Carla Castelo: A Liberdade que nos falta

(Carla Castelo, Consultora na área da Comunicação e Ambiente,Co-Fundadora do Movimento de Cidadãos Evoluir Oeiras e ex-jornalista da SIC)

 

Memória de Abril sempre

Quantas vezes cantei “Uma gaivota, voava, voava (…) Como ela, somos livres (…)”
Em correrias de miúdos à solta
Numa azinhaga de pó entre prédios e campo?
Eram tempos em que nada sabia do inverno da ditadura
E me parecia que seria primavera todo o ano
Desse tempo, guardo o vermelho das papoilas sopradas pelo vento
Na encosta que se estendia para lá da via rápida
E a sensação de que, se quisesse,
Poderia correr para sempre seara adentro
Num voo rasante até ao mar.

 

Ainda não tinha 4 anos quando aconteceu o 25 de abril e só muito mais tarde compreendi o significado do dia, de tudo o que ficava para trás, permanecendo como um pesado legado, e do caminho que então se abriu. Mas tenho várias memórias das discussões políticas que me escapavam, e da efervescência que se viveu naquela segunda metade da década em que nasci. Lembro-me das passeatas com outros miúdos em que cantávamos e celebrávamos qualquer coisa que para nós era apenas o presente de correria e de brincadeira na rua.

Tendo crescido numa família patriarcal, a ideia de liberdade começou por ser para mim um ideal de autodeterminação. Poder fazer o que quisesse e com quem quisesse, sem dar satisfações a ninguém. Ser dona de mim, do meu corpo, das minhas opiniões, da minha forma de ser e de estar. Décadas depois, o meu ideal de liberdade foi-se ampliando, muito para lá de mim própria e das minhas irmãs, às outras mulheres, às pessoas LGBT, negras e ciganas, e a toda a comunidade da Terra, que inclui seres vivos e ecossistemas. A comunidade ética da Terra de que fala Aldo Leopold (A Sand County Almanac) e o alargamento da consciência social que passa a ser também uma consciência ecológica.

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