hoje não me apetece sentir

não me apetece sentir

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUVIR



Encontrou-a caída no chão exatamente no mesmo lugar onde, longe dali, ela percebeu que lhe faltava.

Também foi assim quando que se encontraram pela primeira vez. Sabendo tudo um do outro. Desconhecendo quem eram.

Por algum mistério conseguiam os dois ver a mesma coisa quando estavam longe um do outro. Como se habitassem o mesmo corpo. Como se fossem um só. O mais estranho é que isso só acontecia quando estavam em lugares diferentes, o dom desaparecia quando ficavam perto. Como não sabiam bem a que distância isso começava a acontecer, às vezes davam de caras um com o outro. Então paravam, a uma distância segura, fitavam-se numa espécie de cerimonial bailado, rodavam lentamente mantendo o diâmetro da distância entre eles. Um esboço de sorriso, às vezes nem isso, e seguiam. Uma vez, sem querer, tocaram-se. Foi aí que tudo mudou.

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Povo que ainda lavas no rio

Raras vezes vejo televisão e mais difícil ainda é sentar-me, muito atenta, a ouvir e a ver alguma notícia.
A SIC apresentou ontem uma reportagem intitulada  “A Espuma dos Dias”, mostrando que em Portugal ainda há povo que lava no rio ou no lavadouro público, em troca de escassos euros à medida do comprimento de tapetes e edredons.
Este país ainda existe. Gente que todos os dias luta para sobreviver. Conhecemos a Maria do Céu (77 anos), a Olívia (89 anos), a Lurdes (62 anos que disse que a vida tem mais coisas más que boas…e que a gente não quer riquezas) e outras mulheres que metem mãos e pés na àgua fria, faça frio ou calor. Uma delas disse que adorava lavar no rio (a roupa ficava melhor),  mas que dava cabo dela… Vimos que lavam em pedras talvez centenárias, que ainda se encontram colocadas no meio da corrente.
Elas são de Ovar (Ribeira das Luzes), Vila Franca de Xira, Lisboa e outros lugares onde a SIC não esteve.
Mesmo na minha vila (concelho de Santa Maria da Feira) eu encontro mulheres que lavam, não no rio onde pensei que já não o fizessem em lado nenhum, mas no lavadouro público, há pouco tempo melhorado.
Num tempo em que, não obstante quase todos temos máquina de lavar a roupa, não estranha que se continue a lavar no lavadouro ou no rio: até “o sabão está caro”.
Esperemos que estas sejam as últimas mulheres a fazê-lo…
Povo que lavas no rio, o fado cantado por Amália Rodrigues com letra de Pedro Homem de Mello e música de Joaquim Campos:
Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
(…)

O nosso fado: a sobrevivência.