My body, my rules

A propósito da aprovação da Lei que despenaliza a morte medicamente assistida, decidi apropriar-me desta expressão que costuma ser utilizada para outras lutas. Porque também é isso que está aqui em causa, o direito a decidirmos parar de viver, se colocados perante um sofrimento atroz, causado por doença incurável. E ninguém melhor que cada um de nós, para decidir quais os limites que suporta, aceitando como é óbvio o direito à objecção de consciência pelos profissionais médicos, que na condição de pessoas, também têm as suas próprias convicções, naturalmente merecedoras de total respeito, como qualquer outra, mas não mais que isso, se um médico não estiver disponível para praticar determinado acto médico, deve informar o paciente, que poderá recorrer a outro clínico.

O que não compreendo nem aceito, são aqueles que pretendem agora referendar este direito, respeitando o direito à diferença de opiniões, não vejo em que medida qualquer vizinho tem direito a opinar sobre uma eventual doença que eu possa vir a sofrer e contribuir com um voto para a decisão a tomar, da mesma forma que vota numa assembleia de condóminos, se decidir propor algo que a todos diz respeito.
Direitos não se referendam, bem sei que abriram uma caixa de Pandora com a IVG, mas fiquemos por aí, não evoquem agora um precedente, que até foi um erro, para o qual muito contribuiu o actual Presidente da República, para justificar outro erro, como pretendem o Chega, Luís Montenegro e grande parte do PSD, mais ou menos pressionados pela Igreja Católica. Que ninguém se iluda, se o PSD governasse com maioria no Parlamento, nem admitiam referendo, mas como estão em minoria, procuram formar uma coligação hipócrita, apostando em todas as manobras dilatórias a que possam recorrer, do veto Presidencial ao chumbo no Tribunal Constitucional. E quando esgotarem as possibilidades, virão clamar pelo referendo, procurando confundir a opinião pública, com o perigo de assassínio em massa de cidadãos idosos e outras falácias a que já nos acostumaram. Desiludam-se, é uma causa perdida, poderão até conseguir atrasar mais um ou dois anos, a entrada em vigor da Lei que já deveria estar a ser aplicada, porque há pessoas em sofrimento. Mais cedo ou mais tarde, terão que se conformar.
Qualquer cidadão em sofrimento deveria ter direito à eutanásia, prática que deve sempre ser solicitada pelo paciente, nunca sugerida por terceiros e confirmada num prazo curto, mas razoável, que permita concluir a existência de vontade e não um mero impulso. Quem por convicções de ordem moral, religiosa ou outra, decidir prolongar a vida até aos limites da ciência, também deve ter esse direito. Nesta, como noutras matérias, ninguém, muito menos o Estado, deve regular a vida dos cidadãos. Infelizmente Portugal ainda é um país retrógrado e por muito que os velhos do Restelo não governem, ainda condicionam…

Comments

  1. oprove says:

    … esperar mais um pouco… os anti-tudo, vulgo (aka) negacionistas, anti-ivg, pró-vida, pró-armas, pró raio que os parta, já comentam de seguida este post com a sua verborreia habitual…

  2. Rui Naldinho says:

    O mundo está cheio de falsos moralistas, como aquela Senadora Norte Americana do Alasca, ex candidata à Vice Presidência dos EUA, pela mão de um qualquer candidato republicano à chefia do estado, evangélica praticante, de seu nome, Sarah Palin, uma fervorosa anti aborto, eis senão quando a Comunicação Social denunciou que a sua filha tinha feito um aborto, com conhecimento da mãe.
    Podíamos replicar isto milhares de vezes, fosse no aborto, fosse na eutanásia, fosse no sexo ou consumo de drogas, ditas leves.
    Ainda agora surgiram notícias de que alguns membros do parlamento britânico, onde se incluíam membros do Partido Conservador, “snifavam à fartazana” nos sanitários e até gabinetes. Consequências? Nada!
    Dito isto, ao Estado compete criar legislação adequada para o cumprimento do direito à vida. A uma vida condigna, sem sofrimento. No qual se deverá enquadrar o desejo de alguém se libertar dela, caso a vida se torne um martírio.

    • POIS! says:

      O líder da radicalização à direita do Partido Republicano na década de 90 Newt Gingrich é outro desses “grandes artistas”.

      O pregador da indissolubilidade do casamento e da unidade da família (muito católico, este santo) deixou a primeira mulher quando ela recuperava de uma operação a um cancro. Mais tarde, “traíu” a segunda com uma assistente do Congresso, que viria a ser a terceira.

      Já fora do Congresso, veio a admitir que alimentava uma relação extraconjugal no preciso momento em que se destacava a perseguir Bill Clinton a propósito do caso Lewinsky.

      Em tempos um jornalista apelidou-o de qualquer coisa como o “rei das rapidinhas” que, segundo o mesmo, decorriam em locais discretos do Capitólio, no intervalo dos debates, digo eu.

      Mas o exemplo do “olha ao que eu digo, não ao que eu faço” destes tementes a Deus vem de muito acima:

      “Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

      Paul Lafargue “O Direito à Preguiça”

  3. Rosa Lourenço says:

    Há tanto a fazer em Portugal! Lamentavelmente os deputados perdem tempo com a Eutanásia e, talvez se esqueçam da urgência de admissão de médicos suficentes, nos hospitais para tratamento dos doentes. Se já existe o testamento vital só há que o divulgar a fim de ser acessível a todos os portugueses adultos. A Eutanásia não é solução para casos de sofrimento tremendo em que as pessoas se arrastam (outras completamente imóveis) sem possibilidade de expressão e só gritam com dores porque nem falar ou escrever conseguem . A Eutanásia em nada traz a felicidade a ninguém, nem ao morto nem ais familiares.. Quem tem capacidade de expressão talvez também consiga um modo qualquer de dar um final antecipado à sua vida. Assim penso. Não critico quem a queira exercer mas receio que se torne um modo óptimo para aligeirar responsabilidades de médicos menos criteriosos. Todos os dias há novos remédios! Há que dar ESPERANÇA a um povo que se sacrifica pelos governantes há quase 900 anos e não dar-lhes uma rápida pá para a cova. São necessários estadistas em Portugal que se entreguem ao serviço da nossa comunidade.

    • Paulo Marques says:

      Quanto à felicidade, fale por si, não pelos outros. Mas, não, não há esperança para quem, por exemplo, tem dados neurológicos irreparáveis, só ter que aguentar um cérebro que só funciona o suficiente para se sentir um peso.
      Mesmo que os tais de socialistas decidam ir à gaveta e decidirem cumprir a constituição, governar para quem os elege com as promessas que vomita, e que a desunião deixe, a vida é a merda que é, sem milagres.

  4. JgMenos says:

    A eutanásia é instrumento essencial para que os moribundos se despachem e não impeçam as famílias de prosseguir as suas actividades lúdicas assim como para deixarem de ocupar e dar despesa aos hospitais .
    O Admirável Mundo Novo está anunciado há já 90 anos, e como tudo que é novo logo se define de esquerda.

    • POIS! says:

      Ora pois!

      Cada um lá tem a família que merece. E pensa que a dos outros é igual.

      Mas talvez não!

    • Paulo Marques says:

      É uma escolha impreterivelmente do próprio. Estarás safo na tua armagurada velhice para lutar contra os moinhos de vento enquanto o ódio te manter vivo.

  5. Paulo Marques says:

    Uma pessoa a pensar que, pronto, ao menos os liberais são liberais nos costumes e deixam as pessoas estar como querem, e logo a seguir vêm-nos clarificar que, alto lá, o corpo é um templo sagrado desenhado por Deus que não se pode alterar, não vá alguém ter medo de ter que lidar com um pénis quando era uma chaticezinha.
    Ainda não se devem ter lembrado do voucher transição, faziam logo a transformação.

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