Emplastro bom, emplastro mau

Chegou um novo jogador ao Benfica, na passada semana, do qual eu nunca tinha ouvido falar. Não é provocação. Até porque esta posta não tem nada a ver com o Benfica e eu cada vez percebo menos de futebol. Tem a ver com Fernando Santos a.k.a. O Animal ou O Emplastro, e com o seu indecifrável super-poder de omnipresença.

Não consigo perceber como é que ele faz o que faz. Como é que ele está sempre em cima do acontecimento?

Olhemos para o caso do jogador David Neres, que eu vim a conhecer por causa do suspeito do costume. O Fernando até pode ter acompanhado o processo de contratação pela comunicação social, mas como é que ele sabia que o jogador chegava naquele dia? Quem o informou? Como é que ele aparece no exacto momento em que o directo apanha o reforço do SLB a sair do aeroporto?

Não faço ideia. Mas o timing deste homem, deste ícone da televisão, a sua capacidade de aparecer, de se posicionar frente às câmaras e de saber exactamente o que fazer para ofuscar o que quer que se esteja a passar, por vezes antes da chegada da própria imprensa, é quase sobrenatural.

Sobre Fernando pouco sei, para lá daquilo que todos sabemos. Mas tenho uma certeza: por muito gozado que seja, atingiu o estatuto de figura pública, e toda a gente, neste país, sabe quem ele é. Faz figuras tristes? Talvez. Mas as TVs e as redes estão a abarrotar de gente a fazer figuras tristes. Entre ele e a Cristina Ferreira, mais a malta toda do Big Brother, não tenho dúvidas sobre quem me causa mais vergonha alheia. Pista: não é o Fernando.

O mesmo se aplica às hordas de influencers, com os seus mundos faz-de-conta, encenados até à dobra do guardanapo, e os seus sketches publicitários risiveis a troco de boiões de creme e códigos de 10% de desconto na compra de 1kg de comida para pardais. Entre um tipo que aparece onde quer como é, e outro que faz as figuras que vemos no Influencers in The Wild, para conseguir uma fotografia que tem a espontaneidade de um peido tão forçado que acaba por sair com molho, escolho o primeiro. Os influencers são os vendedores de indulgências do século XXI. Mas não vendem lugares no céu que não existem. Vendem simulações filtradas e editadas do seu céu imaginário, para quem quiser comprar e sonhar com uma vida que, na maior parte dos casos, não sequer existe.

Acho piada quando vejo pessoas a falar no Fernando como um coitadinho que faz figuras tristes, numa sociedade em que a Fanny é seguida por meio milhão de pessoas. Aparecer atrás da câmara é parolo e motivo de gozo, mas publicar fotos em formato “eu desprevenido com os abdominais/mamas/rabos/pernas em trabalhada evidência”, acompanhadas de frases filosóficas muito profundas tipo “saudades do Verão” ou “Deus no comando”, é de uma profundidade intelectual avassaladora.

Mas hey, nada contra: o Fernando é tão livre de se enfiar nos directos televisivos como os concorrentes do Big Brother de brincar aos cães de Pavlov, os influencers de todo o mundo de acordar numa cama com o lençol milimetricamente esticado e o cabelo impecavelmente penteado, acabado de sair da Lúcia Piloto, ou mesmo eu de estar aqui a malhar nas figuras que fazem.

A diferença é que o Fernando não precisa de se dar a grande trabalhos. Nem sequer de falar. Limita-se a aparecer. E está nas TVs em prime time. Está no directos. Está nas breaking news. Escrevem-se peças jornalísticas sobre ele. Imaginem a raiva das tias que passam a vida a comprar seguidores ao Instagram e ninguém sabe quem elas são. E o emplastro é ele?

Comments

  1. Pimba! says:

    Realmente, ele é o Emplastro que é mais uma tatuagem, quando näo se quer ver, esconde-se, mas os influencers säo uns emplastros que se tiram e deitam fora… e só nos lembramos deles em más ocasiöes!

  2. POIS! says:

    Sim, mas…

    Sei de fonte segura que o Emplastro prepara um golpe que o vai tornar milionário: vai processar 1523 trabalhadores e 375 empresas de comunicação por violação do Direito á Imagem!

    E por trás dele está uma sociedade de advogados dirigida por judeus!

    Duvidam? É tão certo como a paisagem da Nova Zelândia que estou a contemplar da varanda da minha casa de praia com vista para o Cabo Carvoeiro.

    Redonda? Redonda é a Katie Cummings!

  3. João L Maio says:

    João, o Luís Osório, que até costuma disparar sempre ao lado, tem um texto excelente sobre o Emplastro! Tens de ler.

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