Ou vem com botas cardadas ou com pezinhos de lã

Galeazzo Bignami, o nome vice-ministro das infra-estruturas italiano, indicado por Giorgia Meloni, em 2016.

Senhoras e senhores, apresento-vos Galeazzo Bignami (Fratelli d’Italia) o novo Vice-Ministro das Infra-estruturas e da Mobilidade Sustentável de Itália, do governo de Giorgia Meloni.

Aqui fotografado em 2016, numa despedida de solteiro.

Já sei que é tudo uma brincadeira, que o facto de ter feito parte, tal como muitos dos militantes dos FdI, do Movimento Social Italiano (os herdeiros de Mussolini), não vem ao caso, que o facto de os FdI terem, no seu símbolo, a mesma chama que o símbolo do Movimento Social Italiano, é apenas coincidência e os fascistas não são eleitos (tirando aqueles que o foram). No entanto, deixo aqui, para memória futura.

 

 

 

NOTA: aquando da redacção do texto, o autor foi induzido em erro pela notícia que leu e que referia o ano de 2016 como sendo o ano em que a fotografia foi captada. No entanto, 2016 foi o ano em que a fotografia foi tornada pública, uma vez que a mesma é de 2005.

Propagar, enforcar, ressuscitar

A contradição do costume voltou em força: em Democracia todos os fascistas votam. E, se nem todos os que votam em neo-fascistas (dos Fratelli ao Lega, em Itália, do CHEGA, em Portugal, ao Vox, em Espanha, do Fidesz, na Hungria, ao PiS, na Polónia, passando pelo SD, na Suécia) são neo-fascistas, a verdade é que a “moderna” extrema-direita europeia se soube re-inventar e aproveitar os fracassos dos partidos democráticos, sobretudo de esquerda, catapultando-se para o poder.

O aproveitamento populista de certos temas, o cultivo do ódio e do ressentimento pelos próximos e por quem é pobre e/ou diferente, a cultura do “contra tudo-contra todos” não são factores novos nem foram inventados pelos que, agora, se chamam “iliberais”; ao invés, são fotocópias ajustadas aos tempos de hoje, daquilo que foi a estratégia dos – outrora – fascistas dos anos 20 em diante para tomar o poder. E é sabido que quando a coisa aperta, o fascismo aperta também. O povo vai atrás, porque se revê na ideia do “Salvador”, na imagem do deus supremo que tudo resolverá e, também, porque os partidos democráticos lhes falharam e continuam a falhar.

Dizia Pepe Mujica, antigo presidente do Uruguai, que o Ser Humano é provável que seja o único animal que é capaz de tropeçar vinte vezes na mesma pedra sem aprender a desviar-se dela. A onda fascista que ameaça, de novo, a Europa é prova dessa mesma incapacidade de nos tornarmos sagazes.

A Itália propagou o fascismo, enforcou-o e agora ressuscita-o. As melhoras, Itália.

Ah, só mais uma coisa: hoje, Vladimir Putin também ganhou.

Giorgia Meloni. Fotografia: Getty

A máquina do tempo: Mussolini – Benito, para os amigos

 

Foi posto ontem à venda nas livrarias italianas, editado pela Rizzoli, de Milão, o livro do jornalista Mauro Suttora com o título «Mussolini segreto» – «Mussolini Secreto». Revela, segundo se diz, uma nova imagem do ditador que, tem sido habitualmente descrito como um bonacheirão muito menos sanguinário do que o seu aliado Adolf Hitler. Afinal, Benito Mussolini disputava a Hitler a qualidade de campeão do anti-semitismo ( «Hitler è un sentimentalone»), acusava Franco de ser um idiota, ameaçava o Vaticano com o corte de relações («Questo papa è nefasto»)…

«Estudei durante muitos meses mais de 2000 páginas escritas por Claretta, com uma caligrafia apertada e difícil», diz Suttora. Já no fim da guerra da Libertação, quando o casal Benito e Clara tinha já a água pelo pescoço e teve de fugir de Salò, onde se refugiara após a queda do governo de Mussolini, ainda mantendo a esperança de ressuscitar o fascismo, a amante do Duce entregou os seus diários a uma amiga de confiança, que os escondeu. Foram encontrados em 1950.  Mauro Suttora (1959) é um escritor e jornalista milanês, colaborador do Corrieri della Sera, com reportagens sobre a guerra Irão-Iraque, o massacre de Tiananmen, a primeira guerra do Golfo, Gorbatchov, a guerra da Jugoslávia, a Segunda Intifada, etc. Entre os seus romances, destaca-se o best seller «No sex in City», publicado em 2007. É ele que me ajuda hoje a pilotar a nossa máquina do tempo de regresso a esses anos escaldantes que antecederam a 2ª Guerra Mundial.

Segundo o autor, o que se torna reveladoramente explosivo é o facto de as palavras de Clara Petacci, a linda actriz com os cabelos cor de azeviche, destruírem a imagem de um ditador que cometeu excessos, mas humano, um pouco ridiculamente fanfarrão, mas simpático, um acólito moderado de Hitler, um homem que foi atrelado ao carro nazi contra sua vontade e que aprovou as leis contra os judeus apenas para não contrariar o seu louco aliado. Um católico devotado. Essa imagem é falsa, segundo o livro de Suttora. E depois há as revelações eróticas, que numa Itália vacinada pelos desmandos de Berlusconi, não causarão grande impacto.

«Sabes, meu amor? A noite passada, no teatro, despi-te mentalmente pelo menos três vezes. Olhava-te, tirava-te a roupa e desejava-te como um louco». Parece um fragmento de uma escuta telefónica ao inenarrável Silvio, mas são palavras de Benito que Clara anotou em 5 de Janeiro de 1938. A relação adúltera durava desde 1932, tinha Clara Petacci 20 anos e Mussolini 40. O Duce era casado com Rachel Mussolini (1890-1979) . Tinham seis filhos.

Mussolini ficava furioso quando apontavam Hitler como pioneiro do anti-semitismo: em 4 de Agosto de 1938, sempre de acordo com o diário de Petacci, o ditador fascista terá berrado: «Eu já era racista em 1921. Não sei como podem pensar que imito Hitler se ele nem sequer tinha nascido. Os italianos deveriam ter mais sentido da raça, para não criar mestiços que irão estragar o que temos de bonito». Vinte dias antes saíra o «Manifesto della razza», documento que tentava criar a tese da superioridade da etnia itálica.

Pio XI não terá escapado à fúria de Benito: «Se os do Vaticano continuam assim, vou romper todas as relações com eles. São uns miseráveis hipócritas. Proibi os casamentos mistos e agora o Papa pede-me para casar um italiano e uma preta. Não! Vou-lhes partir a cara a todos».

Franco não foi melhor tratado: «Esse tal Franco é um idiota. Julga que ganhou a guerra com uma vitória diplomática, só porque alguns países o reconheceram, mas tem o inimigo dentro de casa. Se tivesse só metade da força dos japoneses, já teria acabado com tudo há quatro meses. São apáticos [os espanhóis], indolentes, têm muita coisa dos árabes. Até 1480 os árabes dominaram a Espanha, foram oito séculos de domínio muçulmano. Aí está a razão porque comem e dormem tanto», anotou Claretta em 22 de Dezembro de 1937.

Enfim, um livro que promete levantar celeuma, principalmente em Itália onde ainda existe uma residual falange de apoio ao ditador que, com a sua amante Clara Petacci, foi numa praça executado de Milão, no dia 25 de Abril de 1945. Mostro as imagens. Recomendo às pessoas mais sensíveis, que não vejam o vídeo, pelas razões habituais.