Os onze da fatalidade

11 de Setembro de 1973. Eu estava em Munique pela terceira vez, sem poder resistir a ver de novo certas pinturas de certo museu. Nesse dia vi, desfilando pela rua, um grupo de gente morena exibindo cartazes, em alemão. Vestiam de negro e alguns choravam. Por ter ouvido alguns falando espanhol, abeirei-me e quis saber o que se passava: eram chilenos e contaram-me da morte de Allende, do golpe militar brutalíssimo de Pinochet. Golpe ajudado pelos Estados Unidos da América a pretexto de que estava iminente um regime pró-soviético a partir de Santiago. Por essas, e por muitas outras, é que os americanos são odiados na América do Sul. E não só, mas adiante.

(Por esse tempo, em Portugal, a ditadura continuava a encher prisões e a reprimir o povo de todas as maneiras, agitando o papão do comunismo. Tal como o rapaz da história popular, tanto gritou a esse lobo que, quando ele de facto nos apareceu em força, em 1974/75, o povo levou algum tempo a acreditar. Digamos mesmo que só acreditou quando o PCP, sempre triunfalista e sempre com o pé a fugir para o estalinismo, sem vocação nenhuma para a democracia, começou a fazer tratantadas gravíssimas. Depois foi o que sabe: o povo unido, muito centro esquerda e muito senhor do seu nariz, acabou por aplicar o irremediável xarope de marmeleiro). Por uma noite cálida, dias antes, em Paris, nos jardins do Palais Royal, um poeta exilado há vários anos perguntou-me como ia o regime. Respondi-lhe que estava a caír de podre. Adiantou-me: “É também o que penso. Mas olhe que vai caír nas mãos de uns políticos que enfiarão o país num banho de lama. E depois, será o banho de sangue”. Quando penso na lama em que Portugal está mergulhado, sinto um medo quase físico de que o poeta possa ter sido profeta.

1 de Julho de 2001. Mudei para um apartamento no centro histórico de Toronto. Para a mudança, contei com a ajuda de vários amigos meus. No dia seguinte, o porteiro do prédio, veio perguntar-me se aquele senhor meu amigo, de bigode e sorridente, se chamaria por acaso António Varatojo. Confirmei. Pediu-me que o chamasse quando o meu amigo estivesse em minha casa, porque lhe queria agradecer: “Sabe, eu sou exilado chileno, por causa do Pinochet, e se fiquei no Canadá, devo-o ao Sr Varatojo”.

11 de Setembro de 2013. A comunidade chilena de Toronto celebrou, em comovente cerimónia que teve a presença dos diplomatas do seu país e de membros do Canadá político, os 40 anos que passaram sobre a matança que se deu no Chile, durante anos a fio. Os chilenos de Toronto, por entre lágrimas de amargura que não passa, mostraram a sua gratidão aos que, no Canadá, os ajudaram. E fizeram-no, com pompa e circunstância, através de um diploma. António Varatojo foi chamado à cerimónia para receber o seu e, modéstia em pessoa que é, estava sem jeito. Quando eu contei este episódio ao porteiro, hoje o meu amigo Luiz Rojas, depois de nos vermos todos os dias há 16 anos, afirmou: “Ninguém o merecia mais”. Senti aquela alegria íntima de quem descobre que valeu a pena viver. Os portugueses emigrados, salvo poucas e lamentáveis excepções, têm em comum, entre outras qualidades, a generosidade com que, em momento de perigo ou e de aperto, ajudam não importa quem, seja de que país for, de que raça for, de que religião for. Até os inimigos ajudam. Deus mantenha assim os portugueses expatriados.

11 de Setembro de 2001. Eram 8 da manhã, o sol estava radioso e eu numa preguiça imensa de fazer o pequeno almoço. Atravessei a rua e fui tomá-lo ao Mercado (o de Saint Lawrence), um dos dez mais bonitos do mundo e badalado por tudo quanto é jornal e tv. Estava, numa grande pachorra, a comer os croissants e a tomar um “americano” como por cá chamam ao nosso abatanado, quando George, o húngaro das verduras orgânicas, veio à minha mesa, pálido, aflito, dizer-me que as Torres Gémeas de Nova Iorque estavam a ser bombardeadas. Num repente, fez-se um silêncio sepulcral no mercado. Corri para casa a ligar a tv. Mais uma matança feita pelos intolerantes, os fanáticos, os que se julgam senhores da verdade.

O século XX foi sangrento e este novo século vai mal começado. Por isso, os homens de boa vontade são chamados a dar corpo à fala poética de Manuel Alegre: “Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz NÃO”.

 

Comments

  1. joao figueira says:

    antes o banho de sangue que a venda do património tuga, a ausência de futuro, a modorra e o quanto pior, melhor.

  2. ARTUR ALMEIDA says:

    Andam sempre a bater no Estaline? Conhecem alguma coisa de Estaline e do seu Período histórico de vida???

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