O Al-Amin

Vou falar-vos do Al-Amin.

O Al-Amin tem trinta e três anos, tem um filho, tem esposa, tem casa. O Al-Amin tem um mini-mercado em São Domingos de Benfica. O Al-Amin sorri muito, cumprimenta sempre, de vez em quando desabafa e mostra empatia por quem passa pela sua lojinha – pequena e apertada, mas arrumada e asseada.

O Al-Amin, tendo esposa e um filho, está sem a esposa e o filho. Tem-nos, certamente, sempre na memória e no sentimento. Pode vê-los, sempre que quer, na tela do seu telemóvel ou computador, a nove mil quilómetros de distância. Da tela do Al-Amin saem saudades que se alojam directamente na tela da sua família, no Bangladesh. E será, certamente, pelas saudades que, sabe, nunca são eternas, que se mantém em Portugal. O Al-Amin abre a sua loja todos os dias, de Segunda a Domingo e aos feriados também, das 8:00 às 23:00. Não tem folgas. É patrão e empregado ao mesmo tempo. Paga com todas as suas obrigações. Quase 60% do que factura ao fim do mês, envia para o Bangladesh. “Para a minha esposa e para o meu filho ir à escola”, contou-me um dia.

O Al-Amin é cidadão do mundo, como todos nós. E não é por vir de uma parte diferente do globo que o meu mundo se sobrepõe ao dele. Somos dois mundos num só, fazemos dos nossos mundos a aproximação a este mundo. E só assim faz sentido, se queremos ser Pessoas.

Uma vez, por curiosidade, perguntei ao Al-Amin se tinha vindo directamente do Bangladesh para Portugal. Respondeu-me que não, que já tinha estado na Grécia, no Chipre, na Inglaterra e em França. Agora, está em Portugal. “E a vida é assim”, disse-me, num português esforçado mas sempre perceptível. Perguntei-lhe depois onde mais gostou de estar. “Em Portugal!”, exclamou. “E porquê?”, insisti. “Os portugueses interessam-se mais, não despacham as pessoas”. Sorri-lhe. Ele sorriu-me de volta. Está em Portugal há três anos. Fiquei na dúvida qual dos dois era o mais ingénuo. Se eu, por achar que, no meu mundo facilitado em que tudo me é oferecido quase de mão beijada, percebo alguma coisa disto. Se ele, por achar que Portugal é tudo aquilo que ele sente que é.

O Al-Amin é mais um entre as centenas de pessoas que saem dos seus países à procura de uma vida melhor. Não saem por capricho. Não são anos sabáticos ou de investimento pessoal. É necessidade. É quase obrigação. Chama-se pobreza. Ao Al-Amin calhou a sorte de poder ter tido a oportunidade de explorar um micro-negócio de bairro. Mas podia não ter sido assim. Como outros, podia ter acontecido Odemira ao Al-Amin.

Por isso, quando leio a notícia de que a GNR, em vários actos cobardes de racismo, xenofobia e aporofobia, violentou, humilhou e troçou de trabalhadores imigrantes vindos do Bangladesh ou do Paquistão, lembro-me do Al-Amin. Penso neste jovem que, tão longe da família que tanto ama mas que nunca tem um mau olhar para nos dar, poderia estar ali, naquela situação, como estão conterrâneos seus. A ser violentado, a ser humilhado, prostrado sobre a sua própria inocência, a inocência de quem acha que quem está designado para o proteger o irá, de facto, proteger. Penso no Al-Amin e em todas as cervejas que lhe comprei. “Hoje não tem Super Bock, mandei vir para si amanhã”, diz-me por vezes. “Há quanto tempo! Foi visitar a família ao Porto?”, pergunta-me, quando apareço depois de uma semana sem lá ir. Tudo isto pode ser resumido numa palavra: empatia. Empatia – porque o meu dia pode estar a ser mau, mas não dificultarei o teu. Empatia – porque eu não sinto o que tu sentes, mas entendo e não te julgo. Empatia – porque sem ela seremos sempre mortos-vivos numa selva de betão.

Não conheço nenhum dos imigrantes visados pela GNR em Odemira. Mas conheço o Al-Amin. E, para mim, é como se o tivessem agredido a ele, pois é ele a representação das dificuldades daquela gente, no meu mundo. Numa das últimas vezes que vi o Al-Amin, esta semana, estava ele em vídeo-chamada com a irmã e o sobrinho. Ele deste lado, eles no Bangladesh. Virou o telemóvel para mim, para que pudesse dizer “olá” ao seu sobrinho de cinco anos. Enquanto o fazia e lhes sorria, pensava no quanto nos separa. E pensava, também, no quanto essa separação é apenas física. Tudo o resto, une-nos. Será sempre assim, com quem quer que seja.

Só discrimina quem não tem mundivivência. Tolos, pois não sabem que para viajar não precisamos de sair do nosso próprio lugar. Espera-se Justiça, mesmo que saibamos, de antemão, que não se esperam milagres de quem passa a vida a pecar.

Na fotografia, o Al-Amin.

Fotografia de MAYO.

Comments

  1. balio says:

    É necessidade. É quase obrigação. Chama-se pobreza.

    As pessoas que emigram não são em geral as mais pobres. Os mais pobres nem sequer têm dinheiro que lhes permita emigrar. A emigração é uma forma de investimento, e os mais pobres não têm dinheiro para investir e, mesmo quando o têm, não o investem, porque investir é um risco e os mais pobres sabem que, se o risco se materializa, morrem de fome.

    Aliás, os bangladeshis só começaram a emigrar recentemente, porque o Bangladesh atual já não é propriamente miserável.

    • João L Maio says:

      É verdade, o que diz. Mas, em comparação com o dito “primeiro mundo”, a disparidade é gigante. Os mais pobres não emigram… depende, há quem o consiga fazer, fugindo por mar, “ilegalmente”. E eu, apesar de tudo isto, nunca toquei nesse assunto, nunca lhe perguntei nada sobre a origem da sua emigração. No entanto, a riqueza, em países como o Bangladesh, é uma miragem para o cidadão comum, como o é o Al-Amin.

      Em suma, importa a mensagem que tento passar, não os pormenores.

  2. JgMenos says:

    Que idade tinham os GNR denunciados?
    Eram 2 da madrugada?
    Onde a versão dos guardas?

    Quanto ao Amin; conheceu ‘Odemiras’ antes de abrir a loja em Portugal?

    • POIS! says:

      Pois ora aqui estão três questões com carradas de toneladas de pertinência.

      Que exigem resposta.

      Primeira: tem V. Exa. toda a razão. Não se deviam admitir putos de 25 anos na GNR. Aliás, há muito defendo que a idade mínima para andar fardado deveria ser de, pelo Menos, uns 60 anos. Aí, pelo Menos, já não havia desculpas para a falta de maturidade.

      Segunda: também defendo que, a horas dessas, os postos já deviam estar fechados. Pelo Menos, desde as 5 e meia da tarde, nos dias de semana. Aos sábados a partir das três e, aos domingos, se é dia do Senhor, também deve ser do Senhor Guarda. Nada de discriminações!

      Assim, os guardas iam para casa mais cedo, ter com as esposas e os filhos e a população estaria muito mais segura e descansada. Ás duas da manhã as mulheres estão em casa, as tascas estão fechadas e a malta tem tendência para o disparate.

      Terceira: Ora nem mais! Ouvi dizer que aquilo foi tudo fingido. As filmagens eram para um “reality show” da “TV Ó de Mira”, uma nova temporada do conhecido “Big Bófia”.

      Quarta: Ah! Afinal Odemira não é em Portugal! É no Bangladesh? Então tá tudo explicado! Isto é obra de fundamentalistas fardados!

    • João L Maio says:

      És mesmo sabujo. Às vezes, pergunto-me se és real ou um ‘bot’. Deves ser tão infeliz, foda-se.

      As melhoras.

      • JgMenos says:

        Desde que te deem um coitadinho ficas todo excitado, e se tem cor e é pobrezinho entras logo no teu papel de pastor.
        Por mim estou mais preocupado com os GNR e em saber como se chega ao que se diz.

        • João L Maio says:

          Não há coitadinhos. Há pessoas.

          E essa nomenclatura diz mais sobre si do que sobre eles.

          Ps. Foda-se a GNR que violenta. Desculpem-me os GNR que não o fazem.

        • POIS! says:

          Pois está!

          Vosselência está mais preocupado com os GNR porque nunca apanhou a sério.

          A Democracia tem sido muito mansinha para com V. Exa. Fraquezas!

    • Paulo Marques says:

      “Espero que eles não vão ver os telemóveis”

    • Tuga says:

      JMenos

      Repugnante Salazarento

      O teu ou melhor dizendo o vosso azar, é que o “feijão verde”, como lhes chamava-mos antigamente, são tão cretinos talvez por se acharem com as costas quentes, filmaram o acto.
      Deu em todas as TV do País

      E tu em vez de te calares ou fazeres como o teu companheiro neo, Ventura, que hipocritamente lamentou o facto, vez para aqui defender o “feijão verde”

      • Amora de Bruegas says:

        Tuga says, para mostrares a tua discordãncia com o que diz o JMenos, não é necessário seres ordinário nem usar a palavra salazarento. tal comportamento só revela quão baixos são os teus sentimentos, a tua educação, que devem ser uma das conquistas de Abril, tal como a violência dos soldados da GNR…, todos iguais!

        • João L Maio says:

          Então, mas… chamar fascista a um fascista é ser mal educado?

        • Tuga says:

          Estimada Bruegas

          Eu vou ler de novo e aqui repetir, o meu post que segundo Vossa Senhoria foi “ordinario” e “revela quão baixos são os teus sentimentos, a tua educação,”

          Li e aqui de ovo publico o meu post supostamente ordinario.

          “JMenos

          Repugnante Salazarento

          O teu ou melhor dizendo o vosso azar, é que o “feijão verde”, como lhes chamava-mos antigamente, são tão cretinos talvez por se acharem com as costas quentes, filmaram o acto.
          Deu em todas as TV do País

          E tu em vez de te calares ou fazeres como o teu companheiro neo, Ventura, que hipocritamente lamentou o facto, vez para aqui defender o “feijão verde””

          A palavra “Salazarento ” que nem o JgMenos, repudia, por se conhecer a si próprio melhor do que Vossa Senhoria o julga, parece que é o que a faz indignar a si.

          Mas do resto seu post , percebe-se perfeitamente o porquê da indignação.

          Mas talvez nunca lhe tenham contado, mas a ditadura Salazarista existiu. Não contem comigo para fazer o seu branqueamento, como algumas pessoas gostariam

          PS : Sobre o seu inicio de post:

          “Tuga says, para mostrares a tua discordãncia ”

          Mostrares ?????

          Não andamos juntos na costura nem na tropa

          A Bem da Nação

  3. Rosa+Lourenço says:

    Os mais pobres nunca poderão emigrar…
    É triste que o dito “primeiro mundo” NADA faça para melhorar a situação das pessoas nos países menos desenvolvidos, em investimento nos recursos naturais, em promoção do ensino de modo a proporcionar aos seus habitantes uma vida digna e equilibrada sem necessidade de fuga ou sujeição a situações de miséria…
    É utopia? Há dinheiro! Haja vontade!!!
    Creio que se gasta demasiado em armas, em conferências sobre clima, igualdade de género, eutanásia mas negligencia-se a pessoa na sua essência!
    Que MUNDO é este?
    Fala-se em liberdade e em democracia… Mas alguém com fome é livre? Um analfabeto saberá o que significa democracia? O povo só será soberano quando todos os governantes servirem o BEM Comum, o verdadeiro interesse público.

    • Filipe Bastos says:

      Carradas de razão.

      Acrescento: estes governantes só servirão o bem comum quando forem obrigados a tal, numa democracia mais directa.

  4. Filipe Bastos says:

    Só discrimina quem não tem mundivivência.

    Acha, Maio? E se alguém discriminar porque lá esteve e não gostou? Ou porque foi também discriminado?

    Quanto mais países e culturas conhecemos mais constatamos que há pessoas boas e más em todo o lado, mas que no essencial todos queremos +- o mesmo: ser aceites, ser amados, etc. Há, no entanto, uma diferença entre culturas e indivíduos.

    Desprezo os EUA, mas conheço alguns americanos fantásticos. Em 300 e tal milhões, é uma mera questão de probabilidades: claro que há lá muita gente boa. Só que, e aqui bate o ponto, a maioria dos bons são-no porque rejeitam a cultura dominante.

    Também havia, chegando ao inevitável Godwin, nazis boas pessoas. Mesmo doutrinados, punham a sua consciência e valores pessoais acima da doutrina. Mas a maioria dos nazis não era assim.

    Por falar nisso, Maio, como tratam homossexuais no Bangladesh?

    • Paulo Marques says:

      Mundividência não é só ter viajado; ajude, mas não define.

    • Filipe Bastos says:

      Maio: quando possível, por favor indique ao Marques a diferença entre mundivivência e mundividência.

      Marques: ir aos sítios e sobretudo viver lá uns tempos ajuda mesmo muito. Uma coisa é conhecer um Al-Amin tolerante e porreiraço; outra coisa é confundi-lo com uma nação de 170 milhões. Os preconceitos funcionam both ways.

      • Paulo Marques says:

        Devia usar os óculos. Tem razão, mas deixe-me pôr de outra forma: o professor pode falar à vontade, se o aluno não quiser, não aprende na mesma. Então quando beneficia de não aprender, é quase certo que não aprende.

  5. luis barreiro says:

    Envia todos os meses 60% do que factura para o bangladesh. Privilegiado os Portugueses entregam 23% ao estado só de iva, mais restantes impostos, taxas e etc são perto de 50%. Pagar custos de água, luz, contabilista, seguros, …. renda, fica 35%, e ainda falta repor o stock. Quem é roubado é o estrangeiro o zé povinho?

    • POIS! says:

      Pois pois!

      Se Vosselência tiver o azar de apanhar um cancro dos tais, pode experimentar ir tratar-se para o Bangladesh. Ou para os EUA, que é a mesma coisa.

      No primeiro são felizes por não pagarem impostos, mas não há. No segundo também pulam de felicidade, mas ficam á porta.

    • Paulo Marques says:

      São os dois, mas alguém ganha, e não parará de querer mais nem quando ficarmos em condições iguais,


    • O barrasco no seu melhor vómito

  6. Carlos Almeida says:

    “Privilegiado os Portugueses entregam 23% ao estado só de iva”

    Quem tem uma empresa, entrega os 23% ao Estado do IVA que já o meu cliente lhe pagou.
    O IVA que quer dizer imposto do valor acrescentado não é do vendedor e é pago pelo consumidor final. O vendedor só paga 23% da diferença entre o total da vendas e das compras

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.