Auto do Rosalino

Personagens: Montenegro, Rosalino, Voz da Decência

Montenegro: Rosi, venho convidar-te para secretário-geral, porque é preciso organizar melhor as coisas da administração pública.

Rosalino: Ou seja, acabar com a administração pública, não é, Monte?

Montenegro: É por isso que eu sabia que eras o homem ideal para o cargo.

Rosalino: Pois, ó Monte, mas há um problema.

Montenegro: Os problemas resolvem-se, Rosi. Fala.

Rosalino: É que não posso passar a ganhar um terço do que ganhava.

Montenegro: Tens toda a razão. Isso de cortar salários é inadmissível!

(Riem-se ambos, a ponto de quase chorarem)

Montenegro (recuperando o fôlego com dificuldade): Vou ligar ao Centeno, ele continua a pagar-te e pronto.

(Montenegro pega no telemóvel, caminha um pouco e desliga irritado)

Montenegro: Este gajo veio-me lá com um paleio qualquer de regras ou o carago!

Rosalino: Monte, já te disse, assim não posso. Aquele dinheiro faz-me falta.

Montenegro: Rosi, não te preocupes, a malta arranja aqui uma leizita só para ti e ficas a ganhar o mesmo.

Rosalino: Pronto, assim, já fico.

(Ouve-se a notícia de que há partidos que querem fiscalizar a lei)

Rosalino: Olha, afinal, já não fico.

Montenegro: Nunca gostei do Centeno e agora também não gosto. Tenho pena, pá, porque não estou a ver mais ninguém para fazer cortes como tu fazes. Os teus cortes são os melhores que já vi.

Rosalino: Olha, não se perde tudo: continuo a ganhar o mesmo, que é o mais importante.

Montenegro: Olha lá uma coisa!

Rosalino: O que é?

Montenegro: Não era para entrar também a Voz da Decência nesta peça?

Rosalino: Pois era, mas não ouvi nada, Monte.

Montenegro: Pois, nem eu.

Rosalino: Deixa lá. Ficas a dever-me um almoço.

Comments

  1. Sem esquecer que os assessores do mesmo teriam salário indexado ao do dito cujo.

    • Asnonimo says:

      Os contractos são para se cumprir. Neste caso, queriam um contracto ao contrato, e na práctica isso so funciona com colaboradores de baixo nível.

  2. “I agree with your points, very insightful!”

  3. fmart@sapo.pt says:

    Muito bom!

  4. João Mendes says:

    Cai o pano.
    Aplauso de pé.

  5. JgMenos says:

    A cretinagem acomoda-se com os salários no Banco de Portugal, em que um administrador passa a consultor mas a ganhar o mesmo.
    O simples facto de o projecto diminuir o número de cargos para medíocres na função pública é que os incomoda sobremaneira.

    • POIS! says:

      Pois citando, Menos, mas citando…

      “A cretinagem acomoda-se com os salários no Banco de Portugal(…)”

      Há que reconhecer que JgMenos tem aqui mais um momento autocrítico que é de louvar!

      Realmente tem-se vindo a sentir um certo ar de acomodação da sua parte.

      • António Fernando Nabais says:

        Também reparei: o Menos anda muito acomodado.

    • POIS! says:

      Pois citando, Menos, mas citando…

      “o projecto diminuir o número de cargos para medíocres na função pública(…)”

      O quê? O Rosalino iria extinguir o seu próprio cargo? Que coragem! Que coerência! Assim é que é!

    • É, o primeiro cargo a reduzir era o que deixava vago, porque, na verdade, nada fazia. É isso?

  6. Era giro um jornalista, um que fosse (já não digo o dramaturgo), ir descobrir quem pagou aos técnicos das empresas e outras entidades públicas que estiveram destacados nos três Governos do Dr. António Costa. Dava logo outro sal à peça.

    • António Fernando Nabais says:

      Não sei se criticar Montenegro é o mesmo que elogiar Costa, mas um dia hei-de perceber.

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