Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril

Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril.

Todos os anos e, se possível, todos os dias.

Porque o 25 de Abril é libertação, é igualdade perante a lei, é a liberdade de dizer o que pensamos, de votarmos em quem quisermos – incluindo em partidos que se opõem aos valores de Abril, algo que a ditadura nunca teria permitido – e de lutarmos pelos ideais que nos guiam.

25 de Abril é Democracia.
É a paz, o pão, habitação, saúde e educação.
Para todos, todos, todos!

Sim, ainda há caminho a fazer para cumprir Abril. Mas não te deixes iludir pelo cherry picking dos saudosistas da ditadura, cuja estratégia assenta em explorar as debilidades da nossa democracia para te bombardear com a maior mentira dos últimos 52 anos: antigamente é que era bom.

Só que não era.

Antigamente éramos mais pobres.
Tínhamos mais fome.
Havia crianças descalças.
Havia uma nação de analfabetos.
Porque a educação era um privilégio.
A saúde não era para todos.
A habitação da maioria era miserável.
E a paz, como o respeito, só existiam como consequência do medo.

E não, não eram apenas a miséria e o medo que imperavam.

Era a violência.
A censura.
A tortura e a prisão política.
A guerra que triturava os miúdos do interior e poupava os filhos das elites do regime.

E sim, o Estado Novo era um regime profundamente corrupto.
Um regime de cunhas, de favores, de tachos e de negócios públicos entregues sempre aos mesmos. Os mais ricos entre os mais ricos. Muitas das mesmas famílias que hoje dominam a economia nacional e financiam a extrema-direita. Aqueles que comiam à mesa com Salazar e o seu regime, como o avô de Ricardo Salgado.

Os mesmos que participaram e abafaram o escândalo de orgias e pedofilia do Ballet Rose.

Antigamente só era bom para a cúpula do regime e para as elites que se deitavam com ele.

Para os restantes foi uma longa e sinistra noite de 48 anos, derrubada pelo “dia inicial, inteiro e limpo”.

É claro que foram cometidos excessos no pós-revolução. Como em todas as revoluções que derrubam ditaduras. Décadas de opressão geram sempre, sempre, acções de vingança. No mundo ideal dávamos as mãos, cantávamos Os Meninos de Huambo e ia cada um à sua vida. Mas o mundo não é nem nunca foi o ideal. E Portugal, no momento imediatamente após a revolução, teve os seus problemas. Não rolaram cabeças como em França, onde a guilhotina não teve descanso, não tivemos uma guerra civil, apesar de alguns guerrilheiros que por aí andaram, nem morreram mais de 1000 pessoas, como na Roménia, em 1989, quando o regime do tirano Ceaușescu caiu. Foi, estatisticamente, uma das revoluções mais tranquilas da história das revoluções.

Estes excessos, porém, estão agora a ser usados pelos inimigos do 25 de Abril, não apenas por razões ideológicas, mas como parte de um modelo de negócio rentável. O mesmo que, de forma predatória, instrumentaliza miúdos para odiar as mulheres e culpá-las das suas fragilidades. Mas o fim é sempre o mesmo, e todos os regimes contemporâneos de extrema-direita, da Rússia de Putin à América de Trump, tiveram sempre o mesmo resultado: corrupção, aumento das desigualdades, violência política, subtracção de direitos civis, guerras e morte.

Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril.

Não por razões litúrgicas, mas porque o 25 de Abril não foi no tempo da revolução francesa ou americana. Foi no nosso tempo. Mesmo daqueles que, como eu, nasceram 10 ou mais anos depois da revolução, e não são menos filhos dela por isso. É preciso celebrá-la e não deixar que a memória da revolução se perca, ou seja manipulada pelos Putins, Trumps e Orbáns que temos por cá.

Reguemos os cravos todos os dias.

Ainda somos, e continuaremos a ser, a maioria. Apesar das nossas diferenças, porque a democracia não é, nem deve ser homogénea. Mas todos cabem dentro dela. Mesmo aqueles que a odeiam e querem destruir. Sejamos mais fortes que eles. Muitos mil para continuar Abril.

25 de Abril, SEMPRE, fascismo nunca mais!

Comments

  1. Sempre fica por esclarecer se sendo « … claro que foram cometidos excessos no pós-revolução», quais foram, a quê ou a quem se deveram, se persistem e o que há fazer acerca dessa persistência.
    Seguramente persiste um estúpido maldizer sobre tudo que é passado.
    Seguramente fazem de todos os que participaram desse passado uma cambada que distribuem por três categorias: os bandidos; uma esmagadora maioria de tadinhos imbecilizados perante males horrorosos; e uma cambada de pretensos heróis que por boa parte são os cúmplices de tudo que foi exagero e se mantêm como zeladores da maledicência sobre um passado em que a maioria pouco ou nada fez de útil.

    E assim deriva desse culto da maledicência do passado, que basta este presente medíocre e sem rumo outro que não a mediocridade, como algo que é preciso celebrar entusiásticamente… e já lá vão mais de 50 anos de culto da mediocridade!!!

    • Tendo em conta a quantidade de fasços, oportunistas, rentistas, e traidores, passe a redundância, que por ainda andam a destruir a vida de quem trabalha, é uma boa pergunta que excessos foram esses.

    • POIS! says:

      Pois cá está! Citando, Menos, mas citando,

      “e já lá vão mais de 50 anos de culto da mediocridade!!!

      Até o salazaresco mais empdernido reconhece o progresso!

      Depois de 48 anos de culto da merda salazaresca, caetanesca, generalcarmonesca, marechalcraveiresca e almirantomazesca, passar-se ao da mediocridade já foi um grande salto!

      Avancemos!

  2. Whale project says:

    Descansa que a ditadura teria permitido o voto em partidos que são contra os valores de Abril pois que era contra. Mas percebo o que queres dizer, a ditadura nunca permitiria partidos divergentes.
    Por isso só havia um, submetido a referendos onde so votavam os chefes de família e as vezes ate os mortos votavam.
    Quando por desinteresse a afluência não era muita entravam os eleitores do cemitério.
    Por estes dias também aparecem os velhos fascistas a falar não sei de que excessos pois que nenhum dos torcionarios foi fuzilado ou apanhou a longa pena de prisão que merecia.
    Deve estar a falar dos latifundiários que tiveram a herdade expropriada porque quando lhes disseram que tinham de pagar salários a sério e fazer contratos de trabalho aos trabalhadores recusaram se a continuar a produzir.
    Eles poderiam aguentar dois ou três anos sem produzir com os peculios que tinham amealhado com a exploração desenfreada. Quem lá trabalhava e que não.
    Excessos houve quando os muito democratas que ganharam as eleições seguintes desapropriaram essas terras com a GNR a voltar a matar como sempre tinha feito durante a ditadura.
    Mas não conseguiram foi acabar com a nossa liberdade de votar em quem quiséssemos.
    Mas teem ido tentando e o Chega, abertamente contra Abril e saudoso de uma época de ouro que nunca existiu e um bom exemplo disso.
    Já agora, sabias, meu salazarento bafiento, que os cravos verdes que aqueles palhaços exibiram ontem eram um símbolo da comunidade gay na Inglaterra vitoriana?
    Foi o escritor irlandês Oscar Wilde, mais tarde acusado e preso por homossexualidade que iniciou a “moda”.
    Será que na realidade o teu fuhrer leva no pacote?
    Bem, contra isso nada, o cu e dele.
    Mas quanto a tudo o resto pode ir ver se o mar da um cardume de tubarões brancos cheios de larica.

  3. Whale project says:

    E não fosse a enguia do Mendes buscar o Putin. Deves estar a chamar Putin a quem não acha piada a que 90 mi milhões de euros do nosso dinheiro vão parar aos bolsos de Herr Zelensky.
    Olha eu não acho piada nenhuma até porque me lembro bem do tempo em que por menos dinheiro a troika nos pos a mingua, a nos e aos gregos.
    E estes teem recebido milhões, que ninguém fiscaliza, so a troco de matar e morrer e quem acha isso normal e chama de Putin ou putinista quem não acha pode também ir com o menos ver os tubarões brancos famintos.

    • A do Putin ter sustento num Partido Comunista e na Igreja Ortodoxa, combina o fundamento do ideário de um qualquer Projecto Baleia: basta abrir a boca para encher o bandulho e levar boa vida!

      • O mundo vai causar-te cada vez mais confusão.

      • POIS! says:

        Pois mas…

        O “sustentos” de Putin são o complexo militar, os oligarcas e o capitalismo desenfreado.

        Ou acha que se sustenta com os que de comunismo não tem nada e a padralhada para quem da palavra de Deus não resta nada?

        Por razões que não interessam nem me ia rebaixar a informar Vosselência, nas minhas funções tenho contactado esporadicamente com russos/as por cá radicados. O quadro do “sustento” de Putin é mais complexo do que as pinceladas simplórias de vossa salazaresca excelência. Internamente poucos o gramam. Já em matéris de política externa…há muito mais tolerãncia. Para não dizer conivência…

        Pare mas é Vosselência de meter no mesmo saco tudo o que abomina! À direita é só “rigor” e “precisão”. O Oliveira da Cerejeira não era fascista porque fascismo só em Itália nos anos 30 e tais. Mas comunismo é tudo o que cheire a esquerda!

  4. Montenegro, Moedas, Cotrim, e correligionários destes, correspondem a qual de Putin, Trump e Orban? Não podem ao menos copiar o desejo de um mínimo de soberania?

  5. Whale project says:

    E tu deves estar e cheio de saudades do tempo em que enchias o bandulho a custa de denunciares gente a malta com sede na Antônio Maria Cardoso.
    Continuas por isso com os tiques desse tempo a ver comunas em todo o lado.
    Mas hoje não há quem te pague as denúncias e por isso andas aqui a vomitar fel.
    Bons tempos aqueles em que denunciavas um por comunista so por o desgraçado dizer que a vida estava cara e tinhas um mês de vida ganha. Isso e que era encher o bandulho.

    • Pensa no futuro!
      Essa da PIDE e dos seus informadores está quase a ultrapassar o prazo de validade.
      Terás que reformular as baboseiras que te dizem o idiota que és.

      • POIS! says:

        Ora pois claro!

        Já não era sem tempo que Vosselência era posto na mesa dos saldos. Com uma etiqueta daquelas “aproximação do fim do prazo de validade”.

        Ao Menos pode ser que haja quem o compre. Não está fácil!

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