A perífrase na toponímia, doença infantil do turismo pimba

Todos os conhecemos e aprendemos muitos deles na escola primária. Alguns até foram criados por gente respeitável, que jamais imaginou o destino que aguardava as suas criações. Assim, para referir uma cidade ou lugar, produzem, esperando que todos (nos) reconheçamos nestas flores descritivas as cidades em causa, as mais bizarras designações. Perífrases toponímicas, acho-as eu. Vejamos:
Não basta a Coimbra ser simplesmente Coimbra, ele tem de ser a Lusa Atenas ou, mais posidoniamente, A Cidade dos Doutores. Aveiro, a que não faltam méritos, não escapa à cómica designação de Veneza de Portugal. Lisboa é a Cidade de Ulisses, coisa que espantaria o pobre Homero se cá regressasse. Évora, Cidade Museu. Aguentem-se. Vila do Conde, dada a caganças aristocráticas, tem o posto de Princesa do Ave. Braga – mais clerical – conforma-se em ser a Cidade dos Arcebispos.
E, no entanto, tais terras tinham nomes simpáticos e perfeitamente adequados. Breves e inconfundíveis. Que não enganavam ninguém. E mais: têm méritos mais que suficientes para merecer uma honesta visita.
Quem visitasse Coimbra, não esperaria que algum peripatético lhe aparecesse na ágora a perguntar pelo sentido da vida, sobre o que era a justiça ou sobre a arché de todas as coisas. Pelo contrário, ficaria satisfeito com o que encontrasse pois não esperaria outra coisa. Mas com essa tolice da Lusa Atenas, a expectativa do visitante é outra. E, frustrado, não encontrará o Pártenon mas, o que não seria mau, a Universidade, a Sé e, à falta de ágora, teria a Praça da República. Nada mau, mas tinha sido vítima de publicidade enganosa (encontraria, de facto, doutores, diga-se, mas não se vê nisso qualquer vantagem).

De Aveiro nem se fala. Comparar aquelas valas aos canais de Veneza enfurecerá o mais paciente dos visitantes que, no entanto, ficaria perfeitamente satisfeito se lhe anunciassem o que a cidade é, o que não é pouco. E lhes dessem ovos-moles, claro.
Quanto ao resto, visitem Évora que, não sendo um museu ao ar livre, tem muitos e belos motivos de interesse – a Sé, os templos antigos e, entre os modernos, o Fialho, naturalmente. Já na bela Vila do Conde em vão procurarão princesas – o que é uma sorte, já que elas trazem sempre sarilhos – mas há o Ave, realmente, e muito mais. Lisboa, lamento, não vos apresentará Ulisses nem nada que dele pudesse restar se alguma vez tivesse estado por aqui. Em Braga, sim, há, de facto, arcebispos. Mas, como produto turístico, não têm qualquer interesse. Sob outros pontos de vista também não. Mas subir as escadas do Bom Jesus é um bom exercício e redime muitos pecados.

Não falei na Cidade Invicta, terra dos meus antepassados. É que a malta do FCP podia julgar que eu estava a gozar e não faltariam comentários jocosos a propósito dessa condição de invencibilidade face aos últimos resultados…
Parai pois de dar nomes estúpidos e pedantes às cidades, deixem de enganar os incautos e mostrar, assim, a vossa falta de mundo e de confiança nos reais méritos das vossas terras.

Claro que há um detalhe importante em tudo isto: as pessoas. Todavia, cuidado. É que as pessoas são amáveis também na medida do seu bem estar, da sua felicidade. E nós, portugueses, temos razões para estar zangados. E cidadãos zangados não são um bom recurso turístico. Não nos queiram ver para lá do limite tolerável, ou lá se vai a mina turística.

Comments


  1. : ) bem haja por este arejo saudável aqui no Aventar, José Gabriel !
    Interessante, até o último parágrafo ! : )

  2. César P. Sousa says:

    Na ” Lusa -Atenas ” ,cidade dos doutores médicos, doutores enfermeiros e por aí fora ,foi sempre norma tratar por “sôtor”
    qualquer jumento que transporte na albarda um livrinho ainda que seja um livrinho do doutor José Rodrigues dos Santos.

  3. Anonimus says:

    Antes Lusa Atenas que Allgarve.
    :'(

  4. PImba Ribatejano says:

    E Santarém, a “Capital do Gótico”, que tem apenas um exemplo desse estilo? Tudo bem que é um exemplo único no país, mas…


  5. A maior parte das perífrases nunca fez ou já não faz sentido, criadas na grande noite do lavrador letrado de Santa Comba, serviam para enganar cornos mansos… No Porto nem foram criativos, usaram directo o que está no escudo da cidade. Mas tem+os mudam mas as mentes de pedra dos irredutíveis tugas!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.