A vida entre carimbos

Há a vida plena de riscos, vivida sobre a lâmina, pulsante, imprevisível, trágica e hilariante, e há a vida tal como é vivida no cartório notarial. A vida no cartório toma o seu tempo e segue os seus caminhos, que se traduzem inevitavelmente em fotocópias, registos, declarações, certidões, actas de deliberação, certidões de teor, registos prediais.

No notário, nada é súbito. Nem a morte, para tomarmos o exemplo mais extremo. Uma pessoa pode estar morta, inegavelmente morta, mas só o estará deveras quando o óbito tiver sido declarado na Conservatória do Registo Civil, e logo em seguida nas Finanças. Não se está morto sem que os documentos, muitos documentos, o comprovem. Se há pulso ou não, se os pulmões aceitam ar e o devolvem ou não, isso é matéria que só interessa no mundo de lá de fora. Dentro do notário é preciso certidões. São elas que traçam a linha entre a vida e a morte.

Os soldados do notário, isto é os funcionários que atendem ao balcão e respondem a uma infinidade de perguntas complexas sobre procedimentos tortuosos – comprar uma casa, registar um carro, herdar a casa dos pais, reconhecer uma assinatura, constituir uma sociedade, partilhar bens depois de um divórcio – são gente admirável, que consegue traduzir as inquietações vitais de cidadãos ignorantes em passos mecanizados dentro do intricado e cinzento mundo da burocracia legalista.

O cidadão ignorante chega com aquilo que ele pensa que é um problema simples, por exemplo comprar uma casa que, em rigor, é do banco, e os funcionários notariais convertem o problema simples numa lista de documentos a apresentar de forma a que tudo esteja tão complexamente legalizado quanto deve estar. O cidadão parte,  então, para o mundo hostil onde deve lutar epicamente para conseguir os documentos e regressar, em triunfo, ao cartório. Os soldados do cartório notarial vibram com essas conquistas e sofrem com as derrotas do cidadão.

– Então não lhe passaram isso por quê?

– Dizem que já não está no sistema.

– Mande-os ir ao arquivo morto, que tem de estar lá.

E de ânimo revigorado, o cidadão parte para nova investida contra a besta, levando desta vez a senha secreta que lhe foi confiada e que deve revelar quando estiver frente à criatura. “Arquivo morto” exclamará, como se gritasse “El-rei Dom João Segundo!” ao mostrengo, e assim poderá derrotar a criatura de uma vez por todas.

Só quando paga todos os tributos sob a forma de “papelada” a apresentar é que o cidadão é admitido na câmara do Notário, responsável máximo do cartório e habitualmente conhecido como “senhor doutor” ou “senhora doutora”. Os estilos variam, há-os mais emproados ou mais populares, mas em geral são surpreendentemente simpáticos e pequenos, talvez porque, depois de tantos tormentos, o cidadão espere um Adamastor intransigente e lhe apareça um burocrata amável e de baixa estatura. Algo de semelhante ao que acontece quando a Dorothy e os companheiros ficam, por fim, frente-a-frente com o Feiticeiro de Oz, se se recordam da história.

É certo que os soldados do cartório contribuem para essa imagem hiperbólica do Notário, colocando mil e uma dificuldades a que o cidadão ignorante chegue à fala com eles e referindo-se sempre ao chefe pelo seu título e jamais pelo nome. Num cartório notarial por onde passei umas quantas vezes, havia uma folha A4 colada na parede, com a indicação das extensões telefónicas dos funcionários. Mudei os nomes, mas era parecido com isto:

01 – Arminda

02 – Paula

03 – Miguel

04 – Senhor Doutor

Nunca vi o Senhor Doutor, embora lhe tenha ouvido a voz, certa vez, franzina e melíflua, pedindo que lhe levassem um carioca de limão.

A vida no notário corre lenta, entre carimbos, e cada cliente que chega é uma lufada de vida. E de certidões. Quando passo por lá, sou sempre bem recebida pelas minhas amigas soldadas, e há invariavelmente uma que me pergunta se está frio, ou já chove, ou se o sol está quentinho, como se levasse a vida toda ali e jamais saísse, ela que até tem horários razoáveis e grandes janelas viradas para a rua. Mas alguma coisa a faz sentir que a vida está lá fora, para além das certidões e das actas de deliberação. Uma coisa é certa, é uma vida terrivelmente desordenada.

Comments

  1. Rui Esteves says:

    Gostei da comparação. O notário, o sôtor, é como o feiticeiro de Oz – quando finalmente chegamos ao seu gabinete estranhamos que seja humano, baixote e com os dedos amarelos do cigarro.
    E dantes, no tempo do dr. Salazar, usava uns protectores nas mangas para poupar o casaco em que se notava já o brilho do uso.


  2. E grandes progressos foram feitos desde a privatização dos cartórios, consegui entrar 2 minutos antes do fecho e sair com um documento reconhecido, algo impensável há uns anos, onde teria simplesmente ouvido um volte outro dia dentro das horas de expediente…


    • Isso é muito relativo. Fui muitas vezes a um cartório, antes da privatização, que tinha uma excelente equipa de funcionárias simpáticas e eficientes. Nunca saí sem ser atendida.

  3. Rui Manuel de Carvalho Pereira Cabral says:

    maravilha de escrita.

  4. sinaizdefumo says:

    « “Arquivo morto” exclamará, como se gritasse “El-rei Dom João Segundo!” ao mostrengo…» 🙂 🙂 🙂


  5. Ó Carla, isto é sobre quê?
    Acorde. Notário é notário, não é registo.
    E notário liberal é notário liberal, não tem nada a ver com notário funcionário, Certo?

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