Morrinha


©Carla Olas

Quando começamos a subir o monte, aparecem os caçadores. Dois rapazes, com coletes militares. Sobem para uma pedra para que os vejamos, de espingarda ao ombro, estátuas desengonçadas a posar para os forasteiros. Costumam andar aos pares, acompanhados por três ou quatro cães, fazem ruído e assustam os bichos, mas raramente lhes acertam. Passam o domingo no monte, “andam entretidos”, como dizem as mães, com as espingardas de segunda mão e os camuflados. Seguem-nos com os olhos, sem disfarçar, quando passamos, e levantam bem alto o cano da espingarda para que os admiremos. Poderia um impulso infantil levá-los a apontar a arma na nossa direcção e disparar, só para ver se nos acertam, só para ver como caímos. As coisas que nos passam pela cabeça. (Uma vez, um homem de quem todos gostavam, o santo da vizinhança, de bochechas redondas e sorriso beatífico, levantou os olhos para o céu onde passava um avião, e com toda a naturalidade confessou que gostaria de vê-lo cair. A esse e a todos os que via passar.) Mas os jovens caçadores contêm-se, e passámos incólumes. 

No cimo do monte, apenas a ermida e as pedras. Uma fachada de austero granito, erguida há muitas décadas para resistir aos ventos e à chuva, paredes sólidas para abrigar os peregrinos, mas porta invariavelmente fechada à chave para travar os bárbaros. E as pedras, blocos imensos, revestidas de um musgo jovem, nascido com as primeiras chuvas de Outono. Não tardamos nada em encontrar-lhe traços humanos. Um bigode, um olho, uma testa, uma boca entreaberta. Formas polidas ao longo de séculos. Passeamos entre as pedras como se entrássemos numa floresta. Vai caindo uma chuva miudinha, a morrinha que vem da Galiza. No silêncio do monte, que nem os tiros distantes dos caçadores agora perturbam, a solidão é um manto palpável e todos nós, ainda que acompanhados, a sentimos. Afastamo-nos, cada um encontra o seu caminho, ocultados pelas pedras altíssimas. A solidão traz o medo. Que formas irromperão detrás daquela pedra, que acontecerá a seguir, que pavor nos espera? E se aparecesse um lobo, ou um louco, ou se as rochas se desprendessem sobre mim? Mas se respirarmos fundo e não dissermos nada, se não chamarmos uns pelos outros, nem os procurarmos com os olhos, se apenas aprendermos a respirar no silêncio, o medo vai-se, deixa-nos tão só uma paz que parece nascer das pedras, como se a expirassem, tal como as plantas expiram oxigénio.

E então apareceu um cão, um rafeiro de olhos azuis curiosos, talvez tivesse acompanhado um caçador, mas agora parecia apenas um vagabundo pouco habituado a companhia. Não aparentava ter fome nem frio. Ficámos a olhar um para o outro, duas criaturas capazes de partilhar o sossego do monte. Não nos aproximámos, talvez duvidássemos ambos da existência do outro, mas preferíssemos manter a ilusão. Até que ele me voltou as costas e se afastou para os lados da ermida, e eu fui na direcção oposta, ao encontro dos outros, e assim irrompi por entre as pedras, como se tivesse estado perdida num tempo ancestral e agora regressasse ao presente.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. raul marques says:

    Sempre ao infinito dos sentimentos !

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