Morrinha

©Carla Olas

Quando começamos a subir o monte, aparecem os caçadores. Dois rapazes, com coletes militares. Sobem para uma pedra para que os vejamos, de espingarda ao ombro, estátuas desengonçadas a posar para os forasteiros. Costumam andar aos pares, acompanhados por três ou quatro cães, fazem ruído e assustam os bichos, mas raramente lhes acertam. Passam o domingo no monte, “andam entretidos”, como dizem as mães, com as espingardas de segunda mão e os camuflados. Seguem-nos com os olhos, sem disfarçar, quando passamos, e levantam bem alto o cano da espingarda para que os admiremos. Poderia um impulso infantil levá-los a apontar a arma na nossa direcção e disparar, só para ver se nos acertam, só para ver como caímos. As coisas que nos passam pela cabeça. (Uma vez, um homem de quem todos gostavam, o santo da vizinhança, de bochechas redondas e sorriso beatífico, levantou os olhos para o céu onde passava um avião, e com toda a naturalidade confessou que gostaria de vê-lo cair. A esse e a todos os que via passar.) Mas os jovens caçadores contêm-se, e passámos incólumes.  [Read more…]

História de um cão moscovita

Malchik (“Menino”, em russo) tem uma estátua na estação de metro de Mendeleyevskaya, em Moscovo. Era ali que vivia e foi ali que morreu, assassinado. Era um cão rafeiro, de pêlo negro, e viveu na rua até procurar refúgio na estação. Tornou-se conhecido dos utilizadores do metro por guardar a estação do ataque de outros cães e afugentar os bêbedos que provocavam desacatos. Quem passava por ali todos os dias deu-lhe um nome, fazia-lhe festas, levava-lhe comida.

Estima-se que vivam nas ruas de Moscovo cerca de 35 mil cães. Destes, cerca de 500 vivem nas estações de metro, um número impressionante se tivermos em conta que a cidade conta com um total de 200 estações. E entre estes, um número reduzido, aí uns 20, usa o metro para deslocar-se na cidade, um feito notável e que tem chamado a atenção dos estudiosos do comportamento animal. Imaginem um cão capaz de usar escadas rolantes, de escolher a linha de metro e a estação em que deve sair. Que não se assusta com o ruído da locomotiva, com a hostilidade do ambiente, que, seja pelo cheiro ou porque reconhece o nome da estação quando pronunciada pelo aviso sonoro, ou ambos, consegue orientar-se no labirinto subterrâneo. [Read more…]