História de um cão moscovita

Malchik (“Menino”, em russo) tem uma estátua na estação de metro de Mendeleyevskaya, em Moscovo. Era ali que vivia e foi ali que morreu, assassinado. Era um cão rafeiro, de pêlo negro, e viveu na rua até procurar refúgio na estação. Tornou-se conhecido dos utilizadores do metro por guardar a estação do ataque de outros cães e afugentar os bêbedos que provocavam desacatos. Quem passava por ali todos os dias deu-lhe um nome, fazia-lhe festas, levava-lhe comida.

Estima-se que vivam nas ruas de Moscovo cerca de 35 mil cães. Destes, cerca de 500 vivem nas estações de metro, um número impressionante se tivermos em conta que a cidade conta com um total de 200 estações. E entre estes, um número reduzido, aí uns 20, usa o metro para deslocar-se na cidade, um feito notável e que tem chamado a atenção dos estudiosos do comportamento animal. Imaginem um cão capaz de usar escadas rolantes, de escolher a linha de metro e a estação em que deve sair. Que não se assusta com o ruído da locomotiva, com a hostilidade do ambiente, que, seja pelo cheiro ou porque reconhece o nome da estação quando pronunciada pelo aviso sonoro, ou ambos, consegue orientar-se no labirinto subterrâneo.

Malchik não era um desses bichos que viajam, mantinha-se na estação, era fiel à sua casa. Até ao dia em que Yulia Romanova chegou à estação com o seu Staffordshire Bull Terrier, cujo nome a pequena História não registou. Há relatos contraditórios sobre o que terá acontecido: uma testemunha disse que Yulia incentivou o seu cão a ir morder Malchik, que dormia. Outra garantiu que foi Malchik que ladrou ao outro cão e à sua dona, embora todos concordem que não os atacou. Yulia tirou da mala uma faca de cozinha e espetou-a seis vezes em Malchik. Este acabou por morrer ali mesmo, no meio da estação, depois de minutos de agonia.

O assassinato de Malchik indignou muitos cidadãos. Yulia foi detida, descobriu-se entretanto que tinha um historial de maus-tratos a animais, e perturbações psiquiátricas que a levariam a ser submetida a tratamento. Um grupo de artistas, apoiados por cidadãos anónimos, ergueu uma estátua a Malchik, projecto que demoraria anos a concretizar-se. Malchik morreu em 2001 e foi preciso esperar até 2007 para que a sua estátua fosse colocada na estação de Mendeleyevskaya. Que, em seis anos, a memória de um cão vadio não tenha sido esquecida diz bastante sobre a popularidade do bicho e o choque que a sua morte provocou. E sobre a familiaridade dos moscovitas com os guardiães das suas estações.

Conta-se que os cães que viajam no metro evitam as carruagens apinhadas e preferem as do fundo, habitualmente menos frequentadas. Procuram a companhia dos humanos e resguardam-se dela, como é de esperar dos bichos que conhecem o melhor e o pior desses humanos. Esses vinte cães que atravessam a cidade talvez o façam apenas para procurar comida ou também por diversão e vontade de ver o desconhecido. Exploram o que a cidade tem para oferecer-lhes, o que os humanos construíram, e sobrevivem num mundo que não foi feito para eles, mas que os tolera. Mas quando a vida na cidade se endurece, são eles que guardam as estações, são eles que acompanham e defendem os humanos que dormem nas ruas, são eles que retomam o lugar que nunca perderam por inteiro, o de companheiros e defensores de seres humanos solitários e amedrontados.

Foto: Estátua dedicada a Malchik  – Russian Report

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Excelente e comovente artigo.
    A nossa televisão poderia dar este tipo de notícias (para além de divulgar as maravilhas do metro moscovita), em vez de referir de um modo macabro os atentados nos Estados Unidos… por exemplo ou mesmo os funerais de crianças assassinadas…

  2. Fernando Cerdo says:

    Quem tem culpa desta situação é nitidamente o execrável ditador Soviético Vladimir Putin! Que tal uma Revolução Colorida em Moscovo co-ordenada pelas Embaixadas dos USA e do Reino Unido igual à vitoriosa Revolução Maidan de Kiev que, como está à vista de todos, resultou numa nova era de prosperidade económica, paz, estabilidade e liberdade sem precedentes na Ucrânia? É só perguntar a grandes Estadistas da comunidade internacional como o antigo Primeiro Ministro Canadiano Stephen Harper ou o antigo Presidente da Geórgia Mikhail Shaakashvili é ou não é uma ideia bestial organizar uma Revolução [Insere nome de Côr ou Flor] em Mosocovo!


    • Curiosamente, antes da queda do muro, os cães vadios eram abatidos. Foi a partir da Perestroika que os cães vadios começaram a multiplicar-se. Os anos de súbita prosperidade encheram os caixotes de lixo, os cães vadios tinham onde alimentar-se. Um tema interessante seria contar a história recente da Rússia do ponto de vista dos cães vadios, não acha?


  3. Adorei o texto! Obrigada!


  4. Carla Romualdo. Nao a conheço (e tenho pena disso) mas a pessoa mais interessante, sensivel e profissional do AVENTAR.

    Só é pena é o mundo ser feito doutras pessoas.


    • Agradeço as suas palavras, mas não posso deixar de dizer-lhe que a graça do Aventar, e a sua grande riqueza, é ser feito por pessoas muito diferentes entre si, tanto as que escrevem como as que lêem. E que a forma como coabitamos todos nesta casa partilhada ainda é uma das melhores razões para continuar por cá.

  5. motta says:

    Depois de um dia tramado, um afago para a alma. Como acontece sempre que a Carla escreve!

  6. emaria says:

    …os cães…sempre os amados cães…

  7. Konigvs says:

    Comovente.