. [Read more…]

Diga ‘expectativa’!

expectativa2Prometi, ontem, que voltaria à expectativa, porque posso.

Vamos por partes, que é Agosto.

Os autores do chamado acordo ortográfico (AO90) valorizam aquilo a que chamam “critério fonético”. De modo simplista, isso quer dizer que devemos escrever conforme pronunciamos, o que, por sua vez, significa que não devemos escrever aquilo que não pronunciamos.

António Emiliano, entre outros, já explicou a impropriedade da expressão “critério fonético” e o disparate em que consiste. Mas deixemos isso, por instantes, porque a expectativa é grande.

Preocupados com o tal “critério fonético”, os autores do AO90 declaram basear-se numa certa e determinada norma culta. Confrontado com a dupla grafia da palavra “expectativa”, revisitei, mais uma vez, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, em busca da transcrição fonética da palavra. Como puderam ver mais acima, embora se admitam duas realizações possíveis para a primeira sílaba, o C pronuncia-se. [Read more…]

Uma ortografia defectível

indefectívelNum manual de Português de 9º ano, reencontro o poema “Uma pequenina luz”, de Jorge de Sena. O manual, evidentemente, segue (ou tenta seguir) o chamado acordo ortográfico (AO90). Reparo que os vv. 21 e 28 contêm o adjectivo “indefectível”, assim mesmo, com C. Como sempre articulei aquela consoante, pareceu-me óbvio que ali se mantivesse, porque, segundo o espírito do AO90, consoante articulada é consoante grafada.

Um estranho instinto, um não sei quê, fez-me consultar, em primeiro lugar, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Como se pode ver, pela imagem acima, o C articula-se. Na“Introdução” do referido dicionário, ficamos a saber que todas “as entradas lexicais apresentam transcrição fonética, dada entre parênteses rectos, segundo a norma culta, aproximada, de Lisboa e Centro do país […].” Fiquei mais descansado: a minha articulação era culta. [Read more…]

Santana Lopes ou ortografia sem dogmas

ng3661661Ontem, Santana Lopes, cultivando cabotinamente uma pose de senador, torceu um nariz aborrecido às pessoas que levam a ortografia a sério. Enfadado, declarou que, para ele, a ortografia não é um dogma e que, portanto, alterna, ao sabor dos ventos, entre a ortografia de 1945 e a de 1990, ainda que se orgulhe de ter assinado o AO90.

Ficamos a saber mais: o especialista em língua portuguesa que lhe explicou a necessidade de se fazer um acordo chamava-se Cavaco Silva. Como se isso não bastasse, explicou que isto do AO90 é uma boa tentativa que, tal como a CPLP, falhou. Santana, sem se aperceber, clarifica: o AO90 falhou.

Entretanto, no país, há pessoas que não têm direito à mesma liberdade que o antigo primeiro-ministro: os alunos do Ensino Básico e Secundário serão prejudicados, pelo menos nos exames nacionais, se não utilizarem o acordo. Pelos vistos, o sol ortográfico, quando nasce, não é para todos. [Read more…]

Frederico Lourenço sem pés nem cabeça

Fernando Venâncio

Sempre tive em elevado apreço o ensaísta, tradutor e ficcionista Frederico Lourenço. Por isso me custou crer no que os olhos me viam quando ‘links’ amigos me conduziram ao texto que abaixo se verá. Foi, até, por esse conhecimento ser indirecto que me resguardei de comentário público. Mas, hoje, o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa reproduziu a tirada e, com isso, dispensou-me da reserva.

Parece nítido que Frederico Lourenço (FL) quis dar gozo a quem o lesse. A julgar pela caixa de comentários, conseguiu-o em pleno. Só que o preço pago de antemão para esse efeito foi desmesurado. Vejamos. [Read more…]

Pagamento da factura: a influência do AO90 na pronunciação

Neste vídeo, encontrado na página dos Tradutores contra o acordo ortográfico, podemos ouvir uma jornalista a emendar a pronunciação da palavra “factura”: quando se preparava para fechar o A pretónico, foi socorrida pela memória e ainda conseguiu reabrir a vogal, como se o C diacrítico e etimológico ainda lá estivesse. No fundo, uma pessoa, agora, para articular correctamente algumas vogais tem de imaginar consoantes.

O fechamento de vogais é uma das consequências do AO90. Nos verdes campos da ilusão acordista, alguns garantem que a realidade não existe; outros desejam que a memória fonética permita manter a pronunciação.

Já sabíamos que o AO90 não originou uniformização ortográfica, mantendo umas diferenças e criando outras. Como se isso não bastasse, ainda poderá contribuir para o aumento de diferenças de pronunciação: efectivamente, onde brasileiros e portugueses abriam as mesmas vogais, o AO90 poderá conseguir, ainda, mais algumas separações. Continuamos a pagar a factura.

E novidades sobre o acordo ortográfico? Não há!

11337_10204484140098622_8880294994241081779_nPronto, confesso, o título é ligeiramente enganador. Em verdade vos digo que no Brasil o dito e chamado acordo ortográfico (AO90) passa a ser obrigatório, terminando, assim, o período de transição.

No entanto, e no fundo, não há novidades. Vejamos.

Alguns defensores do chamado acordo mostraram um tímido contentamento, festejando a ilusão de que, agora sim, passa a haver sintonia ortográfica entre Brasil e Portugal. Convém re-re-relembrar que a par de algumas aproximações ortográficas, o AO90 mantém muitas diferenças preexistentes e, re-re-re-pasme-se!, cria diferenças anteriormente inexistentes, obrigando, por exemplo, a que os hotéis portugueses deixem de ter recepção. [Read more…]

Maria de Belém, uma mulher sem “caráter”

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Maria de Belém nunca poderá ser Presidente de todos os portugueses, a partir do momento em que escolhe, para o seu cartaz, apenas uma das duas grafias admitidas pelo AO90. No mínimo, em lugar de “carácter” deveria estar “cará(c)ter” ou “carácter/caráter”, até porque há crianças que, devido a este anúncio, podem ficar privadas de uma facultatividade obrigatória por lei.
Deste modo, a candidata presidencial está a excluir os eleitores de acordo com o modo como pronunciam uma palavra, o que constitui uma discriminação inaceitável e é um mau princípio de campanha para a Presidência da República, cargo que deveria promover a união, mesmo sabendo que não foi o que aconteceu nos últimos dez anos.

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Acordo? Ortográfico?

atar2by2bdesatarEm Díli, durante uma reunião da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), houve um momento de tensão, quando os representantes de Angola e de Moçambique rejeitaram a utilização do chamado acordo ortográfico de 1990 (AO90) na acta da reunião, sendo que o problema começou exactamente na própria palavra “acta”. Relembre-se que o AO90 não está em vigor naqueles dois países africanos.

(Mas o AO90 não veio impor uma ortografia única no mundo da lusofonia? A propósito, o que terá acontecido aos professores portugueses que, em 2013, davam formação a colegas angolanos?)

É curioso relembrar que, há dois anos, os representantes das agências de notícias dos países lusófonos reuniram-se, tendo como um dos objectivos a “escolha do padrão ortográfico” de um site comum.

(Mas qual seria a dúvida? Depois de o AO90 ter sido imposto no Brasil e em Portugal, o padrão ortográfico não estava escolhido por inerência? Mau, Maria!) [Read more…]

Orthographias

Dizem que temos uma nova, e agora é a oficial. O drama, o horror, a tragédia.

Burro velho não aprende novas ortografias, nem precisa no séc. XXI.

É muito simples: oficial é publicar documentos oficiais, e nisso já levo experiência, uns quatro anos.  Não é escrever.

Quem quer escrever na velha, escreve, e uma vez descarregado o Lince, converte para a nova. Nem é preciso ler, embora seja provável uma falha ou outra, da qual não virá grande mal ao mundo E depois publica, envia, conforme o caso. É o que tenho feito quando é preciso e não me esqueço.

A nova ortografia é foleira para quem aprendeu na velha, natural para os meus alunos que sendo novos já se habituaram. Nem uma nem outra fazem sentido quando temos um teclado pela frente, ou pior do que isso, o procuramos num écran táctil, mas as novas ortografias são outro assunto.

Se escrevem à mão, recomendo a de 1911, estão sempre a tempo de aprender e fica sempre bem com arqueologias.

A Associação de Professores de Português reconhece que há problemas com o AO90

Este ano, de acordo com informação do IAVE, a única grafia admitida nos exames nacionais será a que está conforme o acordo ortográfico de 1990 (AO90)

Entretanto, a sociedade portuguesa não conseguiu, não pôde ou não quis adoptar o referido acordo. As causas são variadas e começam nos vários erros de concepção do próprio AO90, com várias pessoas e instituições a fingir que não há problemas.

Os jovens que vão, este ano, fazer exames nacionais foram obrigados, ao longo do seu percurso escolar, a conviver com duas ortografias, sendo que a mais recente tem contribuído para o aumento de erros. Como é evidente, os estudantes, sentindo-se ortograficamente inseguros, desejam, no mínimo, que seja reposta a possibilidade de continuar a optar pelas duas ortografias – a de 1945 e a de 1990 –, tal como acontecia nos exames de 2014.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda dessa pretensão e julga ter explicado a razão, ao declarar que, “se todos os docentes tivessem feito o que deviam, preparando os alunos activamente durante os últimos três anos, para este momento, não haveria qualquer problema.” [Read more…]

Acordo ortográfico: bem prega o Ministério da Educação!

Bem prega Frei TomásAté ao ano passado, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) permitia aos alunos que utilizassem as grafias de 1945 e a de 1990, sem que isso implicasse penalizações na classificação dos exames.

Este ano, a única ortografia aceite é a de 1990 (AO90). Assim, o aluno que, por distracção ou por ignorância, escreva “acção”, terá direito a um desconto de 0,1 valores, no exame de Português de 12º. O limite máximo para penalizações por erros ortográficos, no referido exame, pode ir até quatro valores, o que é mais do suficiente para impedir a entrada num determinado curso superior. [Read more…]

Uma escola sem contactos

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O Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa, na Amadora, não tem contactos. Tem contatos. De acordo com as últimas notícias, e segundo o chamado acordo ortográfico (AO90), consoante que se pronuncia é consoante que se escreve, para pôr a coisa em termos simples, ainda que simplistas.

Partindo do princípio de que a maioria dos portugueses pronuncia o C que antecede o T, deveríamos, então, continuar a escrever “contacto”.

Antes do AO90, já éramos um país ortograficamente desleixado e/ou inseguro? Éramos. Com o AO90, os problemas aumentaram, não só por causa do dito mas também. [Read more…]

Mau aspecto

Quer saber como se escreve “aspecto” segundo o AO90? Consulte o priberam e a infopédia. Já sabe como se escreve?

Acabou a corrupção em Portugal

corrução

Excerto de O Economista Português

Sim, sim, já se sabe que o chamado acordo ortográfico (AO90) não prescreve a eliminação de consoantes articuladas, ou seja, as que se pronunciam (e até admite que umas consoantes possam ser articuladas ou não e, portanto, escritas ou não). É verdade que, com o AO90, por exemplo, facto deverá continuar a escrever-se facto, pelo menos no caso das pessoas que pronunciam o C, o que corresponde à maioria dos portugueses, sendo de ressalvar, talvez, os que pronunciam “atorze” quando querem indicar o dobro de sete.

Não é menos verdade, no entanto, que, apesar de tudo isso, há uma epidemia de quedas indevidas de consoantes, o que torna possível ler garrafais “contatos” em cartazes e descobrir frequentes questões “de fato” no Diário da República, para não falar em “patos de silêncio” ou em “patos com o diabo”, vade retro. [Read more…]

Os telhados de vidro ortográfico do Blasfémias

Espero, por estes dias, escrever mais demoradamente sobre a divulgação dos erros ortográficos cometidos por alguns professores que realizaram a chamada prova de avaliação de conhecimentos e de capacidades (PACC).

O inestimável Vítor Cunha já veio regurgitar a sua opinião. Ainda e sempre intoxicado por um cocktail em que estão misturados anticomunismo primário, ódio à administração pública e ignorância atrevida, é natural que seja incapaz de raciocinar ou de sentir empatia. Só isso explica que cometa a deselegância de chamar “proto-candidatos” a cidadãos com habilitação para dar aulas.

Não quero transformar esta questão dos erros ortográficos da PACC numa espécie de “quem diz é quem é”, mas, ainda assim, apetece-me relembrar o texto em que José Manuel Fernandes utilizou o particípio “fazido”.

O próprio Vítor Cunha, curiosamente, recorre ao neologismo “protocandidato” impondo-lhe um hífen contrário às regras, como poderia descobrir em qualquer prontuário.

Um defensor do AO90 contra a simplificação da ortografia

Marcos Bagno é um linguista brasileiro e defende o acordo ortográfico (AO90) com a mesma frontalidade com que critica o “preconceito linguístico”. Acrescente-se que é um homem de esquerda, preocupado, portanto, com os mais desfavorecidos, que o são, também, por serem desfavorecidos em termos educativos.

Continuo a só encontrar defeitos no AO90 e sinto algum desconforto diante de algumas opiniões do autor brasileiro no que se refere à questão do preconceito linguístico. Esse desconforto é consequência de uma reacção, uma vez que o meu conhecimento dos textos de Bagno resulta de leituras dispersas e superficiais; um dia, poderei ter uma opinião sobre o assunto.

No que se refere ao campo ideológico, teremos, provavelmente, muito em comum.

Em Portugal, alguma esquerda tem defendido o AO90, argumentando que “a simplificação das regras de escrita [resultantes, depreende-se, do AO90] constitui (…) uma forma de democratização da língua portuguesa.” No Brasil, o Movimento Acordar Melhor defende que a simplificação ortográfica deve ir mais longe, sempre com o objectivo de facilitar a aprendizagem.

Confesso que, tendo em conta as minhas leituras superficiais sobre Marcos Bagno, esperaria dele uma opinião semelhante. Foi, portanto, uma agradável surpresa ter descoberto, no Facebook, que defende precisamente o contrário, com argumentação inatacável. O texto foi originalmente publicado na revista Caros Amigos e o autor resolveu disponibilizá-lo nas redes sociais. A seguir ao corte, está a transcrição. [Read more…]

Istá iNdentificado u erru sinhor menistru

A prova continua a dar que falar, quase ao nível da Pepsi. Mas, para mim, que não gosto de comer os sugos com papel e que sou mais do género de suecas sem roupa, a reflexão em torno da prova continua a ser um dos motivos da minha existência. Sim, é mesmo uma coisa a sério – sou, desde há anos, um curioso pela estupidez humana e por isso teimo em escrever sobre este governo e em especial sobre os seus apoiantes.

Mas, voltemos à prova.

De acordo com o Guia que Nuno Crato desenhou para a prova,

Os erros de ortografia, de morfologia, de sintaxe e de pontuação estão sujeitos a desvalorização.
(…) Todas as ocorrências de um mesmo erro estão sujeitas a desvalorização.  (…) São classificadas com zero pontos as respostas que não atinjam o nível de desempenho mais baixo ou
quando se verifique uma das seguintes condições:
– afastamento integral do tema;
– mais de seis erros de sintaxe;
– mais de dez erros inequívocos de pontuação;
– mais de dez erros de ortografia ou de morfologia.

Ora, acontece que irrar é o Mano e por isso a gente tem que compreender os erros do sinhor menistru Nonucratu.

Repare na imagem retirada da aplicação em que os examinandos devem efectuar a sua inscrição. [Read more…]

É possível acordar melhor?

A Comissão de Educação do Senado brasileiro resolveu “criar um grupo de trabalho destinado a estudar e apresentar proposta para aperfeiçoar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990 por todos os países de língua portuguesa.”

Desse grupo de trabalho fará parte Ernâni Pimentel, criador do movimento Acordar Melhor, que visa “propor uma simplificação na ortografia para que todos a dominem e se libertem de dicionários e manuais, na hora de escrever x/ch, j/g, s/z, s/ss/sc/sç/x/xc.” O mesmo movimento combate o recurso à memorização e defende que a simplificação ortográfica dará origem à inclusão social.

Já tinha exprimido a minha opinião sobre os pressupostos deste movimento. Insisto: a aprendizagem, tal como qualquer outro processo, deve estar a salvo de obstáculos artificiais ou escusados, mas partir do princípio de que se deve facilitar para que todos possam aprender ou de que o treino da memória deva ser excluído é, antes de mais, antipedagógico e, portanto, censurável. Para além disso, sempre encarei os dicionários e os manuais como instrumentos de libertação.

Relembre-se que o senador Cyro Miranda, presidente da Comissão acima referida, já havia defendido que o início da vigência do acordo ortográfico deveria passar para 2018 e não para 2016, de modo a serem feitas alterações.

Face a isto, não me espantará que venham a surgir alguns linguistas portugueses a defender que verbos como “axar” ou “puchar” fazem todo o sentido. Vai ser o “mássimo”! Basta que haja pressões nesse sentido.

Talvez por aqui apareçam alguns iluminados a fazer referência ao meu antibrasileirismo por atacar esta coisa a que chamam acordo ortográfico ou porque me atrevo a discordar de opiniões de brasileiros, pecado capital para os seguidores da Lusofonia, cujos fiéis vociferam “nacionalista” ou “colonialista”, sempre que um português tem o atrevimento de criticar qualquer cidadão de outro país de língua portuguesa. Não me espantaria, aliás, que Millôr Fernandes viesse a ser queimado em efígie. Ou em esfinge.

O Chimpsky e o Dan

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Depois de Nim Chimpsky ter servido para Herbert Terrace tentar provar que a capacidade de produção de enunciados respeitando regras gramaticais não é um exclusivo dos seres humanos (ao contrário do que muitos pensam, o próprio Terrace já admitiu que os resultados obtidos e publicados deram, afinal, um ‘falso positivo‘), agora surge o babuíno DAN (no artigo do Courrier International, surge ‘Dan’ que, convenhamos, é mais carinhoso: a adopção de maiúsculas em DAN distancia-nos dele, como de certa forma acontecia com o HAL: Heuristically programmed ALgorithmic computer)) como estrela da companhia de projecto chefiado por Jonathan Grainger (numa equipa que conta com, entre outros, o excelente Johannes Ziegler), em que os autores pretendem demonstrar poderem as competências de base para processamento ortográfico na direcção da leitura  ser adquiridas sem a pré-existência de representações linguísticas.

A seguir com atenção.

Gonçalvismos

Sobre Vasco Graça Moura, um vianogonçalvista arrogante.

Acordo ortográfico: requerimento formal dirigido aos Ministros da Educação e dos Negócios Estrangeiros

Madalena Homem Cardoso

(Este Requerimento obriga a resposta e a apresentação de documentos, sob pena de despacho judicial urgente, intimando os Ministros para o mesmo efeito, caso não dêem resposta e apresentem a documentação solicitada dentro do prazo fixado na Lei.)

a lei

Estátua “A LEI” (Francisco Santos) – Assembleia da República

Exmos. Senhores

Ministro da Educação e Ciência e

Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros

Prof. Doutor Nuno Crato / Avenida 5 de Outubro, 197 / 1069-018 Lisboa

Dr. Paulo Portas / Palácio das Necessidades, Largo do Rilvas /1399-030 Lisboa

REQUERIMENTO

Madalena ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓ Homem Cardoso, portadora do B.I. nº ▓▓▓▓▓▓▓, emitido pelos S.I.C. de Lisboa em ▓▓▓▓▓▓▓▓, mãe e Encarregada de Educação de Inês ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓, aluna nº ▓ da turma ▓ do 3º ano da EB1 ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓, em Lisboa, na sequência da Carta Aberta por si dirigida a S. Exa. o Senhor Ministro da Educação com data de 24/03/2012, para a qual não logrou obter qualquer resposta durante os mais de nove meses desde então decorridos, vem interpelar Vossas Excelências por via do presente requerimento, tendo em conta que: [Read more…]

Acordo ortográfico: consoantes mudas, etimologia e outras coisas úteis e agradáveis

NAO2cÉ frequente, nas minhas aulas, devido à deformação clássica a que fui sujeito, explicar o significado de palavras e as relações entre elas, recorrendo à etimologia. Assim, vem sempre a propósito lembrar que a origem do verbo “recordar” está na palavra latina que significa coração (cor, cordis). Para muitos povos antigos, o centro das recordações residia nesse órgão, pelo que lembrar algo era, para eles, o mesmo que voltar a passar pelo coração, re-cord-ar.

A partir daí, há um festim de cruzamentos e alguns alunos, finalmente, percebem donde vem a expressão “saber de cor” e torna-se fácil levá-los a perceber, afinal, a origem e, portanto, o significado de tantas palavras, como “cordial” ou “cordato”. A próprio palavra inglesa record ganha um outro sentido, que é, no fundo, o verdadeiro. Pelo meio, ainda contactam com o Outro presente nas civilizações antigas, num exercício que, partindo do estranhamento, pode ser um caminho para a tolerância

De uma assentada, um breve passeio pela etimologia permite a qualquer jovem conhecer melhor a língua materna, integrando nesse conhecimento a noção de que essa mesma língua tem, integra e actualiza um passado.

Estas breves reflexões surgiram-me a propósito de um vídeo em que se explica por que razão a ortografia inglesa mantém – ó sacrilégio! – consoantes que não se pronunciam, dando como exemplo o B de “doubt”. Vale a pena ver e correr o risco de aprender que a ortografia é muito mais do que um conjunto de representações de sons, tal como o coração é muito mais do que um músculo. [Read more…]