O dragão mostra as garras

Aconteceu nos últimos dias um ping-pong diplomático-comercial entre a Apple e a China devido a uma app que tem sido usada pelos manifestantes de Hong Kong para identificarem a localização dos bloqueios policiais, assim os evitando. Primeiro, a Apple removeu a app HKmap.live da sua app store, voltou a permitir a sua disponibilização depois dos protestos por parte dos seus utilizadores. Passado um dia, voltou a interditá-la novamente na sequência de fortes pressões vindas do governo chinês.

A este episódio seguiu-se outro em que um jogador teve represálias por parte de uma empresa americana por este ter proferido uma declaração de apoio aos manifestantes pró-democracia de Hong Kong. Chung Ng Wai, jogador profissional de Hearthstone que ganhou uma competição organizada pela empresa americana Blizzard, declarou na respectiva conferência de imprensa “liberdade [para] Hong Kong, [a] revolução do nosso tempo”.

Além disso, também se apresentou com óculos de ski e uma máscara facial – o uniforme habitual dos manifestantes, graças ao frequente uso de gás lacrimogéneo e tecnologia de reconhecimento facial por parte da polícia. A máscara tem uma forte conotação política actualmente, graças a uma decisão, na semana passada, da Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, de proibir o uso de máscaras e óculos.

O protesto valeu a Wai ser expulso da competição, foi-lhe retirado o prémio monetário que já tinha ganho e foi interditado de participar em competições da empresa durante doze meses. Os repórteres foram também, ao que consta, despedidos.

Por umas migalhas (menos de 10% de cota de vendas vindas da China), uma empresa americana faz tábua rasa dos seus valores, esculpidos em bronze à porta da sua sede na Califórnia, onde se leem palavras fortes, como por exemplo “Todas as vozes contam”.

Há diversos sinais perturbadores nestes dois episódios. Em primeiro lugar, assistimos, já há algum tempo, ao fim do estado como interlocutor bilateral nas questões internacionais. Neste caso, ainda há um estado envolvido, mas quantos são os casos em que a relação dos cidadãos com as coorporations passa completamente ao lado do estado e do poder de mediação por proporcionado pelos cidadãos que o constituem. Intimamente ligados a esta realidade, os “termos e condições”, esse emaranhado legal construído unilateralmente como se as empresas fossem ilhas na sociedade, constituem muros de negação do direito a protestar quando algo não corre bem nesta relação. Funcionam como tribunais sem juiz nem advogados, onde o cidadão não tem voz. Poderão os espíritos que se declaram liberais ver uma vantagem na redução do papel de homem-do-meio proporcionado pelo estado, mas experimentem encontrar alguém com quem falar se tiverem um problema para resolver.

Todo este autismo empresarial muda radicalmente de atitude quando do outro lado está a China. Um suspiro do dragão asiático faz tremer os gigantes ocidentais, habitualmente indiferentes – e desafiantes, aos ventos ocidentais. Lembremo-nos da forma como Mark Zuckerberg, responsável máximo do Facebook, se considera acima do que o estado americano possa decidir quanto à sua empresa. Com a China, o padrão das empresas é de subserviência, mesmo quando nada de palpável está no horizonte.

A China, potência que se transformou num incontornável poder na ordem mundial graças à ganância dessas mesmas avarentas multinacionais que agora perante ela se vergam, é uma das maiores ameaças ao indivíduo como ser dotado da capacidade de se exprimir livremente. Os episódios aqui relatados são isso mesmo, episódios entre muitos outros a acontecerem num estado repressor, a estender os seus tentáculos no palco mundial. Olhe-se para Portugal, a finisterra, onde o estado chinês controla infraestruturas absolutamente críticas para o país, e pense-se no que fará o Estado Português se um conflito de interesses se colocar entre os dois países.

Estas são as garras do dragão. Esperem para lhe verem os dentes da sua bocarra.

Adenda: Outro episódio na conturbada relação da China com a liberdade de expressão: Daryl Morey, gestor de uma equipa de basquetebol associada à NBA, escreveu um tweet defendendo a liberdade de expressão em Hong Kong. A China reagiu com grande agressividade contra a NBA, colocando em causa anos de trabalho comercial na promoção da NBA em território chinês (o maior mercado fora dos EUA, avaliado em 4 mil milhões de dólares). Um podcast interessante sobre o negócio da NBA na China: NYT The Daily.

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