Acordo Ortográfico: António Emiliano e a insignificância da ortografia

Não sei se é um hábito exclusivamente luso, mas a tudologia parece-me ser um vício entranhado no carácter do cidadão português. Escrevi, há alguns anos, dois textos (aqui e aqui) sobre a facilidade com que aqueles que não são professores têm opiniões que consideram fundamentais e fundamentadas sobre Educação e sobre o próprio quotidiano da profissão docente.

Não é de admirar que isso aconteça num país habitado por treinadores de bancada, aptos a resolver, de modo expedito, os problemas da equipa que apoiam, ao contrário dos treinadores encartados que se sentam no banco.

No que se refere às ciências humanas e sociais, o tudólogo sente-se à vontade, porque matérias como História, Literatura ou Geografia parecem ao alcance de qualquer mortal com dois dedos de testa e três dedos de conversa. Não desejo defender que só os especialistas sejam autorizados a emitir opiniões sobre as matérias em que se especializaram, mas nada me impede de aconselhar aos leigos que tentem, pelo menos, informar-se sobre aquilo que pensam os estudiosos.

O debate sobre o AO tem sido um campo fértil do exercício da tudologia, com o consequente desprezo pelos especialistas. Um dos disparates mais defendidos pelos apressados defensores do AO é o de que não tem importância nenhuma mexer na ortografia, dislate repetido recentemente pelo Secretário de Estado da Cultura, com o argumento de que é um objecto artificial.

António Emiliano pode ser um homem detestável ou uma excelente pessoa ou alternar ambas as características ao longo do dia ou conforme as estações do ano, mas é um linguista com provas dadas. É por essa razão que é importante, pelo menos, ler o que escreve e, depois, aproveitar para reflectir.

Comments

  1. H. Benoit says:

    Concordo plenamente que se deva ler o que especialistas escrevem e dizem, mas seria bom indicar também especialistas que defendem o acordo ortográfico. Não li ainda cuidadosamente o texto de Emiliano, mas fiquei em todo caso com a impressão de que alguns argumentos apresentados por ele são fracos já de um ponto de vista formal, outras afirmações são discutíveis. Seria bom lembrar que países de língua alemã realizaram de fa(c)to há poucos anos um acordo ortográfico, apesar de muitas resistências. Ao comparar o português com línguas escandinavas o Sr. Emiliano parece ter-se esquecido que línguas escandinavas como dinamarquês e sueco são línguas claramente distintas ao passo que o português de Portugal e do Brasil não são. O seu texto fica ainda mais desvalorizado pelas afirmações infantis acerca da implantação da República em Portugal.

  2. H. Benoit says:

    esqueci de dizer. A rigor não existe ortografia oficial na Alemanha. Cada um tem o direito de escrever usando a ortografia que bem entende. Isso inclui jornais e editoras que usam a ortografia que escolhem. A ortografia oficial só é obrigatória para instituições públicas como ministérios mas também escolas.

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  1. […] Emiliano é linguista e Francisco José Viegas é político. O primeiro está habituado a fazer perguntas, porque isso […]

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