O retrato de Jennie

Aquele conselho tonto – não voltes aos sítios onde foste feliz –  não é para levar a sério, a gente aprende isso, mas de tanto ouvi-lo por vezes acreditámos nele, e traçamos curvas no caminho e até andamos às arrecuas para evitar o desencanto, como se pudéssemos fugir dele. Por isso andei eu anos a fio a fugir de um filme que me deixou enredada numa espécie de encantamento quando era criança, com medo de agora achá-lo indigno desse encantamento. A desculpa oficial é que o filme nunca me aparecia em DVD, jamais o apanhava nas televisões, e na internet apenas encontrava fragmentos, que tampouco queria ver, porque, justificava-me, só queria vê-lo íntegro, como no passado. Claro que eu podia ter procurado mais se não fosse o medo de macular a sua existência perfeita na minha memória. “Foste feliz ali, não queiras regressar”, uma parvoíce.

Nestes primeiros dias do ano, decidida a corrigir falhas várias, e a gente tem sempre de começar por algum lado nesses ingénuos propósitos de início de ano, lembrei-me dele e encontrei-o, agora sim, de ponta a ponta, na internet, e sentei-me por fim a rever o que já não recordava e a descobrir que alguns farrapos de memória, de origem incerta, provinham daí. O filme tinha deixado a sua semente na minha imaginação e essa semente germinara de uma forma surpreendente. Descobri que uma ideia que há muito me atormenta e sobre a qual queria escrever é, de forma metafórica, a premissa do filme. Talvez eu não tivesse idade para compreender o filme, na época em que o vi, e por isso o tenha visto com os olhos do coração, e isso explique porque, não o recordando bem, ele me acompanhou por tanto tempo. [Read more…]

O mundo ao contrário (2)

Buñuel: O Fantasma da Liberdade