Os onze da fatalidade

11 de Setembro de 1973. Eu estava em Munique pela terceira vez, sem poder resistir a ver de novo certas pinturas de certo museu. Nesse dia vi, desfilando pela rua, um grupo de gente morena exibindo cartazes, em alemão. Vestiam de negro e alguns choravam. Por ter ouvido alguns falando espanhol, abeirei-me e quis saber o que se passava: eram chilenos e contaram-me da morte de Allende, do golpe militar brutalíssimo de Pinochet. Golpe ajudado pelos Estados Unidos da América a pretexto de que estava iminente um regime pró-soviético a partir de Santiago. Por essas, e por muitas outras, é que os americanos são odiados na América do Sul. E não só, mas adiante.

(Por esse tempo, em Portugal, a ditadura continuava a encher prisões e a reprimir o povo de todas as maneiras, agitando o papão do comunismo. Tal como o rapaz da história popular, tanto gritou a esse lobo que, quando ele de facto nos apareceu em força, em 1974/75, o povo levou algum tempo a acreditar. Digamos mesmo que só acreditou quando o PCP, sempre triunfalista e sempre com o pé a fugir para o estalinismo, sem vocação nenhuma para a democracia, começou a fazer tratantadas gravíssimas. Depois foi o que sabe: o povo unido, muito centro esquerda e muito senhor do seu nariz, acabou por aplicar o irremediável xarope de marmeleiro). Por uma noite cálida, dias antes, em Paris, nos jardins do Palais Royal, um poeta exilado há vários anos perguntou-me como ia o regime. Respondi-lhe que estava a caír de podre. Adiantou-me: “É também o que penso. Mas olhe que vai caír nas mãos de uns políticos que enfiarão o país num banho de lama. E depois, será o banho de sangue”. Quando penso na lama em que Portugal está mergulhado, sinto um medo quase físico de que o poeta possa ter sido profeta. [Read more…]