
Há uma crise que se agiganta, sem paralelo na história recente, porque afecta todo o planeta, não apenas uma região, e porque vai para lá de dívidas e bolhas, atingindo também a capacidade dos povos mais prósperos de se alimentar e aquecer no Inverno que começa a chegar. Para não falar na fome e na miséria que alastrarão com maior intensidade nas zonas mais pobres do globo, provocadas pela escassez que resulta – também mas não só – do bloqueio que impede a saída de cereais e fertilizantes dos portos ucranianos.
Entretanto, numa realidade paralela, tipo aldeia gaulesa que resiste não às investidas romanas, mas às da crise internacional, o capital flui livremente, ainda que em circuito fechado, para os bolsos dos mesmos de sempre. Wall Street é o seu nome e Outubro foi o seu melhor mês desde… 1976.
Existe um problema profundo, e em certa medida existencial, com o sistema económico que nos comanda. Assinalá-lo não equivale a desejar uma economia planificada do estilo soviético. É um alerta para a urgência de repensar o caminho, sob pena de ver ruir toda a arquitectura político-económica ocidental. Os sistemas políticos e económicos não são eternos e o prazo de validade do capitalismo do mais forte está a chegar ao fim. Seria importante que o enterrássemos enquanto é tempo, antes que ele nos enterre a nós.






Os idiotas esquerdalhos sempre veem Wall Street como um club de ricos a manipular fortunas. Fingem ignorar que boa parte do capital é:
– De fundos de pensões a tentar valorizar reformas
– De depósitos bancários em busca de poderem pagar juros aos seus tirulares
– De comissionistas em transacções a tentarem ganhar algum
…
Mas a imagem do gordo capitalista, de chapéu alto e charuto, sentado num saco de libras de ouro, é a imagem que os atormenta nas insónias raivosas da sua mediocridade!
Pois tá bem…
Há três coisas, nesta vida, que eu nunca vislumbrei: um defunto a ressuscitar, um homem a parir e um fundo de pensões a valorizar.
Mas, no entanto há quem observe fenómenos inusitados, por exemplo quem presencie depósitos bancários em frenética busca, preocupados com a subsistência dos seus titulares.
Realmente, gordos de chapéu alto e charuto sentados em sacos de libras de ouro, agora há poucos: que me lembre, só resta o Tio Patinhas e poucos mais.
Abundam mais os magrinhos (a coca corre a rodos), de bonezinho na cabeça, sentados em sacos cheios daquilo que parece ar, mas não é: “São Criptomoedas, Senhor!”.
Funciona tão bem, que estão todos falidos depois de tentar acompanhar o crescimento especulativo, e, como no mês passado no Reino Unido, só sobrevivem quando garantimos o lucro. Para nem falar da quantidade de 401k descapitalizados para outros fins porque sim;
Depósitos bancários não são em Wall Street, nem ninguém espera juros nos depósitos em 2022, lol;
Também os traficantes de droga, e?
Ainda pensei que fosse divagar sobre a liquidez e a estabilidade, mas como andam os futuros, é demasiado claro que é treta?
Primeira questão: quanto desta valorização não provém das indústrias de armas e respetivos fornecedores e subcontratados?
Segunda: afinal a inflação, que tanto parecia preocupar os “mercados”, já não é um problema assim tão grande?
A propósito de inflação: desde que começou este surto inflacionário tem-se assistido nos nossos “media” ao nascimento de uma novo ramo da ciência económica: a Abébionomia.
Entre os Abébionomistas, onda avultam os Camelos Lourinços e os Gnomos Ferreiros, mas também conceituados jornalistas da nossa praça que vão aderindo ao Abébionomismo, já circula um conjunto de novas teorias económicas em busca, certamente, um lugar proeminente na Ciência Económica deste nosso tempo.
Uma das grandes descobertas destas sumidades é esta: a inflação é provocada pela procura, mas não toda. Só as despesas dos pobres e da classe média é que são inflacionárias. Por isso nada de aumentar os salários e as pensões reais.
Sim senhor! Cheguem à janela. Olhem para a rua. Veem passar uma velhinha que vai ao banco levantar a pensão mínima? É uma perigosa inflacionária! Vai gastar a pensão toda, não tarda nada, na farmácia, na mercearia e no quiosque onde paga a água e a eletricidade, contribuindo deste modo para a espiral que a todos nos atormenta! Bandida!
É por isso que o BCE aumenta as taxas de juro. Como se sabe, esta gente tem a mania de comprar medicamentos, massas alimentícias e eletricidade a crédito e, se não lhes impomos uma taxa de juro avantajada, ainda se esticam! Desatam a comprar brufens, quilowatts vintage e a tomar banho todos os dias como se não houvesse amanhã!
Já as despesas dos turistas, das obras do PRR feitas a mata-cavalos e as de guerra – que, por vontade dos Abébios de serviço, se deveriam multiplicar por 10 – não provocam inflação nenhuma porque são devidamente abençoadas pelos Sagrados Abébios.
Não tem nada de novo, é o liberalismo. Rendimento garantido para o capital é sempre bom, rendimento para quem cria trabalho é sempre mau. O que muda é a roupagem.
Mas sim, estamos numa fase especialmente ridícula, na qual se corta salários reais e se permite a especulação, ao mesmo tempo que se dá apoios para lidar com um problema temporário de oferta, mas com o objectivo de que não deixe de haver consumo para que não haja uma crise grave; tudo graças à magia das expectativas sobre a seriedade do controlo do preço do dinheiro futuro.
E sem se rirem ou questionarem a sanidade mental.
Não faz mal, o consenso está bem assim, nem que tenha que integrar mais umas quantas Melonis no sistema. O que são mais uns? Nunca deu para o torto e não.