Não confundir Mikhail Gorbachev com Mahatma Gandhi

Gorbachev foi uma personalidade marcante, central na definição da nova ordem mundial que resultou do fim da Guerra Fria, e uma das mais importantes na história das relações internacionais do século passado. Não foi, contudo, uma figura consensual, ao contrário daquilo que parece ser a imposição da narrativa, nestes dias em que nos despedimos do último líder da URSS.

Aqueles que celebram o triunfo do capitalismo e da supremacia hegemónica dos EUA, no aftermath da Guerra Fria, destacam o seu contributo para o novo status quo que colocou um ponto final no equilíbrio do terror.

Aqueles que choram a queda do grande bastião comunista e a dissolução do Pacto de Varsóvia relembram a capitulação perante o Ocidente e as atrocidades cometidas no processo de desmantelamento da URSS.

Gorbachev foi uma personalidade marcante, sem dúvida, com alguma bizarria à mistura – um comunista old school a fazer publicidade a uma cadeia de pizzas norte-americana é o equivalente a um padre fazer um anúncio da Control – e alguém cujas decisões levaram ao fim do império soviético que dirigia e, em última análise, à tomada do país pela rede de oligarcas de Vladimir Putin, visto por muitos russos inconformados como aquele que veio para restabelecer a velha glória soviética – seja lá o que isso for – que Gorbachev enterrou.

Não olho para Gorbachev com a paixão que tenho visto nos últimos dias, como não olho de forma apaixonada para político algum, com uma ou outra excepção, como Pepe Mujica ou Nelson Mandela. É um político, movido pelos seus próprios interesses e convicções, que colheu elogios ou críticas em função das pessoas e causas que serviu ou desapontou. É verdade que foi com ele que a Rússia sentiu a primeira brisa de pluralismo, ainda que simbólica e efémera, mas é escusado tentar fazer dele um Gandhi. Gorbachev apoiou o esmagamento da Primavera de Praga, ordenou a repressão das manifestações na Lituânia, em 91, e, mais recentemente, defendeu a anexação da Crimeia. De maneira que não compro a versão de estar perante um exemplar democrata. No limite, terá sido o menos mau dos dirigentes soviéticos. O que já não é nada mau.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Faz todo o sentido para quem gosta de política “não-ideológica” celebrar quem se deixou secundar pelos eventos à sua volta. Assim até se percebe as repressões, foi algo que lhe aconteceu a ele e não o contrário, e o político nunca deve lutar contra os fenómenos naturais.

  2. Rui Naldinho says:

    Há uma diferença notória entre Ghandi, Pepe Mijuca ou Nelson Mandela, e Mikhail Gorbachev. Enquanto os outros 3 vêm de fora para dentro, são opositores à própria ordem constitucional vigente, o colonialismo, por exemplo, o dirigente russo emana do próprio partido e do próprio regime totalitário. Como se percebe Gorbachev foi moldado pelo PCUS, e dessa forma tem um comportamento mais errático.
    Elevá-lo à qualidade dos outros dois só por mero oportunismo. Ainda não vi, com excepção de alguns jornalistas, a CS de reverência a transcrever a sua oposição ao alargamento da NATO a Leste.
    Será que essa parte não lhes interessa?
    Eu se tivesse que fazer uma analogia, compararia mais Gorbachev a Yitzhak Rabin, ainda que um tenha sido um general israelita e o outro político.

    • Pimba! says:

      Ora aí está uma óptima analogia!
      Dois líderes que compreenderam os próprios erros, e tentaram mudar as coisas, trazendo a paz e prosperidade ao Mundo.
      E os dois acabaram lixados…
      a paz e prosperidade vendem pouco, comparativamente com a guerra e miséria.
      Lindo Mundo o que temos agora, näo é?

  3. É verdade, porque Mahatma Gandhi nunca teve a possibilidade de decidir a morte de milhões, ou até de milhares de milhões de pessoas. E porque Mahatma Gandhi apenas teve de se haver com os colonialistas britânicos, por cujas prisões passaram, e saíram saudáveis e bem alimentados, vários futuros líderes políticos (De Valera, Nkrumah, Kaunda, Nehru) e não com uma nomeklatura político-militar bem conhecida por terminar abrupta e definitivamente a carreira de secretários-gerais do Partido (como aconteceu com Kruchshov e esteve para acontecer com Gorbachov). Gorbachov mudou radicalmente o mundo, e para muito melhor. E o maior prejudicado, foi ele, que era uma das duas pessoas mais poderosas do planeta Terra, ainda que no comando de um sistema falhado e em óbvio colapso. O facto de ter falhado por acreditar que existia um bom comunismo, humanista e respeitador da liberdade – e, sobretudo, por acreditar que, mais alguém, para lá dele, acreditava nisso – torna-o uma figura ainda maior. Mas eu percebo. Ele é o homem que destruiu os vossos sonhos de menino (ele e o Domergue, talvez) e concretizou os meus. PS: imputar responsabilidade a Gorbatchov pela Rússia de Putin é como dizer que Gandhi é o responsável pelo Modi, ou (escolhendo um exemplo que vos é mais próximo) que Otelo é o responsável por Passos Coelho

    • Paulo Marques says:

      Quem destruiu foi o Lenin, pá. Estuda mais.
      Para quem concretizou os sonhos, queixam-se muito da vitória. Não só da ascensão de Putin e Xi, celebrada durante muito tempo, mas também do resultado da falta de entraves à implementação da hegemonia mundial.
      Mas também percebemos, o capitalismo não falha, só pode ser falhado.

      • Não foi falta de estudo, foi distracção, esqueci-me que os camaradas eram da quarta internacional! O capitalismo não falha, porque é a natureza, “e às forças da Natureza nunca ninguém as venceu”. Podem (e devem), os seus excessos ser corrigidos -mas, tal, como o camarada Deng percebeu, o máximo que os “socialistas” podem fazer contra ele é manipulá-lo para se perpetuarem no poder.

        • Paulo Marques says:

          É tão natural que tem que ser forçado com polícia, mercados artificiais, forças armadas e muita propaganda, e, ainda assim, é incapaz de se sustentar sem os recursos dos outros.
          Pois a mim parece-me que a própria natureza anda um bocado contrariada a causar cada vez mais desastres, mas de certeza é de não ver unicórnios.

  4. O Gandhi nada fez para combater as castas nem educou o povo para a participação na transformação da sociedade fazendo com que a Índia seja um dos países mais miseráveis do mundo. Em política, tal como na química, nada nasce nem morre antes tudo se transforma. Quem fala da URSS e da sua queda não sabe que tal trambolhão surge como uma “necessidade” que apenas vem revigorar a luta de classes tal como os incêndios fazem às florestas que as purificam da incúria dos responsáveis. Mais 10 anos e teremos um Mundo Novo, não a caminho mas já socialista, diz Xi Jinping.

    • Xi Jinping, essa grande socialista – responsável pelo teclado em que estou a escrever ser tão baratinho!

    • Paulo Marques says:

      Isso não interessa nada, fazem parte dos recursos a explorar no mercado natural e isso é que conta. O que é um Modi face a isso? Ai, não, espera, já é mau, não por matar os seus, mas por negociar com quem não colabora, ao contrário dos vizinhos que apoiam terroristas.
      Tudo com muitas regras cumpridas, e tudo muito natural.

  5. Gorbachev, consciente ou inconscientemente, foi quem criminosamente abriu as portas para a orgia de loucura da parte do Império Anglo-Sionista e das forças globalistas, a que assistimos nos últimos trinta anos:

    https://toranja-mecanica.blogspot.com/2022/09/na-morte-de-gorbachev.html

    • POIS! says:

      Pois foi, ó Terroranjo!

      Foi realmente uma loucura orgíaca ter-se confiado num assassino, ao ponto de se lhe vender armas, materiais logísticos e tudo!

      E ainda lhe comprar gás a bons preços!

      Não sei onde é que as “forças globalistas” estavam com as cabecinhas, mas calculo…

    • Pimba! says:

      Realmente culpar a ÚNICA PESSOA que quis manter a União, e a tornar social-democrática…
      … quem quis acabar com a União, e meter a Rússia na orgia neoliberal foi o Yeltsin. Quem, lembremos, bombardeou o próprio Parlamento em 1993 quando este lhe barrou decretos inconstitucionais. O Ocidente aplaudiu-lhe todos os desvarios ditatoriais.

      Mas o pessoal näo se querer lembrar do bêbado Yeltsin, cuja acção destruidora criou as condições para o aparecimento de Putins, mostra bem em como andamos.

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