Passos Coelho e os que comem criancinhas

No tempo do salazarismo, havia um faduncho anticomunista que servia para alimentar o medo do papão leninista-estalinista-siberiano. Incluía, o dito faduncho, versos como “Maldita seja a Rússia soviética!” e “Malditos os que comem criancinhas!”. Quando se pensava que já não seria possível reencontrar um discurso tão primário, eis que Passos Coelho reaparece para reavivar fantasmas em que ele próprio não acredita, mas que lhe dão jeito para a campanha em que se integra, juntamente com outros intelectuais do mesmo calibre, como Paulo Otero ou João César das Neves, alguns dos autores que integram a colectânea “Identidade e Família”.

Descaindo os cantos da boca, de modo a imitar uma gravitas de estadista, Passos Coelho disse que há uma «sovietização do ensino».

Um dos mitos alimentados pela direita tola

(ou pela direita que fala para tolos)

é o de que a Escola Pública é uma verdadeira madraça dominada por comunistas e outros parentes desgraçadamente próximos que andam a catequizar as pobres criancinhas, que, a não serem comidas ao pequeno-almoço, hão-de transformar-se, por força da doutrinação, em futuros comedores de criancinhas, em consumidores de drogas pesadas, médias, leves e pesos-pluma e em heterossexuais convertidos em quaisquer outros sexuais que tentarão obrigar toda a população a mudar a orientação sexual.

A acreditar em Passos Coelho

(a propósito de acreditar em Passos Coelho, convém relembrar),

os professores portugueses andaram a receber instruções para encher a cabeça dos alunos de ideias satanicamente esquerdistas. Temos, então, de imaginar que, de acordo com a cabecinha de Passos, os professores constituem um conjunto homogéneo de pessoas

  1. acéfalas: que obedeceriam a qualquer instrução ministerial;
  2. de esquerda: haveria um ou outro professor de direita, mas viveriam, na melhor das hipóteses, aterrorizados com as brigadas vermelhas de docentes que vigiam as escolas, de kalashnikov em punho, a fim de manter o comunismo em boa ordem;
  3. sem ética: porque se achariam no direito de usar as aulas para deixar de ensinar as matérias, com comícios em cada sala de aula e com as turmas transformadas em células de pequenos soviéticos, com o caderno diário a ser substituído pelo kit pedagógico da foice e do martelo.

No mundo fantástico da cabeça de Passos Coelho, os alunos serão, ainda, seres amorfos que se limitam a obedecer cegamente às ordens dos professores. Os alunos seriam gente, toda ela, sem cabeça e sem espírito crítico, incapazes de não cumprir uma única tarefa que lhes seja imposta pelos canibais infanticidas que se disfarçam de professores.

As próprias famílias, acuadas nas suas casas, viveriam petrificadas, impossibilitadas de criticar os professores, porque, vivendo em residências sovietizadas, estão a ser permanentemente escutadas, enquanto, lá fora, as tropas rubras dos professores batem as ruas, de noite e de dia, enquanto sovietizam os passeios, as ruas, as janelas e os postes de iluminação pública.

Como explica, ainda, o Rui Correia, até a tia – talvez de Passos Coelho – é soviética, o que, a ser verdade, deve ser um desgosto enorme para a família.

 

Comments

  1. JgMenos says:

    Fica claro que o autor tem uma muito clara ideia da realidade a que o PPC se refere.
    Procura dar-lhe aquele dramatismo desonesto que leva a acrescer o exagero bastante para obscurecer o que é essa realização.
    Não pode atribuir-se-lhe o mérito da originalidade uma vez que um tal método tem mais de 50 anos de exercício continuado visando vilipendiar toda a História de Portugal, com particular empenho sobre o período do Estado Novo.
    Mais à frente, voltarei a explicar o que é um regime de sovietes…

    • António Fernando Nabais says:

      Grande menos, sempre cheio de coragem, a comentar numa caixa de comentários certamente sovietizada. Força, camarada menos.

    • Victor Salvador says:

      Olha o JgMenos também por aqui derramando as suas lágrimas de saudade sobre um passado triste para a maioria dos portugueses! A História é escrita com tinta indelével pelo que não vale a pena passares o teu sabão em factos passados numa tentativa vã de os apagar. O povo tem memória….eu na minha provecta idade não sou excepção…lembro os livros escolares na escola primária muito decorados com cenas patrióticas…os mapas pendurados mostrando a nossa grandeza no mundo… o quadro de ardósia que tinha por cima um crucifixo, no lado esquerdo um quadro com uma fotografia do Américo Tomaz e no lado direito uma moldura igual com o António de Oliveira Salazar…havia também para os menos estudiosos e mais irreverentes a “menina dos 5 olhos” que fazia os seus estragos nas manhãs de geada…nesse tempo não havia dinheiro para comprar luvas e as salas não tinham aquecimento…no ensino secundário também me lembro de ter de comprar uma farda e marchar todos os sábados cantando o hino da Mocidade Portuguesa…
      Era uma educação escolar assente numa política educativa de cariz autoritário e nacionalista afim de ensinar os jovens a serem disciplinados e acima de tudo aptos a defender o regime……Vai-te catar JgMenos!!!

      • JgMenos says:

        Pois não te aqueceram na escola!
        E disseram-te português e fizeram-te herdeiro de uma História Pátria!
        E davam-te uma palmatoada se não sabias a lição?
        E faziam-te marchar com uma farda que tinhas de pagar?
        Tens todas as condições pra te declarar vítima do fascismo e se não te derem uma pensão, no mínimo deve te dar assitência psicológica pós-traumática.
        Tadinho!

        • Victor Salvador says:

          Oh JgMenos …a pensão que recebo (a chamada reforma por velhice) e à qual tenho direito foi resultado de 52 anos de contribuições (minhas e das entidades patronais para as quais trabalhei) para a Segurança Social…só não descontei enquanto cumpri o serviço militar…Agora já reformado continuo a trabalhar e a descontar! Trabalhei de dia e estudei à noite…fiz 2 licenciaturas (pré-Bolonha) na área da engenharia…o que me estava destinado pelo pensamento dominante (que já entendi que tu defendes) é que seria como filho de artífice um bom artífice…Cresce a aparece JgMenos mesmo sabendo que com nada de útil à sociedade vás contribuir!

          • JgMenos says:

            Fizeste-te gente em tão terrífico ambiente repressivo?
            Nada de muito extraordinário, pois aconteceu com milhares de outros, educados para assumirem a responsabilidade de governarem vida.
            Tem o bom senso de não alimentares a onda da cultura de vitimização que é bandeira de uma esquerdalhada de idiotas.
            E quanto ao passado, como a todo o tempo, as circunstâncias o conformam; e saberás terem sido as tuas bem melhores do que as dos que te precederam.
            E o que sabes de mim é nada; e falas como quem já se esqueceu do que lhe ensinaram no passado e adotou as modas de hoje.

          • POIS! says:

            Pois tá bem ó vespa velutina!

            Lindo discurso!

            Depois de enfiar as patas todas na argola, eis que a Alta Sumidade Salazaresca experimenta, mais uma vez, a tática do assobio para canto.

            É pena que o silvo se oriente sempre para a “Marcha da Mocidade” seguida do “Angola é Nossa”. Mas temos de compreender. É um reportório de alta qualidade e muito injustiçado.

            Esta malta prefere o Harry Styles…

        • Tuga says:

          Repugnante Salazarento menor

          De facto a farda da “bufa”, vulgo Mocidade Portuguesa, uma organização que pretendia indotrinar as crianças no ideal fascista, até a saudação era igual era verde com o cinto com um grande S na fivela. Qual seria o significado do S ?
          Mas a tua farda na PIDE, de que cor era, ou não tinhas farda para passares
          despercebido ?

          • JgMenos says:

            Tuga, o grunho,
            O ‘S’ era de ‘Servir’ a Pátria, coisa de que já terás ouvido falar existir para alguns.

          • POIS! says:

            Pois tá bem, ó vespa!

            O “S” era de “servir”?? Eu ainda fui dos últimos que por lá andei – obrigado! – aos 10 anos e sempre me disseram que “diz-se que é servir mas na verdade é Oliveira da Cerejeira (acho que usavam outro nome, mas agora não me lembro).

            Estamos todos em pulgas para saber qual o “serviço” de Vosselência a essa tal “Pátria”, caso ainda se consiga lembrar, já que a mesma foi declarada como falecida há 50 anos por Altas Autoridades Salazarescas, embora até hoje nunca ter sido publicado o relatório da autópsia.

            Segundo o que “ouvimos falar”, o serviçinho de Vosselência ter-se-à centrado exclusivamente na oralidade.

            O que a Pátria agradeceu, visto que estava farta do que o Oliveira da Cerejeira lhe estava a fazer há dezenas de anos.

          • Tuga says:

            Repugnante Salazarento menor

            Obrigado pela resposta
            “Tuga, o grunho,
            O ‘S’ era de ‘Servir’ a Pátria, coisa de que já terás ouvido falar existir para alguns.”
            Mas está errado
            Esqueceste foi de dizeres de que cor era a tua farda na PIDE, porque eu há mais de 70 anos já tinha que andar de camisa verde, calçoões amarelos e cinto de couro com o ridículo S na fivela.
            Mas olha que tendo perguntado aos “chefes de Quina” e aos “comandantes de castelo” que eram os lambe botas dos graduados salazarentos que controlavam os miúdos de 10 e 11 anos, qual o significado do S eles não eram da tua opinião.
            Ate a saudação era completamente nazi

    • Não percebe o António, nem percebem ninguém, mas eles andam aí.

  2. Figueiredo says:

    Não existe nenhuma «…sovietização do ensino…» como refere o ex-Primeiro-Ministro, Pedro Coelho, mas sim, um liberalização da Escola Pública com o objectivo de a destruir, promover a mediocridade, degeneração, e gerar acéfalos.

    Se existisse a tal «…sovietização do ensino…» estaríamos bem melhor, ao menos ensinavam as coisas de um ponto de vista correcto:

    «…A origem da homossexualidade é ligada às circunstâncias sociais quotidianas, para a grande maioria das pessoas que se dedicam à homossexualidade, tais perversões se interrompem tão logo que a pessoa encontre em um ambiente social favorável…»

    Fonte: Grande Enciclopédia Soviética (1952)

    Associar a ideologia liberal do homossexualismo/pedofilia (também chamado de “lgbt+” ou “ideologia de género”), como sendo Soviético é ridículo, basta consultar – novamente – a Grande Enciclopédia Soviética (1952) e temos o seguinte:

    «…Na sociedade soviética, com os seus costumes sadios, a homossexualidade é visto como perversão sexual e é considerado vergonhoso e criminal.

    A legislação penal soviética considera a homossexualidade punível, com a excepção daqueles casos nos quais o mesmo seja manifestação de uma profunda desordem psíquica…»

    Resumindo, chamará «…sovietização…» ao que na verdade se chama de liberalismo/liberalização da Escola, e será feliz.

    Depois, como é que um indivíduo que forma Governo com um homossexualista/pedófilo assumido e sinalizado pelas Autoridades, aparece depois a defender a Família e a Identidade?

  3. Anonimo says:

    A americanizaçao da escola.
    Fomenta-se a competição desde o jardim escola, mas na hora de avaliar todos são vencedores.
    Zero autoridade dos professores.
    As universidades levam com gente cada vez pior (que por sua vez apanham professores que merecem), o futuro será à americana, pagar muito pelas Universidades com mais nome, não necessariamente as melhores, para sacar currículo.
    O wokismo está aí.

    • Figueiredo says:

      Chama-se a isso Liberalismo, onde as pessoas mais medíocres, estúpidas, embrutecidas, iletradas, ignorantes, menos capazes, sem mérito, e parolas, aparecem com o 12º ano, licenciatura, mestrado, ou doutoramento, sem perfil para as áreas em que se formaram nem para trabalhar nas mesmas.

      É uma consequência do assalto às Universidades Públicas por parte dos liberais/maçonaria após o golpe de Estado da OTAN em 25 de Abril de 1974.

      • JgMenos says:

        É assim mesmo Figueiredo!
        Essa treta das hormonas e dos cromossomas são invenções do capitalismo monopolista explorador para venderem drogas e tratamentos.
        Há é que enquadrar a manada em redis adequados, e se falha a socialização canónica – institucionaliza-se o anormal antes que infete o soviete!

        • Nem são invenções do capitalismo, nem este tem problema em vender que tem o espírito muito aberto, desde que nada mude.
          Agora rigidamente definido como isto ou aquilo raramente tem algo a ver com biologia.

    • Portanto, o wokismo é quando competição com regras nacionais? Cada vez percebo menos.

      • Anonimo says:

        eu também, mas em português perceber-se-ia melhor. Ou com emojis.

        • Pois, parece que era ao contrário. O fim do wokismo é quando orgulhosamente sós na educação, e só para gente que tenha mérito. Assim, de facto, percebo bem.

      • British says:

        What ??????

        • First, they came for the verb, and I did nothing because verbing weirds language. Then, they arrival for the noun, and I speech nothing because I no verbs.
          Mas quem nunca se enganou que atire a primeira pedra.
          (Vem o Cavaco e zás…)

  4. Luis Coelho says:

    FDP!

  5. Certo dia, um liberocas viu uns gajos do PCP a comer um arroz com umas coisas pelo meio. Perguntou-lhes o que estavam a comer e disseram-lhe “arroz de miúdos”. E assim nasceu o mito de que os comunistas comem criancinhas…

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