Quase nuas

(adão cruz)

Quase nuas quase silêncio as palavras quase música fendem como lâminas as sombras dos dias ocultos.

Quase nuas quase silêncio as palavras quase música dizem a quem as ouve que há sol para lá da chuva.

Quase nuas quase silêncio as palavras quase música são água de quem as lê nas entrelinhas da secura.

Quase nuas quase silêncio quase cor as palavras quase música dizem a quem as sente que não há forma de ser por fora das palavras nuas.

Ao soar das horas mortas

 

Ao soar das horas mortas, nest’outro modo de ser hoje, recolho as asas tombadas à saída do corpo, asas de voo natural, sublime, acima das coisas.

Para lá do nevoeiro, sei que moram os dias claros e as nirvânicas noites. Apetece-me gritar: Menino, pastor da noite! Menino, pastor da noite!

Vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo, tento fundir a neve com o calor da nudez. O cansaço e a ideia, do lado de fora de uma teia sem olhos, são fios que tecem, mais tarde ou mais cedo, o mundo das sombras.

A respiração acabou e o poema nasceu fechado, cianótico, asfixiante. No imediato corpo, tão longe e tão perto, um frio azul anidrido carbónico encharca as palavras secas.

Velha semente sem terra, nova terra sem semente, um tal dizer feito de gestos, e o prazer de supor que a água ainda corre nas entrelinhas da secura.