Nostalgia da luz

No deserto de Atacama, cruzam-se os que procuram o passado: astrónomos que perscrutam o céu transparente, arqueólogos que buscam vestígios de civilizações pré-colombianas, e os sobreviventes da ditadura de Pinochet que procuram o que resta dos familiares assassinados. Um poderoso e comovedor documentário do chileno Patricio Guzmán, realizado em 2010, e premiado em múltiplos festivais de cinema.

http://www.ustream.tv/recorded/26976695

In Memorian (II)

allende
Dedicado a todos os seres humanos que perderam a vida às mãos de bárbaros terroristas num dia infame.

40 anos de neoliberalismo, de Pinochet aos nossos dias

A data de 11 de Setembro de 1973 está para o neoliberalismo como a de 7 de Novembro de 1917 para o leninismo. Curiosamente os leninistas (seja lá o que isso for) comemoram a sua, mas a maioria dos neoliberais é discreta, entretendo-se neste dia com um crime bem menor.

O assalto ao poder democrático chileno perpetuado perpetrado por Pinochet/Kissinger seria mais um golpe de estado no quintal norte-americano não tivesse o general optado por um novo modelo económico, o dos discípulos de Milton Friedman. O Chile seria o laboratório para as experiências de capitalismo em estado de pura selvajaria, o tubo de ensaio de Thatcher e Reagan, hoje em estado de avançada aplicação em Portugal.

O mesmo Chile que via ali terminada a experiência de um primeiro grande governo de unidade popular, uma coligação de todas as esquerdas que, pesem os erros e hesitações, demonstrava já os seus frutos, naturalmente boicotados pela CIA e pelos privilegiados chilenos em estado de aflição.

Quarenta anos depois, e se Allende está longe, Mujica e o governo do Uruguai estão bem próximos. Para derrotar os herdeiros ideológicos de Pinochet (se dúvidas tiverem vejam como o guru Alberto Gonçalves nem sequer disfarça muito) não conheço outro caminho.

la ultima foto de Allende

Os onze da fatalidade

11 de Setembro de 1973. Eu estava em Munique pela terceira vez, sem poder resistir a ver de novo certas pinturas de certo museu. Nesse dia vi, desfilando pela rua, um grupo de gente morena exibindo cartazes, em alemão. Vestiam de negro e alguns choravam. Por ter ouvido alguns falando espanhol, abeirei-me e quis saber o que se passava: eram chilenos e contaram-me da morte de Allende, do golpe militar brutalíssimo de Pinochet. Golpe ajudado pelos Estados Unidos da América a pretexto de que estava iminente um regime pró-soviético a partir de Santiago. Por essas, e por muitas outras, é que os americanos são odiados na América do Sul. E não só, mas adiante.

(Por esse tempo, em Portugal, a ditadura continuava a encher prisões e a reprimir o povo de todas as maneiras, agitando o papão do comunismo. Tal como o rapaz da história popular, tanto gritou a esse lobo que, quando ele de facto nos apareceu em força, em 1974/75, o povo levou algum tempo a acreditar. Digamos mesmo que só acreditou quando o PCP, sempre triunfalista e sempre com o pé a fugir para o estalinismo, sem vocação nenhuma para a democracia, começou a fazer tratantadas gravíssimas. Depois foi o que sabe: o povo unido, muito centro esquerda e muito senhor do seu nariz, acabou por aplicar o irremediável xarope de marmeleiro). Por uma noite cálida, dias antes, em Paris, nos jardins do Palais Royal, um poeta exilado há vários anos perguntou-me como ia o regime. Respondi-lhe que estava a caír de podre. Adiantou-me: “É também o que penso. Mas olhe que vai caír nas mãos de uns políticos que enfiarão o país num banho de lama. E depois, será o banho de sangue”. Quando penso na lama em que Portugal está mergulhado, sinto um medo quase físico de que o poeta possa ter sido profeta. [Read more…]

Isto precisava era de um Pinochet!

pinochet-thatcher

Egyptians would be lucky if their new ruling generals turn out to be in the mold of Chile’s Augusto Pinochet, who took power amid chaos but hired free-market reformers and midwifed a transition to democracy. If General Sisi merely tries to restore the old Mubarak order, he will eventually suffer Mr. Morsi’s fate.

in “After the coup in Cairo”

Este é o discurso habitual dos que governam o mundo: preocupam-se muito com os mercados e nada com as pessoas, reduzidas a cordeiros sacrificiais que servem para bulir e nem sequer para balir. Que Pinochet tenha sido responsável por torturar, matar e silenciar pessoas não tem importância nenhuma, face aos mercados, esse novo Deus castigador do Velho Testamento. [Read more…]

Maria Teixeira Alves e o mundo do crime

A moça defende o Pinochet. O jornal onde trabalha terá alguém apologista do Estaline na redacção?

Da série Os amigos de Thatcher (3)

PinochetAugusto Pinochet.

O reencontro

No céu onde agora ardem, haverá hoje uma cópula feliz; o reencontro de dois que se amaram, à sombra do mal que a seus povos causaram:

pinochet_thatcherSerá mesmo uma festa, o Reagan também entrará nesta

thatcher-_reagan

E que sejam felizes. No inferno onde tenho lugar guardado, não há espaço para estas canalhices.

(eu sei, a rima é pobre, tão pobre como os que tramaram e assassinaram)

Uma puta é uma puta mas é uma puta

Vender o corpo incluindo o uso sexual do mesmo chama-se prostituição. Trabalhadora sexual, diz-se agora.
No meu dicionário, é assim.
bois
Puta é outra coisa. Ao contrário de uma prostituta, que vende o que lhe resta ou porque não a deixam vender menos ou porque lhe apetece, as putas, e os cabrões, concorrem a sufrágios, até os vencem, chegam ao poder e deixam morrer pessoas por falta de assistência médica em hospitais arruinados para abrir o mercado ao livre empreendedorismo das companhias de seguros.
Faz uma certa diferença.
E já agora: os cabrões também não são necessariamente homens traídos,  mas são sempre filhos da puta.
É o dicionário que uso, tal e qual como se fala na minha rua, bem perto de um largo onde trabalham prostitutas. Fica esta nota semântica a propósito de dúvidas geradas por causa de uma frase onde incluí a puta da Maggie, e posso acrescentar cabrões como o Ronaldo, o George e o Augusto, aquele amigo da puta Thatcher de apelido Pinochet.

Pintura: Bois de Ole Ahberg

O liberalismo de Pinochet

defesa dos golpes de estado. Nada de novo. É da história, a forma de rapazes de Friedman praticarem os ensinamentos do mestre.

As ditaduras de A a Z

Quando numa casa onde ainda há pouco se defendeu uma intervenção dos coronéis caso a Syriza ganhasse as últimas eleições gregas se tenta argumentar com a contabilidade de vítimas das ditaduras que por alma e graça do divino espírito santo se atribuem à esquerda (incluindo como de costume o Cambodja), entramos na incapacidade argumentiva mais básica.

Primeiro porque se o assunto é comigo, era bom que encontrassem uma linha onde tenha defendido qualquer um dos carniceiros citados ou um regime seu aparentado. E segundo porque as ditaduras não são uma operação contabilística quantitativa e se o fossem conviria utilizar percentagens, ou acabamos a meter o China dentro da Chile, e se calhar não cabe, de resto não há números fiáveis para nenhuma ditadura, nem a Alemanha hitleriana contabilizou as suas vítimas. Um morto chega perfeitamente para enumerar criminosos, a morte é irreversível independentemente das convicções religiosas de cada um e uma ditadura é sempre um modo insuportável de se viver, excepto para os opressores. Basta ter experimentado a portuguesa para dar por isso. [Read more…]

Ao cuidado do insurgente mental Miguel Botelho

Convém ler primeiro o que se tem lá em casa:

Sem morrer de amor pelos Coronéis, entre eles e a Syriza, venha o exército inteiro.

Evita-se asnear tanto depois. Quando se compara estalinismo e trotsquismo temos a ignorância instalada entre os “liberais”, essa designação tão a despropósito para o que não passa de absolutismo do mercado. Já sei, Pinochet não foi fascista, e os coronéis gregos uns meros patriotas ligeiramente exaltados.

Tudo isto até podia ter a sua piada, mas morreram homens, outros foram presos e torturados. Chamar parvo a quem defende criminosos é mesmo muito aligeirado.

O neo “liberalismo” pinochetazo

Que caiam muitos mais, seja pelo voto, seja pela força

– diz um pinochetinho tuga referindo-se aos governos de esquerda sul-americanos.

Um “liberal” chama os coronéis

O pânico perante a possibilidade de os gregos votarem à esquerda faz sair os pinochetinhos do armário.

O pupilo chamou o mestre

O algodão não engana: misturar trotskistas com a União Soviética, é joão-almedismo puro e duro. Já agora, também lhe ofereço um vídeo:

Com a ressalva de não achar que todos os anti-marxistas tenham necessariamente um sinistro fascínio (passe a redundância) por Pinochet (passe o pleonasmo).

A Ditadura de Pinochet

Leio no Público de hoje que o Presidente Piñera quer fazer aprovar um novo regulamento para eliminar a palavra «ditadura» das referências ao período entre 1973 e 1990 ( governo de Pinochet) e substituí-la por «regime militar» nos manuais escolares.
O general com “mão de ferro” , que depôs Salvador Allende (tio da escritora Isabel Allende e pai da senadora com o mesmo nome!), instaurou “um regime de brutal repressão política”. Veio a descobrir-se o desaparecimento de mais de 3 mil pessoas e a prisão ilegal e tortura de 37 mil.
Lembrei-me imediatamente de Luis Sepúlveda, que conta em A Lâmpada de Aladino (2008), as atrocidades levadas a cabo por militares chilenos “a homens de talento”  amigos do escritor, durante a ditadura de Pinochet. Vale a pena reler: ” O Siete  era um jornalista chileno, desenhador talentoso além de fotógrafo, a quem um militar chileno tentou decepar a mão direita (…). O militar, uma besta (…) odiava, como todos os militares, as mãos dos homens de talento. Por essa mesma razão, antes de assassinar Víctor Jara [16/9/1973], outro (…) lhe cortou as mãos, atirando-lhe depois uma guitarra para que tocasse. Também ao maravilhoso pianista argentino Miguel Ángel Estrella tentaram cortar as mãos numa prisão uruguaia, mas o querido Chango continua a tocar. (…) [O Siete ] Com sete dedos apenas, a sua paixão pelo desenho transformou-se em mais do que uma necessidade, transformou-se num desafio. Aprendeu a segurar o lápis entre o polegar e o mindinho direitos e, entre outras obras de arte, falsificou durante anos os melhores passaportes e vistos de que precisávamos para sobreviver no exílio”.
Histórias que não se podem esquecer, antes contá-las aos mais novos e reavivá-las aos mais velhos.

Provado suicídio do Presidente Salvador Allende

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Morávamos na 6ª Carlton Terrace, em frente a Holyrood Palace, a casa da Rainha Mary Stuart, mais tarde da Monarquia Britânica. Tinha, entre 200, ganho o terceiro lugar para acabar os meus estudos de pós graduação em Antropologia e Ciências da Educação. Éramos a minha mulher, a nossa única filha Paula, hoje psicanalista, e, por parto, os nossos amigos argentinos, a família Gaudio, Ricardo e Sida e o seu filho Santiago. [Read more…]

O 11 de setembro que mudou o mundo

Friedman e Pinochet

No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar chefiado por A. Pinochet derrubou o governo do Chile presidido por Salvador Allende, eleito socialista que governava recuperando a unidade dos primeiros governos de Frente Popular. Foi para a esquerda um acontecimento que fecundou na altura discussões eternas sobre via eleitoral e via revolucionária, já para não falar da denúncia da mãozinha do Kissinger, sua CIA e governo dos States. A nostalgia ainda hoje é essa.

Para o Portugal que poucos meses depois iniciou um Processo em Curso que a bem dizer nunca foi Revolucionário, o massacre da esquerda chilena (30 000 mortos, segundo a Amnistia Internacional, fora campos de concentração e tortura) pairava nas constantes ameaças de pinochetazo, abortadas num 11 de março precoce e desaparecidas com um 25 de novembro versão português suave.

Isto mudou o mundo?

aparentemente não, o mundo não é o Chile. O aparentemente serve para a versão politiqueira que os media e algumas ciências de ocasião vão fazendo.  Mas mudou, e muito.

Em 1958 a Pontificia Universidad Católica de Chile tinha estabelecido um acordo com a Universidade de Chicago através do qual vários dos seus alunos foram aprender com Milton Friedman aquilo que hoje chamamos de neo-liberalismo. Augusto Pinochet abriu-lhes a porta para governarem, assumindo o que ficou conhecido pela experiência dos Garotos de Chicago, feliz tradução na Wikipédia para Chicago Boys.

Sob uma repressão brutal e 20% de desempregados a mais torcionária das ditaduras sul-americana do fim do século passado, construiu isto: [Read more…]

A máquina do tempo: Víctor Jara

A música para este poema de Pablo Neruda – «Poema 15», «Me gustas cuando callas» – foi escrita por Víctor Jara, que interpreta também a composição. Todos ouviram já falar do cantautor Víctor Jara. Até existe em Portugal um agrupamento chamado Brigada Víctor Jara. Alguns até devem saber que era chileno. Outros, indo um pouco mais longe no conhecimento sobre este grande cantor, saberão que foi assassinado nos primeiros dias da feroz repressão que se seguiu ao golpe de estado de Pinochet. Vou hoje falar sobre esse homem que se transformou num dos símbolos da heróica resistência chilena à ditadura militar. Sábado passado, dia 5, foi realizada uma cerimónia, um segundo funeral do grande músico, já que o primeiro se fez clandestinamente. Desta vez, uma multidão acompanhou Jara  – sobreviventes da ditadura e do exilio. O cantor catalão Joan Manuel Serrat escreveu um texto de homenagem. Trinta e seis anos depois, Víctor Jara teve um funeral condigno. [Read more…]

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