Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos. (…) O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas.
Cheques, ensino e bom senso
«Isso era o que você queria. O meu pai é que lhe paga o ordenado!» («estórias» do ensino privado)
Eis uma frase que foi dita por um aluno a uma amiga que lecciona num colégio privado do Porto. A frase surge num contexto óbvio: a professora chamava a atenção ao aluno e ameaçava-o de ter negativa no final do ano se continuasse a comportar-se daquela forma.
Como é óbvio, na generalidade das escolas privadas os clientes, perdão, os alunos, sabem que têm as «costas quentes» e que, fazendo muito ou fazendo pouco, passam sempre com excelentes notas. Nos bons colégios privados, mesmo bons, não acontecerá isso – o aluno fraco simplesmente é convidado a sair, para que não estrague as médias do colégio. Mas na generalidade dos colégios, a situação que relato é o dia-a-dia.
Num colégio privado, as boas notas estão garantidas.






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