A vida entre carimbos

Há a vida plena de riscos, vivida sobre a lâmina, pulsante, imprevisível, trágica e hilariante, e há a vida tal como é vivida no cartório notarial. A vida no cartório toma o seu tempo e segue os seus caminhos, que se traduzem inevitavelmente em fotocópias, registos, declarações, certidões, actas de deliberação, certidões de teor, registos prediais.

No notário, nada é súbito. Nem a morte, para tomarmos o exemplo mais extremo. Uma pessoa pode estar morta, inegavelmente morta, mas só o estará deveras quando o óbito tiver sido declarado na Conservatória do Registo Civil, e logo em seguida nas Finanças. Não se está morto sem que os documentos, muitos documentos, o comprovem. Se há pulso ou não, se os pulmões aceitam ar e o devolvem ou não, isso é matéria que só interessa no mundo de lá de fora. Dentro do notário é preciso certidões. São elas que traçam a linha entre a vida e a morte. [Read more…]