O homem que voa

  Eu sou o homem que voa.  

Antes apenas andava e às vezes corria mas agora sei voar. Aprendi ontem à noite com o bater das badaladas. Esteve sempre ali à minha frente e eu passei este tempo todo, quase 50 anos, agarrado ao chão, e é tão fácil. 

Antes eu era apenas o homem que queria voar. Mas só não voava porque dizia isso da boca para fora. – “O que eu queria mesmo era voar” – dizia eu, como se o meu desejo fosse apenas uma coisa feita para impressionar os outros e não uma vontade realmente própria. Se assim não fosse, há já muito tempo que andaria pelos ares. A fazer razias aos arranha-céus, a ver os campos de arroz crescer, a ver as carecas escondidas dos homens altos. 

O segredo está nas asas, ou melhor, em não querer ter asas. Isso é para o voo dos pássaros e dos aviões. Os homens não voam assim. 

Mas é tão fácil. Tão perto. Tão simples. Que não se consegue perceber porque é que ainda não andamos todos pelo ar.

Fábula em forma de foto sobre um desejo de ano novo feliz 

O retrato de Jennie

Aquele conselho tonto – não voltes aos sítios onde foste feliz –  não é para levar a sério, a gente aprende isso, mas de tanto ouvi-lo por vezes acreditámos nele, e traçamos curvas no caminho e até andamos às arrecuas para evitar o desencanto, como se pudéssemos fugir dele. Por isso andei eu anos a fio a fugir de um filme que me deixou enredada numa espécie de encantamento quando era criança, com medo de agora achá-lo indigno desse encantamento. A desculpa oficial é que o filme nunca me aparecia em DVD, jamais o apanhava nas televisões, e na internet apenas encontrava fragmentos, que tampouco queria ver, porque, justificava-me, só queria vê-lo íntegro, como no passado. Claro que eu podia ter procurado mais se não fosse o medo de macular a sua existência perfeita na minha memória. “Foste feliz ali, não queiras regressar”, uma parvoíce.

Nestes primeiros dias do ano, decidida a corrigir falhas várias, e a gente tem sempre de começar por algum lado nesses ingénuos propósitos de início de ano, lembrei-me dele e encontrei-o, agora sim, de ponta a ponta, na internet, e sentei-me por fim a rever o que já não recordava e a descobrir que alguns farrapos de memória, de origem incerta, provinham daí. O filme tinha deixado a sua semente na minha imaginação e essa semente germinara de uma forma surpreendente. Descobri que uma ideia que há muito me atormenta e sobre a qual queria escrever é, de forma metafórica, a premissa do filme. Talvez eu não tivesse idade para compreender o filme, na época em que o vi, e por isso o tenha visto com os olhos do coração, e isso explique porque, não o recordando bem, ele me acompanhou por tanto tempo. [Read more…]

O naufrágio

naufragio

O navio adornava perigosamente. Os tripulantes estavam agitados e temerosos. Os passageiros, esses, dividiam-se. Havia os que confiavam que tudo acabaria bem e as coisas se comporiam por si. Havia mesmo um ou outro que acreditavam na competência da tripulação.

Todavia, a maioria não estava satisfeita e havia mesmo quem pensasse que era melhor substituir o comando do barco antes que fosse tarde. Manhoso e espreitando com seu ar de fuinha, o imediato, ciente de que tudo, por aquele andar, iria dar para o torto, escapuliu-se pé ante pé, silenciosamente, sem bater com as portas e, sem dar cavaco – por assim dizer -, pirou-se num salva vidas que estava ali à mão.

Bem lhe parecera que não conseguiriam levar o navio a bom porto, sobretudo depois de o oficial da contabilidade e logística se ter demitido na escala anterior. Mas a sua alegria durou pouco. Por todo o lado se viam tripulantes a atirar-se pela borda fora nadando, atontadamente e sem destino.

Uma sombra, então, desenhou-se no ar e um corpo caiu sobre o seu, apertando-lhe o pescoço com as mãos. Era o comandante. E assim, engalfinhados um no outro, rodeados por desatinados marinheiros, se foram afundando.

Os que estavam mais perto ainda ouviram a voz do capitão que rosnava para o imediato: – “Sacana! Se nos afundamos, afundas-te connosco!”. E lá foram desaparecendo nas profundezas do oceano. No barco, espalhava-se o cheiro a coelho queimado.

O cozinheiro Aníbal, vendo que era o último tripulante que restava, tinha largado os tachos e aprestava-se a partir no último salva-vidas. “E os passageiros?!” – gritou-lhe alguém. “Os passageiros que se lixem!”. E lá foi.