Católico rico, católico pobre

Por vezes cruzo-me com cemitérios repletos daqueles grandes jazigos, autênticos palácios muralhados que se elevam sobre a campa rasa do comum dos mortais. Todos os cemitérios os têm, é certo, e todos são livres de construir os seus castelos para o descanso eterno. Mas ocorrem-me poucas coisas, no âmbito católico apostólico romano, que sejam uma tão gritante antítese daquilo que são os ensinamentos bíblicos, como a diferenciação, após a morte, entre católicos ricos e católicos pobres. A ostentação e a estratificação social, em absoluta negação da retórica da humildade e do desprendimento do materialismo, e no limite – ou para lá dele – de alguns pecados ditos mortais são um fenómeno que atravessou os séculos e que, ainda hoje, se mantém. Conseguem imaginar Jesus Cristo a defender cemitérios em que os filhos do seu Pai se diferenciam pela posse e pela condição social? Eu não. Eu imagino-o a fazer com esses jazigos o que fez com os vendilhões do templo. Sim, é uma hipocrisia e não podia estar mais a léguas daquilo que são os valores cristãos fundadores e ancestrais. E são um dos muitos espelhos de uma sociedade profundamente elitista, onde a religião, mais do que um fim em si mesma, é um meio para outras finalidades. Já a frugalidade sobre a qual assenta o protestantismo, as suas práticas e os seus templos, por contraste com a opulência reinante no mundo Católico, diz muito sobre onde eles estão e onde nós estamos. Nada, nem isto, é por acaso.

Comments

  1. Alexandre Barreira says:

    ……influência faraónica….talvez….!!!

    • POIS! says:

      Pois mas…

      Está provado que os faraós também já eram influenciados.

      Li na net, num site de um senhor muito cientista (que prova que a terra não é plana, é triangular e está empinada) que o Quéops se inspirou no Michael Jackson.

      Não sei se acredite mas, desde há uns trumps para cá, tudo é possível.

  2. JgMenos says:

    Se os ricos fossem para uma casa rasa, já conseguiriam competir com os camelos a passar em buracos de agulha?

    • POIS! says:

      Pois, se os ricos…

      Fossem para uma casa rasa tinham de rastejar baixinho até para ir á casa de banho. E os quadros do Rendeiro tinham de estar colados ao teto.

      É uma ótima ideia!

      PS. Os ricos passam a vida a competir com camelos. Aliás, Vosselência tem sentido isso na pele.

    • Paulo Marques says:

      Era um começo, mas podiam começar por recompensar o trabalho.

  3. luis barreiro says:

    Puffffftttt, desculpem descuide-me.

  4. Ana Moreno says:

    João, os protestantes
    – não estamos a falar destas novas seitas evangélicas que só andam à caça de dinheiro e em África até promovem sacanamente a tortura de crianças:
    https://www.arte.tv/fr/videos/103828-000-A/nigeria-skolombo-le-calvaire-des-enfants-sorciers/
    – são, em muitas coisas, bem melhores que os católicos.
    Imagina o meu pasmo quando, chegada de fresco à Alemanha em 1982, vejo o movimento pela paz (contra o estacionamento de mísseis Pershing II na Alemanha ), mobilizado em primeira linha pelos protestantes em manifestações com várias centenas de milhares de pessoas. Para mim igreja era a católica e sempre reaccionária (exceptuando na América Latina) e conivente com o fascismo; de repente, vejo uma igreja progressista e interveniente, a tomar posição contra a decisão da NATO e do governo. Durante o colonialismo protuguês, as igrejas protestantes denunciavam o sistema e foi nelas que se formaram e de onde sairam alguns dos africanos que interviram nas lutas de libertação.

  5. estevesayres says:

    Eu não vou comentar porque sou agnóstico, a caminho do ateísmo!!! Não se pode ter tudo!!!

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.