Regular a banca para salvar a economia

Marisa Filipe

Elizabeth Warren, candidata presidencial e senadora democrata, quer implementar uma revolução na banca dos EUA, um plano Glass- Steagall para o século XXI. Se nunca ouviu falar deste plano, voltemos um bocadinho atrás na história.

Em 1929, a banca de Nova Iorque desmoronou-se da noite para o dia. A especulação atingira o seu limite e a falta de regulação bancária provocou um terramoto financeiro, económico, político e social. Em poucas horas, milhares de empresas fecharam portas com bens acumulados e desvalorizados e milhões de americanos ficaram no desemprego. Perante este cenário de catástrofe, dois senadores criaram uma lei, à qual deram os seus nomes, Glass e Steagall, que separava a banca comercial da banca de investimento e que esteve em vigor, no EUA, até à era Clinton. A partir daí, a desregulação atingiu o seu apogeu nos anos 90 e não houve mão visível ou invisível que regulasse o mercado.

Os loucos anos 90 traduziram-se em capitalismo desregulado em que o lema bancário de Wall Street defendia que quanto melhor estivesse a banca, melhor estava a economia. E quanto mais a banca estivesse desregulada, melhor a economia se comportava no mercado livre. Ora, a desregulação da banca criou bolhas imobiliárias, swaps e outros créditos de risco que, quando a bolha rebentou, rebentaram a economia. E os clientes da banca comercial, avessos a créditos de riscos, e os contribuintes alheios às negociatas privadas, tiveram todos de ir salvar a banca e seus especuladores.

Em Portugal, os célebres e tristes casos BANIF e Novo Banco são o exemplo perfeito de uma banca sem leis, sem reguladores e com promiscuidade entre instituições que supervisionam os bancos e instituições bancárias. O Bloco de Esquerda, o PCP e até o PS enumeraram, em tempos, a possibilidade da separação da banca comercial da banca de investimento, mas este tema ficou totalmente esquecido nesta última legislatura.

É fácil perceber qual é função de cada banca dado que as usamos, sem nos apercebermos, no dia a dia. Por exemplo, quando se dirige ao seu banco para pedir um empréstimo para uma casa, para a sua empresa, ou até para as férias, o seu pedido é feito e processado na banca comercial. Esta banca é extremamente avessa aos riscos, sendo o seu negócio principal o recebimento de depósitos, contas poupança e empréstimos com taxas de juros estáveis e pouco compensadoras para o cliente.

Agora, se tiver uns largos milhares para investir sem necessitar de retorno imediato mas com possibilidade de ganhar alguns milhões, a banca de investimento tem soluções, muito compensadoras, mas de risco. Com taxas de juro atrativas, se a sorte lhe soprar ganha muitos milhões. Se perder e o prejuízo for muito grande, perde o que investiu e a banca de investimento pode ainda cobrir os prejuízos com o dinheiro dos depositantes da banca comercial.

E sabe porquê? Porque estas bancas não estão separadas. Por isso, quando há ganhos nesta banca-casino, estes ganhos são de poucos mas, quando há prejuízos, a conta é dividida por todos, sejam clientes da banca comercial sejam clientes da banca investimento. E, como bem nos recordamos, quando os prejuízos são demasiado avultados, a conta chega também aos contribuintes.

É urgente separar a banca comercial da banca de investimento. Por isso, é tempo da acção dos cidadãos. O MAPA, Movimento de Ação Política, lançou uma petição que pretende separar a banca comercial da banca de investimento, de forma a regular a banca protegendo as poupanças dos clientes bancários e, em última análise, de todos nós. Se se revê nesta causa, junte-se a nós e a Elizabeth Warren e comece também esta revolução.

Comments

  1. JgMenos says:

    Não fique por dizer que a proibição à banca foi a de investir em valores mobiliários e de se associar a quem o fizesse; crédito comercial às empresas era o que se lhe definia como negócio principal. O crédito ao consumo foi desencorajado e os cartões de crédito foram o modo de ultrapassar os regulamentos.

    • Paulo Marques says:

      Quais valores mobiliários, foi impedida de especular em produtos que nem eles entendem, para não se chegar a disparates como o presidente do FMI em 2007 dizer que o estado da macro era globalmente bom.
      O crédito ao consumo foi a nova mecca pós-liberalização, com qualquer empresa a poder fazer empréstimos para a compra de bens de consumo ao mesmo tempo que o poder negocial era retirado aos trabalhadores. Isto rapidamente fez com que os rendimentos de juros fosse o principal meio de lucro enquanto a produção se deslocava para a Ásia. Tudo isto a plano da UE e Casa Branca, que agora vêm choramingar que são comidos pela China.
      O revisionismo bem tenta, mas não há volta a dar, a história não chegou ao meio e o monetarismo tem os dias contados.

  2. JgMenos says:

    Passem por inaplicáveis os obstáculos então existentes à expansão territorial dos bancos.

  3. JgMenos says:

    A cretinagem nem de dados históricos gosta!?!
    Não temer o ridículo é condição progressiata.

  4. Fernando says:

    Elizabeth Warren, é maleável aos interesses de Wall Street!

    Elizabeth Warren votou a favor do aumento do orçamento do Pentágono proposto por Trump!

    Elizabeth Warren defende, agora, “saúde para todos” quando Bernie Sanders a defende há décadas!

    Bernie Sanders defende políticas progressistas desde sempre, Elizabeth Warren lembrou-se a dada altura de as defender porque antes era do partido Republicano!

    Porquê apoiar Elizabeth Warren quando Bernie Sander é claramente superior?

    • Pimba says:

      A sôdona Warren fala muito bem, até ser eleita, depois faz o que a Wall Street lhe mandar.

      Este tipo de textos aparece precisamente por Sanders ser claramente superior, constante nas ideias, e de näo ser maleável por Wall Street, nem antes nem depois de eleito.

    • Paulo Marques says:

      Porque o projecto de lei tem a sua autoria. Tão simples como isso. E é igualmente capaz de aprender com a Stephanie Kelton.

    • Marisa Filipe says:

      Boa tarde. Não está aqui nenhum apoio específico a Warren, apenas a indicação de um dos pontos do programa eleitoral, com o qual concordamos.

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