Que nunca nos falte a bondade dos estranhos

Detenho-me à saída do hospital porque a porta está bloqueada por um grupo acabado de chegar. No centro do grupo está um velho em equilíbrio precário, ladeado de mulheres que tentam ampará-lo. Na confusão de braços à sua volta, o homem emerge como um colosso arruinado, prestes a afundar-se. As mulheres soltam gritinhos, risos abafados, há demasiadas mãos a puxá-lo para um e outro lado. E é então que lhe caem as calças, ao velho homem, e é assim que ele me aparece, à porta do hospital, com as calças caídas no chão e a ignominiosa fralda à mostra de todos. Ao meu lado, de saída também, e à espera que a passagem obstruída pelo grupo fique livre, uma mulher abafa uma risada.

O homem tem um rosto corado, um pouco tumefacto, e não está claro se mantém a lucidez. As mulheres sobem-lhe as calças, seguram-no quando, num momento de atrapalhação delas, ele quase se derruba sobre si mesmo, e fazem-no risonhas, como se houvesse algo de burlesco em tudo aquilo, e tratassem com uma criança pequena, ou com um pobre tonto de quem todo o bairro faz pouco.

Alguém comenta “ao que a gente chega”, ou algo parecido, essas frases que se dizem dos que estão caídos, e de quem se supõe que perderam a audição ou a capacidade de entendimento ou o direito à dignidade. O velho olha em volta com espanto, com algo de susto, e não olha para o chão quando as calças lhe caem, olha em volta como um homem acossado, e olha para mim, que estou à sua frente, e eu baixo os olhos, finjo que não vi as pernas emaciadas e a fralda indigna. Mas arrependo-me logo e levanto a cabeça e olho este homem nos olhos, que talvez cintilem ainda um pouco, e sorrio-lhe.

Aguenta-te aí, velhote, digo-lhe sem lhe dizer, aguenta os risos que são bofetadas e os comentários infames, nada disto conta para nada, já sabes. Quem nunca ficou exposto ao riso da turba ou ao veneno dos caridosos?

Pisco-lhe o olho. Ele não move um músculo do rosto mas está a olhar para mim.

Um enfermeiro traz uma cadeira de rodas, puxa as calças do homem, ajuda-o a sentar-se, leva-o para longe dos olhares e dos murmúrios, das cabeças a abanar com piedosa comiseração. As mulheres seguem atrás, em procissão tagarela e risonha. Que nunca nos falte a bondade dos estranhos, ámen.  

Comments

  1. Konigvs says:

    Cada vez menos há bondade e preocupação na selva urbana. À coisa de pouco mais de dois anos um velho a cinquenta metros do Hospital atravessa um jardim onde eu fazia tempo, e vi-o passar caminhando com dificuldade. Naquele jardim várias pessoas se cruzavam, duas jovens estavam sentadas no chão e encostadas a uma árvore, e mais à frente os taxistas reunidos em círculo discutiriam certamente a crise. De repente vejo o homem lá ao longe cair redondo no chão. Naquele segundo olho em volta e as meninas continuavam a conversar encostadas à árvore como se não estivesse um ser humano tombado no chão a dez metros delas, e os taxistas continuavam a sua amena cavaqueira. As pessoas passavam, poderia estar ali um homem morto no chão que ninguém lhe deitou a mão, ou perguntou se precisava de ajuda.
    Naquele segundo devo-me ter perguntado – que merda de sociedade é esta em que eu vivo?
    Naquela altura eu mancava e ao andar tinha dores e não podia correr, mas lá fui o mais depressa que pude ver o que se passava com aquele homem que parecia invisível a todas as pessoas que passava por ele. Conversei com ele, e inteirei-me da situação e disse-lhe “esteja calmo que vou ali ao hospital buscar ajuda”. Chego ao hospital exponho a situação e respondem-me “Olhe, se fosse desse risco para dentro era da nossa responsabilidade, da porta para fora não. Chame o 112”: Lá fui eu de novo a mancar pensando que certamente nestes minutos desde que deixei o homem lá caído no chão até que chegasse a ele de novo, que já estariam lá pessoas a ajudá-lo.
    Não. Cheguei junto dele, e lá estava ele, deitado no chão, e as pessoas cruzavam-se umas pelas outras, os taxistas continuavam na conversa, as meninas encostadas à árvore e o homem no mesmo sítio, completamente invisível a quem passava.
    – Mas que merda de sociedade é esta em que vivemos?

    • Carla Romualdo says:

      apesar de tudo, acho que a euforia individualista está a dar com os queixos no chão e começamos todos a olhar para o lado e, mais do que a olhar, a tentar ver quem lá está

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Já há bastantes anos vi estirado no chão um homem no passeio perto da minha porta – puxei-o sem ter força – mas consegui perceber que estava perdido de bêbado sem deixar de ter pensado que seria um doente mental do hospital perto de minha casa, que muitos por aqui passavem, direitos, e lá íam – Ainda hoje não sei se estava bêbado de facto e porque razão uma rua com tanta gente a toda a hora, ninguém ajudou e eu, eu não sabia sequer o que fazer mas fui à polícia que é, também, perto da minha rua – Mas uma vez não percebo porque é que não ajudei um senhor que foi atropelado e caíu desamparado e creio ter-me olhado com ar de quem pede – ajude-me – parei para lhe dar o que he salatra dos bolsos pois muitos homens usam carteira no bolso de trás – e como entretanto parou o homem do carro com que o tinha atropelado (BMW) segui o meu caminho já que era num cruzamento da Alexandre Herculano com a Joaquim d’Aguiar – Ainda hoje me penalizo por não ter parado e tê-lo amparado no meu colo pois que não tenho problemas em sentar-ne no chão – mas não sei porque o não fiz mas não sei também porque me penalizo apesar de ter visto que tratariam dele – porque me dói ainda não ter feito o que o seu olhar parecia pedir-me mesmo com o atropelador a fazer o que devia – gestos estranhos como o meu mesmo de quem se condói – Um dos “eus” de mim acusa-me ainda senão já teria talvez esquecido – mas hoje o aventar fez-me relembrar algo que nem sequer foi errado, neste caso, pois que logo estaria a ser cuidado, mas será mais o seu olhar que me ficou cá sempre gravado – a gravar a minha imperfeição – No entanto talvez me tenha redimido desta pois que há dias uma senhora estatelou-se no chão de uma pastelaria onde até estava muita gente e não se levantou logo nem fez gesto de o fazer, mas imediatamente alguém, muito jovem, lhe puxou com força por um braço apenas para a levantar e só me ocorreu gritar e dizer deixe estar pois a senhora podia ter partido um osso qualquer dada a sua idade e a forma como caíu e não se mexeu, e a pessoa que queria ajudar gritou-me que que era enfermeira – ao que lhe respondi POIS não parece e não sabe se ela partiu a bacia ou o colo do fémur ou outro osso qualquer e teremos de esperar que faça um gesto e levantá-la então por baixo dos braços de forma vertical – a enfermeira saíu a correr danada – mas eu desta vez sei que fiz bem – e a senhora levantou-se e andava bem, pelo menos parecia naquele instante embora nunca mais a tenha visto ali e era hábito vê-la quase todos os dias – Como afinal se sabe ajudar quem, e que precisa de uma mão, ou mesmo apenas de um olhar ?


  3. O quadro é bem triste. Quanto desrespeito pela decadência humana, quando ao fim e ao cabo a decadência espreita em todos e cada um de nós.

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