Cantona, inconsequente como sempre

Se o jogador Eric Cantona alternou nos campos o melhor e o pior de um jogador de futebol, o cidadão Cantona alternou pouco, foi sempre consequente na inconsequência.

E se a proposta de Cantona era populista e demagógica, especialmente vinda de alguém que depende absolutamente dos bancos para guardar a imensa quantidade de dinheiro que possui, o seu autor não se preocupou sequer em ocultar o facto de eticamente estar entre o caracol e a alface. Apelou aos outros, mas levantou dinheiro seu de um banco… e depositou-o noutro.

Eu, se pertencesse a um desses setores ideológicos teatrais de reflexão histriónica, diria que com amigos destes não precisaríamos de inimigos.

Por outro lado, políticos e banqueiros irromperam das suas redomas e chamaram irresponsável ao sr. Cantona. Ora, se bem percebo, os bancos agarraram em todo o dinheiro que tinham e que não tinham, levantaram-no e, abreviando, emprestaram-no sem garantias suficientes.

Os srs. com ar jocoso e responsável não falaram, nessa altura, em irresponsabilidade. É pena, porque se o tivessem feito, ter-nos-iam poupado muitas chatices e preocupações, além das tiradas do Eric. Eis um retrato dos tempos de glória, encomendado pelo próprio.

Os conselhos revolucionários de ERIC CANTONA

Os franceses cumprem hoje nova jornada de luta. Há manifestações em várias cidades, contra o aumento da idade para a reforma.

Eric Cantona, um ex-futebolista de carisma quizilento e controverso, também se referiu aos movimentos sociais contra a citada medida, decidida pelo governo francês. Diz ele que as ‘manif’s’ e greves são insuficientes para gerar uma revolução e que, para o caso, o recurso a acções armadas é igualmente desajustado.

Em alternativa, e partindo do princípio de que o sistema está construído sobre a banca, os 3 milhões de pessoas, em vez de descerem à rua em protesto, deveriam ir aos bancos levantar o dinheiro depositado. E se fossem mais, as dificuldades do sistema ainda seriam maiores.

Confesso surpresa perante esta tirada de Cantona e nem vou discutir a autoridade moral do ex-futebolista para tal conselho revolucionário. Todavia, a ser seguido massivamente em França e noutros países europeus – falemos só da Europa, agora – o conselho em causa, estou certo, provocaria uma revolução cujos efeitos totais sinto dificuldade em imaginar. Sofreria apenas a banca? Duvido e ‘aqui é que a porca torce o rabo’.