Quando a esmola é grande, o trabalhador desconfia

Imagem retirada de: distribuicaohoje.com

No última dia sete deste mês, a MC, empresa que agrega o grupo Sonae, dona do Continente, Meu Super ou Go Natural, comunicou a intenção de atribuir mais 500€ ao salário de 36 mil trabalhadores, num investimento a rondar os 15 milhões de euros. Aquilo que parecia ser um apoio extraordinário para mitigar os efeitos da inflação na carteira dos trabalhadores, afinal não o é.

Em declarações ao site NiT no passado dia 9 de Dezembro, fonte da empresa MC afirmou que este apoio suplementar, no princípio apresentado como uma ajuda para “mitigar os impactos sentidos no custo de vida, proporcionando um Natal melhor para todos”, vai chegar aos trabalhadores do grupo Sonae… através de um cartão criado especialmente para o efeito e que obrigará os trabalhadores a… gastarem o apoio de 500€ no Continente (Continente, Continente Modelo e Continente Bom Dia, Continente Online, Bagga e supermercados Go Natural).

Significa, portanto, que o apoio suplementar não é um apoio… é um empréstimo. Os mais de 15 milhões investidos pela Sonae nesta medida vão retornar… à Sonae. Tirem o cavalo deste temporal os trabalhadores que achavam que iriam poder pagar a conta da luz, da água ou explicações escolares aos filhos, por exemplo. 

Lembram-se daquela ideia mirabolante, que nem um José Está Lindo Pino Ché pós-moderno teria, do líder da extrema-direita portuguesa, André Ventura, aquando da atribuição de 125€ por parte do Estado? Essa do “nada de gastar em putas e vinho verde”? É basicamente o mesmo que a Sonae está a impor aos seus trabalhadores… só que estes, não podendo gastar em putas, podem sempre comprar vinho verde… se for no Continente.

Quando a esmola é grande, o trabalhador deve sempre desconfiar. E quem dá e volta a tirar… 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Ou muito me engano ou a estratégia parece-me óbvia.
    O governo anunciou que vai aplicar uma sobretaxa sobre os lucros excessivos de várias empresas, entre elas as grandes superfícies. A facturação é o que é. Os números estão lá, mesmo com todas as manigâncias, e a não ser que haja uma operação de engenharia financeira, evitar essa sobretaxa seria muito difícil.
    Não sei se há alguma vontade séria do governo taxar estes lucros excessivos, pessoalmente tenho muitas reservas, mas admito que os empresários do sector não queiram ficar reféns dos ziguezagues do governo e do ministro das finanças. Vai daí, acautelaram-se, e aproveitaram parte desses lucros excessivos para os distribuir pelos trabalhadores da empresa, numa atitude de aparente generosidade, cuja intenção na prática é transferirem para o próximo ano económico os reflexos desses lucros excessivos.
    Assim estes trabalhadores receberão na prática um “vale financeiro” como forma de mitigação desses lucros excessivos, como se fosse um repartição dos lucros, para o resgatarem à posteriori nas lojas do grupo, que irá facturar de novo.
    Digam lá se Portugal não tem gente capaz?

    • POIS! says:

      O “Público” de ontem traz um bom artigo sobre os favores fiscais feitos aos fundos imobiliários, com o intuito de os atrair, com as consequências que sabemos: especulação desenfreada, gentrificação acelerada, construção desregrada (rima, e é verdade…). E mesmo a única vantagem que, teoricamente existiria, a de aumentar as receitas fiscais , já que as casas, por natureza, não são deslocalizáveis, não se verifica. Porquê? Porque há truques que o evitam.

      Um exemplo desses mecanismos, muito utilizado por aqueles fundos, tipo Apollo, que compram cidades inteiras a esmo, é o de simular empréstimos de uma empresa financeira do grupo, sediada nos Luxemburgos, ou Países Muito Baixos, ou Ilhotas da Mancha, etc. às empresas imobiliárias do mesmo fundo, a juros muito acima dos do mercado. Ao saldarem tais “empréstimos” assim se transferem os lucros dessas imobiliárias para as ditas financeiras, tudo do mesmo grupo ou parceiros. Não me espantaria que grande parte dos tais “lucros excessivos” das distribuidoras desapareçam em esquemas semelhantes.

      Quanto a este apoio, este seria ilegal se se tratasse do pagamento de salários. Mas não: é apresentado como uma “liberalidade”, por isso escapa à legislação a esse nível. Já não estou certo se escapará à tributação em IRS e ao pagamento das contribuições sociais. Não devia, mas desconfio…

      Porque pode ser que…se lhe venha a aplicar algum regime parecido com o que existe para o subsídio de refeição: não é tributado até ao limite do da função pública (5,20 €), elevando-se para 8,32 €…se for pago em cartão ou “vales de refeição”! Qual a razão de tal norma senão a de favorecer as ditas grandes distribuidoras? Não vislumbro mais nenhuma!

      Mas olhem que os trabalhadores abrangidos não se vão importar. Como ninguém deixa de ter de gastar dinheiro em comida, isso liberta outros fundos para pagar outras coisas. Uma familiar minha trabalhava num “call-center” privado, embora ao serviço de uma entidade pública, e foi-lhes perguntado se não aceitavam receber em cartão o subsídio de refeição, que seria aumentado em 60%, em vez de aumentos de ordenado de dois ou três por cento. Eram mais 60 e tal euros por mês, em cartão, mas não tributado. Aceitaram logo!

      • Rui Naldinho says:

        O poder não cai nestas artimanhas, por ignorância. O governo gosta de ser enganado, alimentando estes esquema ardilosos com legislação permissiva, para se poder desculpar perante a opinião pública de que isto nunca este no seu subconsciente. Qye agiu de boa fé. O que é falso.
        Estes deputados, que dizem não ser profissionais da política, vão ali uma legislatura, duas no máximo, para levarem os seus desígnios avante. Depois saem e uns anos mais tarde estão ligados por via directa ou indirecta, eles ou os filhos, às actividades para os quais legislaram.
        Eu dou um bom exemplo.
        O que é até andou a fazer Eduardo Catroga durante mais de sete anos na EDP, já com uma idade generosa, na altura com 67 anos, hoje tem perto de oitenta anos?
        Será que num país com tanto gestor e economista doutorado, com especializações e pós graduações no “cu de judas”, de Berkley a Harvard, de Cambridge a Oxford, era mesmo necessário ir buscar Catroga para fazer as contas ou planear a fiscalidade na EDP? Já nem falo dia outros.
        Claro que era. Catroga é muito mais do que um economista. É acima de tudo um lobista de renome, nos meandros da política e dos agentes económicos. Ora isso vale muito mais do que uma academia inteira.

        • Rui Naldinho says:

          … que isto nunca esteve no seu subconsciente. Que agiu de boa fé…

          • Anonimo says:

            Engraçado como em algumas situações estes jogos se denominem “lobbying” e noutros seja corrupção

  2. JgMenos says:

    Horrível, até para trocar de telemóvel vão ter que levar os vizinhos às compras!
    Não se faz!

    • POIS! says:

      Ora pois!

      E isto será notícia? Notícia seria “até para trocar de vizinhos vão ter de levar o telemóvel ás compras”.

      Mas tenha cuidado! porque, segundo me consta, um vizinho seu irá bater-lhe à porta amanhã, pelas sete da manhã. O telemóvel dele pifou, tem uma gaveta cheia de cartões de refeição, que não sabe como usar porque o médico lhe prescreveu dieta rigorosa!

      Pelo que vai ter de levar Vosselência às compras. Não pode recusar! Só uma pista: o homem é caçador e está desesperado!

  3. Júlio Santos says:

    Também se poderá dizer “que o ser humano é pobre e mal agradecido”. Então o trabalhador, por via do aumento de 500,00€, não os vai poder utilizar para pagar as faturas da água e da luz? Obviamente que sim porque vai-lhe sempre entrar dinheiro a mais no bolso e se a empresa os obriga a reinvestir o dinheiro na empresa, qual o mal? Não estou a ver que algum trabalhador vá abdicar dessa benesse, por esse motivo. Há comentários que não teem qualquer sentido, apenas se faz, para se fazer notado.

  4. Anonimo says:

    Gosto desse conceito de empréstimo.

  5. Joana Quelhas says:

    As vezes fico na dúvida se a mentalidade comuna é apenas um problema de hiperactividade da insula para ACC ou é mesmo um problema puramente cognitivo.

    Este mamarracho racional não percebe simplesmente que se a empresa pagar 500 € aos funcionários em euros, o Fisco Insaciável absorve X euros, logo o que os funcionários recebem será (500-X).
    Depois , os funcionários teriam de pagar Y imposto ao Fisco Insaciável, ou seja receberiam :
    (500 – X)-Y.
    Este mamarracho intelectual não consegue entender que os funcionários do Continente são também clientes do Continente.
    Como pessoas que são , também comem, bebem, lêem vestem-se etc .
    Logo ao descontarem o valor nessas compras podem usar o dinheiro do salário para adquirirem outros bens.
    Se o Continente pagasse em dinheiro os mais prejudicados seriam os trabalhadores do Continente, mas isso pouco importa para os Maios, o que importa é a ideologia.
    O que importa aqui é que, segundo este iluminado se o Continente sai a ganhar quando os seus funcionários também, logo será preferível que os funcionários ganhem menos desde que o Continente perca.

    Não tenho a menor duvido da escolha do Maio entre “capitalismo e melhores condições de vida” e “Socialismo e miséria”.

    É por isso que esta mentalidade é a mais eficiente maquina de fazer pobres alguma vez inventada.

    Os trabalhadores regozijam-se pelo facto dos comunas não estarem no Poder.

    Joana Quelhas

    • POIS! says:

      Pois sim, ó Quwelllasss (1):

      Vosselência acaba de produzir mais uma revolucionária teoria social-liberalesca: vamos acabar com os salários e transformar tudo em prémios, subsídios e outras esmolas!

      Vamos voltar aos gloriosos tempos em que os operários tinham de gastar o salário quase todo mas “cantinas” da empresa! Vamos voltar ao trabalho pago em géneros, cuja quantidade seria calculada olhando às caras e aos servicinhos extra que estivessem dispostos a suportar!.

      Assim, os trabalhadores levariam para casa no fim do mês, em vez do arreliante dinheiro, arreliantemente depositado numa conta bancária que, tristemente, se vai esvaziando durante os seguintes 30 dias, resplandecentes cabazes (só com produtos saudáveis! nada de vinho e outras desgraças!) com duas grandes vantagens: seria Natal todo o ano e o trabalhador poderia, diariamente contemplar a sua riqueza, em vez de se deprimir a conferir a multidão de débitos diretos que se vão sucedendo ao longo do mês.

      E, para a coisa dos impostos, também há solução! No início da revolução no Irão, um grande pensador liberalesco conhecido por Aiatóla (3) Ruollah Khomeini que chegou a lançar a ideia de que os impostos deveriam ser abolidos e substituídos pela esmola. Tem Vosselência grandes predecessores. Vá em frente! Até ao fundo! Força!

      (1) Como vê, sigo a máxima do Alencar (2), seja ele quem for, aqui trazida por Vosselência, seja Vosselência quem for: “não se mencione o…Vosselência”.

      (2) Era melhor, para Vosselência, que não se soubesse quem era. Mas ainda ontem o vi: estava na tasca a acabar de comer umas ameijoas à Bulhão Pato. E logo me disse: “não se mencione a…Qu..(ufff!), ou seja, Vosselência!!”.

      (3) Significa “Ó pá, tem cuidado com a cabeça”, uma carinhosa expressão iraniana. Era por isso que o dito usava aquele turbante.

    • francis says:

      Joana Quelhas, completamente de acordo consigo. Os trabalhadores gastam os 500 eur em compras no Continente e já lhes sobra esse mesmo montante para pagarem, a luz e o gás etc. E é obvio que nenhum gestor gostaria de dar 500 paus ao trabalhador e vê-lo a gastar isso na empresa concorrente. Portanto, o Continente ( eu até nem gosto daquela gentalha exploradora da famelga do bem e tardiamente ido Belmiro) está de parabens.

    • Paulo Marques says:

      Percebe-se, afinal, o mercado livre e a concorrência são só propaganda para não aplicar.

  6. Quelhass! says:

    “Os trabalhadores regozijam-se pelo facto dos comunas não estarem no Poder”
    Foda-se! Mas afinal este governo socialista não era uma merda?
    Ou é bom à terça e amanhã já será de novo uma merda?

    • Joana Quelhas says:

      Com o PCP , BE , PAN e Livre seria muito pior.
      Com o PCP, BE , PAN e Livre seria implantado o Totalitarismo.
      Nem eleições seria mais preciso com o “Centralismo Democrático” como queria Cunhal.
      O PS vai acreditando como todos os sociais democratas que é possível um “socialismo democrático” .

      Joana Quelhas

      • POIS! says:

        Pois tá bem, ó Qwellllhasss(1)

        Além do Alencar, seja ele quem for (2), vosselência demonstra ser uma grande especialista no pensamento de Cunhal. O que só pode ser um saber de experiência feito!

        Sim, porque essa de Cunhal querer para Portugal o “Centralismo Democrático”, deve ser produto de uma confidência pessoal a Vosselência, o que não admira porque frequentavam o mesmo salão de cabeleireiro.

        O que é que falta, então? Transformar tudo em premissas e tirar conclusões (3):

        (Premissa Maiorzinha): Cunhal queria o “Centralismo Democrático” para Portugal.

        (Premissa Mais Pequenina) : O PCP, o BE, o PAN e o Livre querem implantar o Totalitarismo.

        Conclusão: Este ano, os melros comeram as cerejas todas no Fundão.

        (1) Como vê, sigo a máxima do Alencar , seja ele quem for (2), aqui trazida por Vosselência, seja Vosselência quem for: “não se mencione o…Vosselência”.

        (2) Era melhor, para Vosselência, que não se soubesse quem era. Mas ainda ontem o vi: estava na tasca a acabar de comer umas ameijoas à Bulhão Pato. E logo me disse: “não se mencione o…Qu..(ufff!), ou seja, Vosselência!!”.

        (3) Como é que Vosselencia se esqueceu de uma coisa destas? Francamente

    • POIS! says:

      A Qwelllhass já o esclareceu cabalmente:

      O PS é uma merda, mas uma merda tragável…

      O que livra a Quwelllhasss de alguma insegurança alimentar,,,

  7. Luís Lavoura says:

    Disparate de post. A cor do dinheiro é sempre a mesma: o dinheiro que o trabalhador poupa ao fazer as compras de casa no Continente, pode depois gastá-lo a pagar as contas da luz ou da escola dos filhos. Dinheiro é sempre dinheiro, quer tenha que ser gastado no Continente quer não tenha.

    • João L Maio says:

      Pimenta no cu dos outros é refresco.

    • Paulo Marques says:

      Vindo da mesma gente que nos garante que juros não são dinheiro; tá bem, tá.

  8. Paulo Marques says:

    You load sixteen tons, what do you get?
    Another day older and deeper in debt
    Saint Peter, don’t you call me ‘cause I can’t go
    I owe my soul to the company store

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