Cheques, ensino e bom senso

Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos.  (…) O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas.

Ana de Amsterdam

Comments

  1. Xokapic says:

    e ainda dizem que não há preconceitos…. hipócritas.

  2. Rodrigo Costa says:

    … Eu acho que quem procura, essencialmente, a protecção e a segurança para os seus filhos, na secundarização da aquisição de conhecimento, não deve procurar a Escola, mas um armazem sem janelas nem portas, mas com grades e, por via das dúvidas, com dois ou três guardas, do lado de fora. Os livros, as fórmulas e os professores serão material desnecessário, porque a procura do conhecimento não os protege, expõe-nos; e, quem é rico —essencialmente aqueles que vieram da merda e que por lá continuam— nem sequer necessita de se preocupar com o conhecimento, com o saber, que pode, inclusive, ser estorvo para a manutenção da fortuna. E a luz… o cuidado com a luz, de qualquer natureza, porque pode levar as crianças, de qualquer cor ou raça, a ver coisas que nunca viram, tais como, por exemplo, um espelho e o seu reflexo.

    Na verdade, se eu fosse criança ou tivesse filhos em idade escolar, haveria de fazer o possível por por frequentar ou por que frequentassem a escola onde andarão, por exemplo, os netos do Oliveira e Costa; os descendentes do Dias Loureiro, e até do próprio Presidente da República, esperançado em que a transmissão genética obedeça ao princípio das trasfegas e das cadelas que amamentam e transferem, no leite e para as crias, o suporte da barreira imonológica, elas-próprias ficando sem defesas e expostas; com lesões, se as houver, que não cicatrizam, como nos é dado ver, enquanto não for estancada a corrente —não sei qual é o valor do cheque-ensino, mas duvido que dê para alimentar a esperança de pais pobres; e estaremos, possivelmente, perante a reedição do Xá da Pérsia, que, quando deposto, declarou que não fazia ideia que houvesse tanta gente a passar mal. Quer dizer: este discurso é de pobre, mas não de alguém a quem falte dinheiro. Coisas distintas.

    Não sei —tenho dúvidas— se, ter caridade e ser piedoso —ainda que comedidamente—, se coaduna com a insensatez expressa na pérola transmitida. A única certeza que tenho é a de que não posso ter piedade nem ser caridoso com tais dislates, sobe pena de não ser pedagógio; porque não é a segurança do autor ou da autora que me preocupa, mas a sua ignorância. Talvez talvez tenha lido Sócrates —o verdadeiro, o que frequentava a casa de Céfalo, e não o acéfalo—e não tenha comptreendido, como devia, o modelo de cidade de que foi construindo o conceito, entre ironias e o desejo de realidades práticas.

    Para tentar acabar como mereço, devo declarar que a segurança também é coisa que me preocupa; mas que a reconheço como questão secundária, porque deriva da ausência da primária, a EDUCAÇÂO, pelo conhecimento.

    Quer dizer: só poderemos começar pelo fim, se isso nos levar, rapidamente, ao princípio, a FORMAÇÂO. E isto leva-nos à necessidade de reformular as sociedades, as quais não se modificarão com cheques-ensino, a que eu chamaria, digamos assim, uma espécie de antibiótico. Ora, para quê, passarmos a vida a combater as infecções e sem atentarmos na profilaxia?

    Nota: Eu não queria molestar ninguém, mas tenho receio que esta “pérola” seja fruto do ensino privado; seja provindo de alguém que vive em condomínio fechado, a modos que Michael Jackson, figura mítica e ridiculamente precavida contra todo o tipo de viroses; vítima da natureza que lhe vitimou o aspecto e que acabou por o vitimar a ele… Codomínio fechado, câmaras de videovigilância; e a insegurança como consequência de gabinetes ministeriais sem câmaras.

    Nota: Tenho sorte, porque não tenho filhos. Dupla sorte: porque os não tenho, e porque não corro o risco de que sejam colegas dos filhos desta senhora —antes, possivelmente, da sua empregada. Nada é certo, porque não é a condição que determina o carácter.

  3. Rodrigo Costa says:

    “imunológica”, peço desculpa.

  4. mau10 says:

    Faço minhas as suas palavras, Rodrigo.

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