Finalmente, percebi o Fado

fa·do
(latim fatum, -i, oráculo, previsão, profecia)
substantivo masculino
1. Força superior que se crê controlar todos os acontecimentos. = DESTINO, ESTRELA, FADÁRIO, FORTUNA, SORTE
2. Aquilo que tem de acontecer, independentemente da vontade humana. = PROFECIA, VATICÍNIO

[Dicionário Priberam da Língua Portuguesa]

Já agora, qual é o filme e quem são os actores?

Fado, Futebol e Fátima – ao fim de 43 anos, nada mudou!

Enfim

Fala-se tanto na defesa da língua portuguesa como sendo uma das dez mais faladas em todo o mundo, na importância de valorizar a CPLP, na alma lusa, em Camões e Pessoa, usam-se cachecóis com as cores nacionais, canta-se o hino, grita-se “Portugal” e apregoa-se o fado e a saudade.

Mas, no fim de contas, lá temos o Primeiro-ministro português a falar em castelhano numa entrevista a um jornal espanhol.

Não fosse ser tão triste, seria de rir.

O legado cavaquista

Um dos principais sintomas da nossa degenerescência como país é o quase monopólio que a economia e as finanças detêm na discussão pública e na reflexão de que se faz eco sobre o nosso presente e o nosso futuro.

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Fernando Alvim, 1934-2015

O viola que foi de Carlos Paredes, um ribatejano e um beirão, deixou-nos.

Ofereceram-nos tudo o que de umas cordas para cima cheira e sabe a belo.

No dia em que os capitalenses se calarem com a peta do fado ser só deles, mantendo a lenda salazareira e de sua besta férrea, teremos entre outras coisas ensinado à UNESCO que leva banhadas. O Fado  é nosso, do Tejo para cima, ponto final, parágrafo.

Fiquem com a homenagem no sítio óbvio, Coimbra, Santa Cruz.

Olha o fado

Quem chega cedo à taberna (ó bela palavra que agora só me apareces com o penduricalho “gourmet”) ainda apanha os fadistas na esplanada, mesmo em frente ao rio. E é fácil reconhecer a mesa da fadistagem. Há os bazofeiros, que peroram sobre o fado, porque eles sabem o que é o fado, e como é que se canta o fado, e onde é que se aprende a cantar o fado, e já precisam dos dedos das duas mãos para contar as cenas de pancadaria que viveram por causa de um fado menor. Há os melancólicos, que não dizem nada e bordam com o dedo no tampo da mesa as palavras que mais os ferem. Há as jovens promessas, que ouvem em silêncio os mais antigos, umas deslumbradas, outras reticentes, e percebe-se logo, só pelo jeito, qual das novas estrelas do fado têm por modelo.

E há os que já não cantam, ficou-lhes um fio de voz, mas acompanham com o corpo, com um jeito de ombros, um suspiro. Foge-lhes o fado do corpo, e é como se lhes fosse o sopro da vida, uma coisa triste de ver, e por isso os cuidam tanto os actuais fadistas, achegam logo uma cadeira para eles, e procuram não deixar que a velhice os roube demasiado depressa.

– Ó Costa, iogurte?! Vais lanchar um iogurte?! Tu assim estragas-te, pá. Come uma isquinha, bebe um copo.

Que é como quem diz, não te entregues já. [Read more…]

Canções de uma mesma chama de secreta gravidade [Textos sobre música portuguesa V]

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«Um dia vou abrir o frigorífico e vai estar vazio», pensou certo dia Mísia quando, sozinha e angustiada em casa, pensava na crise e no seu futuro. «O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou comer?», interrogou-se a cantora melodramaticamente à boa maneira portuguesa: sempre com a fome no pensamento. Assim nasceu o menu de canções que constitui o seu último trabalho, Delikatessen Café Concerto (2013), um jantar musical cozinhado com as suas melhores canções, e um punhado jeitoso de convidados à altura de tão finas iguarias: Iggy Pop, Adriana Calcanhotto, The Legendary Tigerman, Dead Combo, Ramón Vargas e Melech Mechaya. Para eles, e com eles, Mísia serviu canções portuguesas, francesas, boleros e tangos, afastando-se um pouco do seu caminho de fadista, embora não completamente, pois tudo o que canta se transforma de certa maneira em fados.

No final de 2011, Mísia editou Senhora da Noite, uma senhora que esconde treze outras senhoras: trata-se de um conjunto de treze temas, escritos por outras tantas autoras, de Amália a Aldina Duarte, passando por Florbela Espanca, Natália Correia, Lídia Jorge, Hélia Correia, Rosa Lobato de Faria, Amélia Muge, Adriana Calcanhotto ou a própria Mísia, num disco que celebrou o génio criativo feminino e constituiu um regresso ao Fado mais tradicional – tanto quanto a tradição pode casar-se com a modernidade do estilo de Mísia. [Read more…]

Outro Fado [Textos sobre música portuguesa III]

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© Clément Darrasse

Quando A Naifa surgiu, ninguém sabia muito bem como classificá-la, onde arrumá-la, se no faqueiro da avó, se no do Ikea, ou se noutro ainda. Quais seriam ao certo as virtualidades com significado para a música pátria d’A Naifa? E digo (escrevo) isto mapesar do Fado, que claramente habitava (e habita) a sua música, que era (e é) o seu chão, e das sonoridades tradicionais da terra portuguesa. Talvez por isso, e porque «trip-fado» definisse insuficientemente o género singular a que se dedicavam os músicos d’A Naifa, alguns preferiram cortar a eito e chamar-lhes «pós-modernos» – designação contudo também ela um bocado opaca, que apenas informava estarem eles «um bocado à frente», representando correntes ainda por deslindar em toda a sua extensão e significados. [Read more…]

La mer

Imaginemos que eu vos dizia que a polícia me tinha parado quando conduzia na marginal, e que era suposto que a polícia o fizesse porque eu levava o carro aos esses, não pela razão mais óbvia, mas porque ia a chorar tanto que já não via bem a linha, e de cada vez que limpava as lágrimas com as costas da mão aproximava mais o carro da outra faixa, e a marginal, aquela marginal, talvez a conheçam, é de dois sentidos.

Ah, não sejam assim, quem nunca meteu um fado a tocar no rádio para puxar a lágrima, quem diz um fado diz aquela canção, que atire a primeira pedra.

Bem, a polícia apareceu de repente, estava um carro-patrulha parado na bomba de gasolina, e quando eu passo, liga as luzes e vem atrás de mim, e eu chego-me mais para o passeio para que me ultrapasse, e ele não ultrapassa, penso que quem conduz deve ser um grande nabo, e é então que me ocorre, com mil demónios, estão atrás de ti! [Read more…]

500.º Aniversário do Bairro Alto

Não visitava o Bairro Alto há anos. Hoje, Sábado, em digressão acidental pelo Chiado e zonas envolventes, fui parar à Travessa da Queimada – fiquem descansados os anti benfiquistas, desta ou daquela cor, que a sede de “A Bola” não fazia, nem fez, parte do roteiro.

Em boa verdade, esse roteiro informal não fora pré-definido por caminhos ou destino. Desemboquei na Travessa da Queimada involuntariamente.

Deparei-me com uma estreita mesa, de cinquenta metros de comprimento, com fatias de bolo-rei. Ao fundo, e com instalação sonora adequada, pude ver e ouvir uma sessão de fados. A minha a alma de lisboeta – alfacinha de gema – ficou arrebatada de euforia.

Estes eventos da cidade, erguidos do desterro, do esquecimento e até de temas historicamente desprezados pela comunidade citadina, transformam-se em felicidade do estado de alma.  [Read more…]

Povo que ainda lavas no rio

Raras vezes vejo televisão e mais difícil ainda é sentar-me, muito atenta, a ouvir e a ver alguma notícia.
A SIC apresentou ontem uma reportagem intitulada  “A Espuma dos Dias”, mostrando que em Portugal ainda há povo que lava no rio ou no lavadouro público, em troca de escassos euros à medida do comprimento de tapetes e edredons.
Este país ainda existe. Gente que todos os dias luta para sobreviver. Conhecemos a Maria do Céu (77 anos), a Olívia (89 anos), a Lurdes (62 anos que disse que a vida tem mais coisas más que boas…e que a gente não quer riquezas) e outras mulheres que metem mãos e pés na àgua fria, faça frio ou calor. Uma delas disse que adorava lavar no rio (a roupa ficava melhor),  mas que dava cabo dela… Vimos que lavam em pedras talvez centenárias, que ainda se encontram colocadas no meio da corrente.
Elas são de Ovar (Ribeira das Luzes), Vila Franca de Xira, Lisboa e outros lugares onde a SIC não esteve.
Mesmo na minha vila (concelho de Santa Maria da Feira) eu encontro mulheres que lavam, não no rio onde pensei que já não o fizessem em lado nenhum, mas no lavadouro público, há pouco tempo melhorado.
Num tempo em que, não obstante quase todos temos máquina de lavar a roupa, não estranha que se continue a lavar no lavadouro ou no rio: até “o sabão está caro”.
Esperemos que estas sejam as últimas mulheres a fazê-lo…
Povo que lavas no rio, o fado cantado por Amália Rodrigues com letra de Pedro Homem de Mello e música de Joaquim Campos:
Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
(…)

O nosso fado: a sobrevivência.

Triste fado este!

Rejubilou recentemente a alma da Pátria. O Fado foi considerado património imaterial da humanidade. Ressuscitou Amália Rodrigues em infindáveis momentos televisivos de fervor patriótico. Voltámos a “dar de beber à dor”! Portugal ressurgiu de novo, patrioteiramente, numa hiperbólica liturgia colectiva, só entendível dentro de uma perspectiva secular e mítica da “maneira de ser português”, que se desejaria definitivamente abolida. Devo repetir uma vez mais o que já, por diversas vezes, tenho dito e escrito – gosto muito de fado, mas não gosto do Fado. Entendamo-nos. Gosto de ouvir fado, sobretudo quando cantado por mulheres. Mas não gosto do Fado enquanto símbolo mítico da Pátria, porque dá voz a um Portugal salazarento, pobre, pequenino, resignado, vencido. Não gosto do Fado enquanto mitificação de uma tristeza congénita, de um luto mental, em viagem permanente num “barco negro” existencial de um povo que, desgraçadamente, continua a viver um momento histórico de resignação, de subserviência, de conformismo fatalista, tradutor de um estado de alma tão passivo quão deprimente. Por isso, a atribuição ao Fado de património da humanidade não me aquece nem me arrefece. Não passa de um fait-divers, de uma patetice como outra qualquer. Mas continuo a gostar de fado. Muito. [Read more…]

O Fado bom e o fado mal fadado

O fado foi reconhecido património imaterial da humanidade pela UNESCO. É bom mas, se fizerem o mesmo em todos os países como por cá fazem os tugas, não adianta grande coisa.

O pessoal embandeira em arco, impa-se, acha-se o centro do universo, orgulha-se de ser um povo admirado pela restante humanidade e ignora que o mundo está cheínho de património imaterial igualmente respeitável (ver lista incompleta e não actualizada), para não referir que a candidatura mais enaltecida pelo comité foi o saber tradicional dos xamãs jaguares do Yuruparí, na Amazónia colombiana (claro que todos sabem isso, está bem de ver, e vão começar a falar respeitosa e elogiosamente, dia sim, dia não, do Yuruparí), que a música mariachi mexicana, a peregrinação ao santuário inca Qoyllurit’i, no Peru, um ritual agrícola de replantio de arroz realizado em Hiroshima, no Japão, uma procissão de cavaleiros realizada na República Checa e um teatro de sombras tradicional chinês entraram na mesma lista de que o fado agora faz parte.

Mas estamos fadados para isto: nos dias de festa ignoramos os outros e achamos que somos os maiores, nos outros dias maldizemos a vidinha, o paísinho que temos e o nosso triste fado.

PS: Outra boa notícia é a reabertura do Hot Club a 21 de Dezembro, com três dias de espectáculos grátis. É aproveitar agora e dar lá um saltinho, que ainda não pagam o novo IVA (aumentado) para a cultura.

Fado de Lisboa, património da humanidade

Gosto de alguns fados, como gosto de alguns tangos, de algumas valsas, de alguns minuetos, de algumas sinfonias e de várias músicas de géneros diversos. Não gostarei menos ou mais de fado de Lisboa como um todo só porque a UNESCO deu uma medalha a uma comissão e que, como ontem frisou Rui Vieira Nery, presidente da comissão científica da candidatura, apenas representou o fado de Lisboa porque «o fado de Coimbra tem uma dignidade própria». Mas, dignidades à parte, assim o leio, há o fado – o de Lisboa, naturalmente – e o fado de Coimbra. Para concluir em grande quanto a bairrismos, aqui ficam as variações do coimbrão Artur Paredes, tocadas pelo filho Carlos Paredes.

O fado é chato, maçador, aborrecido

Dá sono. «Ó musiquinha sonolenta», como vi escrito por aí num site brasileiro.
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Quatro canções da República

Fado do Zé Povo – por Carlos Santos, cerca de 1912. Uma cantiga muito actual, ao serviço de qualquer república.

Canção Popular Republicana – por Isabel Costa e Duarte Silva, cerca de 1919, apelando à mobilização contra a Monarquia do Norte.

Fado do 31 – de Pereira Coelho e Alves Coelho, cantado por Maria Litaly, cerca de 1913. Uma referência clássica ao 31 de janeiro de 1891

A Portuguesa – interpretada por Jorge Bastos, cerca de 1912, uma das primeiras gravações do Hino Nacional.

Pausa para o Fado

O meu companheiro de blogue, Pedro, há uma semana trouxe até aqui a música popular francesa. Hoje, particularmente nostálgico – nem eu sei por que razão – apeteceu-me revisitar o ‘fado’, adorado por uns e amaldiçoado por outros.

Inspirado pelo programa de Carlos do Carmo, na RTP1, relembro as minhas deambulações – emborcações, seria o mais exacto – por Alfama e a voz de Argentina dos Santos, na interpretação do fado menor, “Vida Vivida”:

Como diz a letra, afinal o tempo fica e a gente é que vai passando”.

Três efes? Não, B de Bruna!

Nas últimas semanas os chamados três efes regressaram em força, como se um movimento desconhecido decidisse em concertação o seu regresso simultâneo. Vejamos: novo disco dos Deolinda, disco da nova revelação do fado castiço Ricardo Ribeiro, novo disco de António Zambujo, o Benfica sagrou-se campeão nacional de futebol, Mourinho apurou o Inter de Milão para a final da Liga dos Campeões contra o Barcelona, o Papa veio a Fátima. Foram notícia? Sim, uns mais, outros menos, foram andando nas bocas do mundo.

Entretanto, em Mirandela, uma professora tira a roupa quase toda e deixa-se fotografar para uma revista. Resultado: Adeus fado, passa bem Benfica, arrivederci signor Papa, Benvinda  Bruna, welcome, du bist willkommen, papava-te toda darling, para uns, vade retro, és uma vadia, bye bye deixa em paz as criancinhas, ganda vaca, para outros. Só aqui, no Aventar, em dia e meio, mais de vinte mil pessoas procuraram sempre o mesmo nome. Sócrates? Obama? Ratzinger? Angela Merkel? Lula? Cameron? Isso queriam eles! Bruna, muito mais Bruna do que os efes e os políticos todos juntos.

Nestes dias Portugal escreve-se com B maiúsculo, pois claro, B de Bruna, B de “Boa-comó-milho”, B de “Bai-tembora”, B de Bortugal. O resto é só conversa. A Bruna não, a Bruna, dizem os vinte e tal mil visitantes que cá vieram ver a professora, a Bruna é que é Real.

Não há 2 sem 3, eFes

Amália Rodrigues – Tudo isto é fado.

Filosofia de bolso (12)

Para mim, bossa nova é fado transformado em jazz.

A máquina do tempo: ainda as origens do fado

 

 

Nesta bela gravura de Rugendas (1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares,  vemos escravos dançando o lundum. Há cerca de duas semanas atrás, publiquei aqui um texto sobre o fenómeno da canção urbana, falando das similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», aventei entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.

 

Segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões.

 

O curioso é que já no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A estúpida «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações.

 

Mas, enfim, voltemos às origens do fado. Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.

 

Pergunto se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões? Desde que, há uns anos atrás, no «Ponto por Ponto», me convidaram para falar sobre o D. Afonso Henriques e depois me fizeram perguntas sobre o fado, fiquei com esta obsessão.

 

Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?

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A máquina do tempo: Sobre a canção urbana – o fado e o tango

 

Neste vídeo, apreciámos uma tentativa de fusão de tango e de fado, interpretada por Beatriz Ayas e pelos Portubayres. É um tema curioso, este o da similitude entre dois tipos de música urbana – a portuguesa e argentino-uruguaia.  Aqui há tempos referi-me numa destas crónicas a um texto de Jorge Luis Borges sobre o assunto. Não o consegui encontrar, embora saiba que foi publicado num suplemento do DN num domingo de há muitos anos. Gostava de o ter consultado, pois é de tango e de fado que vou hoje ocupar-me. Em Abril de 1982, assisti na Gulbenkian à exibição de «Cinco Tangos», executada pelo grupo de Ballet da Fundação. A música era do Astor Piazzolla, o grande compositor argentino, mago do bandoneón. Várias vozes se fizeram na altura ouvir, chamando a atenção das afinidades entre o tango e o fado.

 Agora que se fala em candidatar a chamada canção nacional ao estatuto de «Património Imaterial da Humanidade», justifica-se avaliar até que ponto esse desiderato faz sentido. Avaliação que, estejam descansados, não vou fazer. Aliás o assunto está muito bem entregue – o Professor  Ruy Vieira Nery, director do Programa da Educação para a Cultura da Fundação Gulbenkian e membro da comissão da candidatura diz que agora a decisão já só compete ao Ministério da Cultura. Em fins de Setembro passado, a UNESCO declarou o tango como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Mais jovem do que o fado, o tango antecipou-se – é caso para dizer que «passou a perna» ao fado.

 

Quanto às origens do fado, não me vou pronunciar, apenas referir o que se diz. Há a tese mais vulgarizada de que, quando a Corte de D.João VI regressou, trouxe consigo uma dança em voga no Rio de Janeiro a que se chamava «Fado», inspirada no lundum, e que podia ser acompanhada por canto. Na realidade, os primeiros registos escritos sobre o tema começaram a surgir no século XIX, mais na segunda metade. Mas foi uma inovação que depressa se converteu em tradição.

Encontramos referências aos fado e aos fadistas, por exemplo, nos romances de Eça de Queirós. No «Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros», organizado por Camilo Castelo Branco, inclui-se um poema de Alexandre da Conceição – sobre um tal Marialva que «dançava o fado à noite em tabernas» – referência que acentua a tese da dança vinda do Brasil. Outra referência cultural, o famoso quadro de José Malhoa, data de 1910.

Nestes primeiros tempos, o fado surgia como fenómeno tipicamente lisboeta. As grandes fadistas do século XIX, a lendária Maria Severa (1820-1846), nasceu e morreu em Lisboa, e Maria Vitória (1891-1915), creio que também. Esta última cantava nas revistas e celebrizou o «Fado do 31», mais tarde interpretado por Estevão Amarante.

Todos estes dados apontam para uma tradição, se assim se pode chamar, que se instalou rapidamente e que, como planta trepadeira, se enroscou no fatalismo da alma portuguesa e no miserabilismo inerente à pobreza citadina, com ele se confundiu, e às vezes pareceu mesmo estar na sua origem, ser causa e não efeito. Não esqueçamos que «fado» vem do latim «fatum», ou seja, «destino». Em menos de cem anos o fado (cantado) se espalhou pelo país e se transformou em canção nacional. Para além destas e doutras raízes mais remotas, o fenómeno Amália Rodrigues ajudou a enquistar o fado no tecido da alma popular, elevando-o à categoria de tradição.

Mas, além desta tese, há outras – teria vindo de reminiscências das melopeias árabes ou, como um companheiro do Aventar aventou, seria uma herança dos celtas. Estas duas últimas parecem-me teorias rebuscadas. Como seria possível o fado vir de tempos tão remotos e não existir, nas baixas e tordiões, por exemplo, ou noutro tipo de canção popular dos séculos que mediaram entre a herança céltica ou árabe e o século XIX, um fio condutor, um elo, que ligue esses vestígios?

Já o fado de Coimbra, com uma genealogia diferente, parece estar mais ligado às baladas tradicionais e, mais especificamente, à música beirã. Embora também seja um fenómeno relativamente recente. Os cantores Augusto Hilário, António Menano e Edmundo Bettencourt, bem como o grande guitarrista Artur Paredes, pai de Carlos Paredes, nomes maiores da canção coimbrã, são tudo gente do século XX.

O tango é mais recente do que o fado. Foi buscar as suas origens à «habanera» (de La Habana). Desta dança terão surgido o maxixe brasileiro e o tango argentino e uruguaio. A dança começou por se chamar «tango criollo» simplificando-se depois para tango. É já no século XX que se instala nos dois lados do rio La Plata, em Buenos Aires e em Montevideu. Como canção encontra em Carlos Gardel o seu mais emblemático intérprete.

A relação fado/tango era evidente – canções nostálgicas, fatalistas. Amália disse ter encontrado a sua voz, cantando os tangos de Gardel. Agora é uma argentina, María Lavalle, que, inspirando-se em Amália, volta a acentuar a relação entre as duas formas musicais. No passado fim-de-semana apresentou no Teatro Calderón de Madrid o seu espectáculo «Tú que puedes, vuélvete», fundindo o tango puro com o fado puro, misturando músicos argentinos e portugueses. Coisa que a nossa Mísia já tinha feito, para não falar no fado tango de Amália, «Cansaço», agora interpretado por Camané.

O mestre da guitarra António Chaínho, acompanhado pela cantora Marta Dias e pelo coreógrafo Alejandro Laguna, apresentou há anos um espectáculo em que fundia os dois géneros. Parece-me ser a primeira tentativa de fusão. Diziam que tendo o fado e o tango nascido em ambientes portuários e marginais, tinham trajectórias, história e sentimentos similares e, de certo modo, complementares. O que faz sentido.

Justifica-se integrar o fado no património imaterial da humanidade? Sempre vou dar a minha opinião: entendido como canção nacional, acho que sim. Recuso a ideia de que o fado «reflecte a alma do povo português», reflecte-a tanto como a chula do Minho, como o cantar alentejano ou qualquer outra forma musical popular do nosso povo. Naturalmente que o vira minhoto ou algarvio ou o bailinho madeirense, não se coadunam com o sentir de bastante mais de metade da população do país que habita as áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e Setúbal.

Parece-me ser esse o espaço do fado – reflexo fatalista da vida descarnada, afastada da natureza, que se vive nas cidades grandes. Não terá um historial muito antigo, mas se formos a ver, toda a canção urbana nasce no século XIX – a valse musette de Paris, os cuplés madrilenos, o tango de Buenos Aires e de Montevideu. Os blues saltam das plantações de escravos para as cidades, eclodem nos anos 40 do século XX em Chicago…Como diria Mr. de La Palisse, a canção urbana nasce, ou instala-se, com as e nas concentrações urbanas.  

Mas n
em
sei porque estou eu, qual musicólogo encartado, a falar de uma coisa de que nada percebo. Aqui no Aventar, sinto-me na mesa do café onde estamos à vontade para discutir tudo, desde o Borda d´Água ao «Capital» de Marx, passando pela música de Beethoven e pelo Triângulo das Bermudas . Hoje deu-me para o tango e para o fado. Podia ter sido bem pior. Ora vamos lá ouvir a María Lavalle.

Silêncio, que se vai cantar o tango.

 

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