A gentileza dos estranhos

Será porque a vida se vai fazendo mais dura, com a famigerada crise, a precariedade laboral, o aumento da violência, a fragmentação do tecido social, a desestruturação da família, será por tudo isto que nos fomos esquecendo da amabilidade?

Há dias, no supermercado, uma senhora em cujo rosto se viam as marcas de muitas aflições, sorria docemente aos comentários que o meu filho ia fazendo e insistiu em que passássemos à sua frente, porque a fila era prioritária para idosos, grávidas e pessoas com crianças. E era, de facto, mas eu nem me lembrava disso porque raramente alguém me havia cedido passagem mesmo quando eu estava grávida ou quando o meu filho ainda era um bebé de colo.

E muito menos se havia visto por ali quem cedesse passagem a alguém por ter apenas um ou dois artigos ou por parecer debilitado, ou simplesmente porque se tem tempo e atrás está alguém que aparenta estar genuinamente apressado. Desconfiamos das intenções de quem pede alguma coisa, tememos ser tomados por parvos e já nem ouvimos, levantamos a mão, abanamos ligeiramente a cabeça, em jeito de quem diz “dispenso” e passamos ao largo.

Há uns anos tive a experiência de estar noutro continente, numa cidade de milhões de habitantes, a distribuir panfletos à saída do metro.

Foi um ensaio de invisibilidade. Era como se um insecto tentasse chamar a atenção de uma multidão que marchava rápida e impreterivelmente, em plena execução de uma ordem, adormecida e cega a qualquer estímulo usual. Nem um olhar, um sorriso, um insulto, um “não” ou um “obrigado”, salvo raras excepções, não consegui qualquer tipo de interacção humana com aquela gente.

Imigrante, numa posição que era, para quem me via, de total ausência de prestígio social, reduzida a um silêncio imposto pelos outros, ali estava eu, uma “Zé ninguém”, minúscula e insignificante. Nunca mais recusei um panfleto na rua sem olhar quem mo oferecia e dizer-lhe “não, obrigada”, posso garantir-vos. E muitas vezes aceito-os sem os querer e carrego-os por um quarteirão, só para não deitá-los fora frente a quem mos ofereceu, sabendo que a sua função é apenas despachá-los e tanto lhes dá o que fazem depois os transeuntes com eles.

A indiferença face à outra pessoa, a interpretação das suas intenções utilizando a mais dura das bitolas (e os conflitos no trânsito são o melhor exemplo disto), a prevalência dos meus interesses sobre os dos outros, até na mais comezinha das situações, serão uma inevitabilidade num sistema que elevou a regra moral a persecução do êxito pessoal?

Porque não havemos de praticar a amabilidade, não pelo cumprimento de uma moral de ressonância mais ou menos cristã, a qual servirá para muitos mas que a mim, e não serei a única, produz logo anticorpos tal a hipocrisia com que tão frequentemente tem sido invocada, mas pela aspiração de tratar os outros como seres humanos que, no essencial, não diferem de nós mesmos, e de sentir que o que se faz está em consonância com o que se diz?

Para mim, não se trata de um propósito fácil, confesso. Constato a cada dia como me é tortuoso o caminho que conduz a essa coerência entre o que digo e o que faço, e basta um pequeno desvio – uma noite mal dormida, uma dor de dentes, a escassez de tempo, um imprevisto arreliador – para me afastar um bocadinho mais. E da nobre intenção passo ao comentário ácido em dois tempos, ou não tivesse eu uma debilidade vesicular que sempre evoco como desculpa para os meus acessos de mau génio.

Mas, que diabo, não dependemos nós todos da amabilidade dos estranhos? Não vivemos todos presos à mesma instável teia que faz com que a totalidade da estrutura se agite quando uma das partes é atingida?  E não terá de partir também daí a transformação a que aspiramos, nós os que nos queixamos de como vai este mundo?

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Já te tenho dito, minha cara Carla, a bondade é o único sentimento que nos distingue uns dos outros. Daqui a vinte anos não te lembrarás dos inteligentes nem dos ricos, nem dos que achaste bonitos, mas sim de quem é bondoso. Encontrarás muito poucos!


  2. A coerência entre o que se diz e o que se faz, não é fácil, concordo. Carece de uma aprendizagem permanente, de uma procupação constante e constitui o mais calibrado fio-de-prumo da nossa vida. Mas todos, uns mais outros menos, falhamos inevitavelmente. Sem ambilidade e simpatia, a pessoa perde, quer queira quer não, metade do valor que julga ter.

  3. Pedro says:

    Muitas vezes em situações dessas -filas, supermercado, café,et.- somos confrontados com o oposto, a rudeza e a antipatia ostensivas. Sente-se logo e não se gosta. A amabilidade torna tudo mais leve.

  4. maria monteiro says:

    Quando estamos habituados a ser gentis, a proceder de determinada maneira, sai naturalmente, não se pensa, é assim como algo que se faz porque sim, porque sempre se fez… aprendeu-se e pronto … já faz parte de nós.

  5. Carlos Fonseca says:

    A sociedade actual, em particular nos grandes centros urbanos, têm-nos transformado em seres anti-sociais e, por vezes, ficámos tão automatizados no isolamento, que nem damos por quem está à frente, atrás, ou ao lado. Alteramo-nos, sem dar conta. É como o escrever. Aprendemos a desenhar letras e acabamos a riscar gatafunhos.

  6. maria monteiro says:

    Uma carreirinha de palavras que levam à gentileza dos estranhos através dum… olhar (02/80)

    Se me olhas os olhos
    podes encontrar
    tristeza, interrogações
    e as dúvidas
    no meio das ilusões
    dão ao corpo
    o hábito antigo
    de estar vivo;
    Se me olhas os olhos
    podes encontrar
    isolamento, solidão
    e distância
    no modo de agir
    que traduz em lágrimas
    uma forma de sentir;
    Se me olhas os olhos
    podes encontrar
    luz, alegria
    onde sou espelho
    sou vida e retrato
    da minha fantasia
    … e ao me olhares
    podes encontrar
    um ser aquilo que sou
    na minha forma de estar!

  7. Carla Romualdo says:

    É um belo presente para o Aventar, em dia de aniversário, descobrir que a nossa Maria também é poeta (embora a gente já suspeitasse disso há muito). Obrigada, Maria!

  8. Carla Romualdo says:

    Já vi, Luís, e valeu a pena a tua insistência

  9. maria monteiro says:

    Pois é Carla e Luís, mas essa é a Maria de ontem, a de hoje é mais de escrever no livro de reclamações
    bjs

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