Ao cuidado de Freud: a inveja da bomba islâmica

O recente ataque à Porta dos Fundos trouxe às redes sociais mais uma enxurrada de excrescências constituídas por várias afirmações tão ridículas como perigosas, o que não é novidade, já que muitos criminosos são também cómicos. Confesso que ainda não vi o filme que deu origem ao atentado e não sei se é bom ou mau, o que, de qualquer modo, é irrelevante.

Os emissários das excrescências são, muitas vezes, membros de uma direita católica que admite brincadeiras – e bem – com os tiques da esquerda, mas que se enxofra com piadas que possam atingir a Igreja, Deus, Jesus ou os crentes.

Uns brandem o célebre “liberdade, sim, mas não à libertinagem”, muito preocupados com a ideia de que um Ser Omnipotente se possa ofender com palavras de mortais desbocados, o que é um enfraquecimento de algo ou de alguém tão poderoso. Em verdade vos digo que se Deus for o de alguns episódios do Velho Testamento, o sentido de humor não é, de certeza, o seu forte. Também vos digo que, se for Esse o existente, não estou interessado em conhecê-Lo e ficarei muito irritado por ter sido criado por alguém ainda mais maldisposto do que o do poema de Caeiro.

Outros, em terrenos limítrofes, franzem a sobrancelha e, com voz cava, anunciam que “não se brinca com coisas sérias”. Não há cerimónia solene, incluindo funerais, que livre alguém de um ataque de riso, ainda que contido, ou de uma anedota imprópria. O Holocausto é fonte de piadas de péssimo gosto e absolutamente hilariantes, porque rir, muitas vezes, é só uma espécie de catarse, um nervoso miudinho.

No entanto, a minha preferência vai para uma frase como “Com a malta da religião islâmica não se metem esses cobardolas!”

Esta frase, note-se, é proferida por cristãos de direita, que, frequentemente, ainda olham para o islamismo com o mesmo espírito de cruzada dos nobres medievais. O que é curioso nesta afirmação, de qualquer modo, é que à crítica da libertinagem humorística acrescentam a acusação de cobardia, já que os radicais islâmicos ainda têm menos sentido de humor do que os reaccionários de Cristo, sendo que a carência de riso é vista como uma enorme virtude.

No fundo, esta gente sente uma inveja incomensurável do inimigo que, por viver num estádio mais primitivo, não se preocupa com direito humanos e com entraves como a liberdade. Freud ter-se-á enganado na inveja do pénis (que é, evidentemente, um problema masculino, como Woody Allen demonstrou), mas teria pouco trabalho a explicar a inveja da bomba alheia. No fundo, há muita gente dentro da Igreja que tem saudades do tempo em que havia respeitinho, porque as praças cheiraram a carne assada e era proibido não ir à missa, quanto mais dizer piadas sobre Jesus.

Comments


  1. Tenho todo o homem por humano e não como emissário de um qualquer Deus.
    Vai daí é pelo respeito devido ao homem cujo perfil histórico me merece respeito (o que já não acontece com o Mafoma) que vejo esse humor de paneleiros como ofensivo; e é por respeito aos homens que são crentes e que requerem a sua divindade que tenho esses autores como cretinos.

    E se a esquerdalhada toda se abespinha com uma porta ardida, basta saber do gozo que põem em tanta outra destruição e
    ofensa que lhes dou crédito nenhum.

    • António Fernando Nabais says:

      O menos tem todo o direito a achar que os rapazes do filme são cretinos ou paneleiros e tem direito a ser cretino e paneleiro, que não são qualidades incompatíveis. (Confesso-lhe, entretanto, que o menos já comentou o suficiente para se perceber que é cretino, mas não se revelou o suficiente para que o considere paneleiro, mas há quem diga que são os que se preocupam mais com a sexualidade alheia os que têm problemas com a própria. De qualquer modo, cá estarei para lutar pelo seu direito a continuar a ser cretino – e tem muito mérito nisso – e para ser o que lhe apetecer no campo da sexualidade, confessando-o ou não, que ninguém tem nada a ver com isso).
      O menos preocupa-se muito com as ofensas aos homens que são crentes, mas é muito selectivo nas crenças, o que é próprio de um cretino.
      A ideia de que ninguém se deve abespinhar por ter uma porta a arder só porque contou uma piada boa ou má é também própria de um cretino.
      O menos, afinal, é tão cretino que ainda corre o risco de ser chamado para integrar o elenco do “Porta dos Fundos”. Talvez no próximo Especial de Natal esteja lá a fazer de um cretino tão cretino que até Jesus chorará consigo a impossibilidade de fazer de si um comentador decente, depois de ter ressuscitado um morto e curado três leprosos. Nós, aqui, agradecemos a Jesus, porque a nosso caixa de comentários sentiria a falta do nosso cretino de estimação.
      Um óptimo 2020!


      • Sou muito selectivo quanto às crendices que me querem impor as suas crenças pela força, ainda que de leis.
        E desses apóstolos-coirões está este blogue cheio.
        São religiosos de uma fé que incorpora a bandalheirano na sua acção evangélica.

    • Paulo Marques says:

      Já lhe passou pela cabeça que os fanáticos merecem ser ofendidos, a ver se percebem o que custa a vida?
      E se o homem lhe merece respeito, que tal começar com:

      «Ame seus inimigos, faça o bem para aqueles que te odeiam, abençoe aqueles que te amaldiçoam, reze por aqueles que te maltratam. Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face.»
      «Quem quiser ser líder deve ser primeiro servo. Se você quiser liderar, deve servir.»
      «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.»
      «Nunca faça para os outros o que você não gostaria que fizessem para você.»
      «Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos.»
      «A vida de cada um não está na abundância das coisas que possui.»
      «Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas.»
      «Fizeram da casa de meu Pai um covil de ladrões.»
      «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.»

      Não, isso é conversa de bichas comunistas.


      • O respeitinho que incorpora o seguidismo é coisa de carneirada esquerdalha.
        E nem dás por ela!

        • António Fernando Nabais says:

          O Jesus era um esquerdalho, está visto.

          • JgMenos says:

            Como passaporte para o Além, sem dúvida; mas não como caminho de chulice para cá do Além.

          • Paulo Marques says:

            Já que não és mestre do seguidismo, ora diz lá as vantagens da desregulação bancária, da precariedade, onde pára a inflação e o crescimento económico prometidos por Bruxelas para a Eurolândia, ó papagaio do botas.

          • JgMenos says:

            Essa tua salada talvez ta comente se me souberes dizer: porquê quer Bruxelas inflação?

          • Paulo Marques says:

            Porque sem inflação, como mostrou Piketty (com erros, é verdade), promove-se a acumulação de capital, além dos bem conhecidos efeitos de estagnação económica.
            Mas o porquê é indiferente: o BCE define que a estabilidade de preços do seu mandato é ter entre 2 e 3% de inflação. Os críticos afirmaram que eram irresponsáveis no brutal aumento da base monetária. No entanto, não se mexe, violando a teoria quantitativa e a curva de Phillips. O contabilista, que não é seguidista, diz que está onde?

    • João Almeida says:

      Sou o que a sociedade convencionou chamar de “heterossexual”, mas se um dia eu tiver um filho, gostaria que ele fosse homossexual! Porque, para mim, os verdadeiros homens são aqueles que fazem sexo com outros homens (era assim a definição de homem com H grande na antiga Grécia, civilização que deu origem ao Ocidente)! Mas se ele for heterossexual, aceito a sua opção, já que sou tolerante para com a heterossexualidade, mesmo que ela não exista (a ciência já provou que não existe) –> https://life.dn.pt/saiba-que-nao-existem-pessoas-heterossexuais-diz-ciencia/

  2. JgMenos says:

    ««Tem tudo a ver com energia erótica, com a pessoa sentir-se livre para ser ativada por um ou outro género,,,»

    Que cientismo do caraças!
    Afinal a violação só acontece a quem não se sente ‘livre para ser activado’.

    A cretinagem a jogar com palavras.

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