Acordo Ortográfico: “Jornal de Notícias” pára para ver

A imagem foi detectada pelo olho de lince do nosso Dario Silva, na página do Jornal de Notícias, ontem de manhã. Relembre-se que o centenário e respeitável periódico adoptou o acordo ortográfico (AO90) já há algum tempo.

Na Base IX, 9º, do AO90, estipula-se que “deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição; (…).” Como já várias pessoas notaram, o mesmo acordo obriga, no entanto, à manutenção do acento em “pôde”, para que não se confunda com “pode”, uma de muitas inconsistências inaceitáveis. [Read more…]

Acordo Ortográfico: António Emiliano e a insignificância da ortografia

Não sei se é um hábito exclusivamente luso, mas a tudologia parece-me ser um vício entranhado no carácter do cidadão português. Escrevi, há alguns anos, dois textos (aqui e aqui) sobre a facilidade com que aqueles que não são professores têm opiniões que consideram fundamentais e fundamentadas sobre Educação e sobre o próprio quotidiano da profissão docente.

Não é de admirar que isso aconteça num país habitado por treinadores de bancada, aptos a resolver, de modo expedito, os problemas da equipa que apoiam, ao contrário dos treinadores encartados que se sentam no banco.

No que se refere às ciências humanas e sociais, o tudólogo sente-se à vontade, porque matérias como História, Literatura ou Geografia parecem ao alcance de qualquer mortal com dois dedos de testa e três dedos de conversa. Não desejo defender que só os especialistas sejam autorizados a emitir opiniões sobre as matérias em que se especializaram, mas nada me impede de aconselhar aos leigos que tentem, pelo menos, informar-se sobre aquilo que pensam os estudiosos.

O debate sobre o AO tem sido um campo fértil do exercício da tudologia, com o consequente desprezo pelos especialistas. Um dos disparates mais defendidos pelos apressados defensores do AO é o de que não tem importância nenhuma mexer na ortografia, dislate repetido recentemente pelo Secretário de Estado da Cultura, com o argumento de que é um objecto artificial.

António Emiliano pode ser um homem detestável ou uma excelente pessoa ou alternar ambas as características ao longo do dia ou conforme as estações do ano, mas é um linguista com provas dadas. É por essa razão que é importante, pelo menos, ler o que escreve e, depois, aproveitar para reflectir.