Católico rico, católico pobre

Por vezes cruzo-me com cemitérios repletos daqueles grandes jazigos, autênticos palácios muralhados que se elevam sobre a campa rasa do comum dos mortais. Todos os cemitérios os têm, é certo, e todos são livres de construir os seus castelos para o descanso eterno. Mas ocorrem-me poucas coisas, no âmbito católico apostólico romano, que sejam uma tão gritante antítese daquilo que são os ensinamentos bíblicos, como a diferenciação, após a morte, entre católicos ricos e católicos pobres. A ostentação e a estratificação social, em absoluta negação da retórica da humildade e do desprendimento do materialismo, e no limite – ou para lá dele – de alguns pecados ditos mortais são um fenómeno que atravessou os séculos e que, ainda hoje, se mantém. Conseguem imaginar Jesus Cristo a defender cemitérios em que os filhos do seu Pai se diferenciam pela posse e pela condição social? Eu não. Eu imagino-o a fazer com esses jazigos o que fez com os vendilhões do templo. Sim, é uma hipocrisia e não podia estar mais a léguas daquilo que são os valores cristãos fundadores e ancestrais. E são um dos muitos espelhos de uma sociedade profundamente elitista, onde a religião, mais do que um fim em si mesma, é um meio para outras finalidades. Já a frugalidade sobre a qual assenta o protestantismo, as suas práticas e os seus templos, por contraste com a opulência reinante no mundo Católico, diz muito sobre onde eles estão e onde nós estamos. Nada, nem isto, é por acaso.

Miss Campa

Desde sempre tive particular repugnância pelo dia de ontem. Para mim o 1 de Novembro é um dia tétrico, macabro. É um dia de cemitérios, arranjos florais, velas, sebo queimado, tudo numa miscelânea de cheiros que torna o ar irrespirável. Depois, aquelas conversas junto às campas, acerca de tudo e de nada, dos outros, da política, das doenças, do futebol. Um ritual tantas vezes cumprido com inveja e desdém, por cobiça e tédio. A obrigação cumprida para evitar o comentário alheio, a disputa parola dos arranjos florais, o asseio transformado em alcovitice.
Nos EUA, a tradição de engalanar as campas há muito que teria sido aproveitada para promover concursos de beleza. Congregaria na mesma a comunidade e tornaria tudo bem mais interessante.
Um dia, quem sabe, não teremos entre nós a Miss Campa. Já faltou mais, agora até se festeja o Halloween.
(Texto original de 2004)