Que nunca nos falte a bondade dos estranhos

Detenho-me à saída do hospital porque a porta está bloqueada por um grupo acabado de chegar. No centro do grupo está um velho em equilíbrio precário, ladeado de mulheres que tentam ampará-lo. Na confusão de braços à sua volta, o homem emerge como um colosso arruinado, prestes a afundar-se. As mulheres soltam gritinhos, risos abafados, há demasiadas mãos a puxá-lo para um e outro lado. E é então que lhe caem as calças, ao velho homem, e é assim que ele me aparece, à porta do hospital, com as calças caídas no chão e a ignominiosa fralda à mostra de todos. Ao meu lado, de saída também, e à espera que a passagem obstruída pelo grupo fique livre, uma mulher abafa uma risada.

O homem tem um rosto corado, um pouco tumefacto, e não está claro se mantém a lucidez. As mulheres sobem-lhe as calças, seguram-no quando, num momento de atrapalhação delas, ele quase se derruba sobre si mesmo, e fazem-no risonhas, como se houvesse algo de burlesco em tudo aquilo, e tratassem com uma criança pequena, ou com um pobre tonto de quem todo o bairro faz pouco. [Read more…]

A gentileza dos estranhos

Será porque a vida se vai fazendo mais dura, com a famigerada crise, a precariedade laboral, o aumento da violência, a fragmentação do tecido social, a desestruturação da família, será por tudo isto que nos fomos esquecendo da amabilidade?

Há dias, no supermercado, uma senhora em cujo rosto se viam as marcas de muitas aflições, sorria docemente aos comentários que o meu filho ia fazendo e insistiu em que passássemos à sua frente, porque a fila era prioritária para idosos, grávidas e pessoas com crianças. E era, de facto, mas eu nem me lembrava disso porque raramente alguém me havia cedido passagem mesmo quando eu estava grávida ou quando o meu filho ainda era um bebé de colo.

E muito menos se havia visto por ali quem cedesse passagem a alguém por ter apenas um ou dois artigos ou por parecer debilitado, ou simplesmente porque se tem tempo e atrás está alguém que aparenta estar genuinamente apressado. Desconfiamos das intenções de quem pede alguma coisa, tememos ser tomados por parvos e já nem ouvimos, levantamos a mão, abanamos ligeiramente a cabeça, em jeito de quem diz “dispenso” e passamos ao largo.

Há uns anos tive a experiência de estar noutro continente, numa cidade de milhões de habitantes, a distribuir panfletos à saída do metro. [Read more…]