O mundo ao contrário

Hoje vi, com estes olhinhos que a terra e os bichos vão deglutir, um andor a ser carregado (numa procissão do Norte de Portugal) por um jovem com uma camisola com a cara do Che Guevara!

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O Ernesto deve ter dado umas valentes voltas no caixão. Ou não.

Os mortos têm dono?

Não é por acaso que temos a expressão  deve estar às voltas no túmulo,  usada quando entendemos que uma determinada homenagem póstuma não honra o homenageado, seja pela sua natureza, seja pela dos seus intervenientes.

Também tenho umas irritações deste género. Em particular chateia-me que os que mandaram Ernesto Che Guevara para o suicídio bolivariano, nomeadamente Fidel Castro às ordens do Politburo que então governava a URSS e estava farto das heterodoxias do revolucionário sul-americano, apareçam ainda hoje como fiéis herdeiros do seu pensamento.

Se Che não tivesse embarcado na armadilha que lhe montaram, como teria reagido ao evoluir da política cubana? Teria continuado em rota de colisão com o pseudo-socialismo soviético?

O facto é que ninguém sabe. Os mortos fazem-nos falta, mas não são nossos.

 

Ninguém é dono dos ses que podemos construir sobre o que acharia hoje Fulano ou Sicrano sobre o estado a que chegou a democracia portuguesa.

É que se muitos se preocupam com as más companhias de José Sócrates, eu digo que é ele a má companhia, sempre o foi, exemplo de arrivista sempre metido em trapalhadas obscuras, pisando quem for preciso para satisfazer uma ambição pessoal desmedida, político de uma geração que se fez em busca da carreira e cuja única causa sempre foi a sua. Não consigo defender um estado de direito onde os governantes passam incólumes a despeito de ser pública e notória a forma como se usam do estado em proveito próprio.

O que pensaria sobre isto Salgueiro Maia? Ninguém sabe, nem os que dele estiveram mais próximos, nem os que nunca o conheceram pessoalmente.

Ninguém é dono do pensamento dos outros, mesmo tendo sido seu camarada, nem das homenagens que quem o entende lhe queira fazer. Muito menos quem não é capaz de entender que num blogue se podem expressar ideias contrárias,e que mesmo com alguns abusos de linguagem consigamos coexistir pacificamente.

A terra é de quem a trabalha como os filhos de quem os ama, lembrava Brecht referindo-se a Salomão. E os mortos de quem os homenageia, acrescento eu, mesmo que tal por vezes nos traga amargos à boca.